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Uma eternidade de mar que nos une- Brasil e Portugal

Brasil, quantas semelhanças com Portugal, quantas identidades adquiridas ao longo de 500 anos desde o seu descobrimento. Nunca se desejou tanto desbravar o “desbravador” como agora. E é esse o momento, talvez, de exaltar o que temos em comum, herdado nesse continuo fluxo de travessia do oceano que nos une.

Depois de viver em Portugal, viajar pelo país e pesquisar algumas hábitos e tradições portuguesas, percebi que muitas das nossas riquezas foram levadas do Brasil pelos portugueses, mas também ao sermos colonizados herdamos inúmeras outras.

Sem entrar no mérito político da questão desse fluxo entre colonizado e colonizador o que importa aqui é ressaltar os pontos convergentes entre os dois países desde a nossa descoberta.

Ouvi inúmeros portugueses falarem muito da nossa cultura. Eles são apaixonados por ela, conhecem a fundo nossa música, nossa literatura e um pouco do “jeitinho” brasileiro, que de alguma forma também foi captado através do vício de assistirem as novelas brasileiras passadas por lá.

Sinto que nós brasileiros precisamos também de um conhecimento maior da cultura portuguesa e quando me refiro a isso é por lembrar que aprendemos o básico na escola sobre a nossa colonização, mas apenas conhecemos o país mais a fundo lendo sobre ele, ou vivenciando o dia a dia. E não é dessa forma que se conhece novos territórios? A jornalista portuguesa, Alexandra Lucas Coelho, fala no seu livro Vai Brasil, de um Brasil multifacetado, com características interessantes, que grande parte dos brasileiros não as conhecem. Ela viveu um bom tempo por aqui. O olhar do estrangeiro parece ser mais aguçado ao desbravar novos territórios.

Quando falo em um conhecimento maior é para ressaltar o que temos em comum. É entender aos poucos como foram fincadas algumas raízes e como existimos a partir da chegada das caravelas que singraram esse imenso oceano.

Portugal foi estabelecido em 1141 como primeira Nação europeia enquanto Estado independente. Seu território continental é de 92.080 km² e possui parte do continente voltado para o mar. O Brasil foi descoberto pelos portugueses em 1500 e tem uma extensão continental de 8.515.767 km², com enorme trecho voltado também para o seu litoral. Há um mesmo oceano  que nos une e que nos separa, mas não só!

A calçada portuguesa é uma das primeiras e mais fortes marcas trazidas para cá, tornou-se uma das identidades que nos une. Há uma história, que não sabemos se é lenda ou realidade, que descreve que os navios para obterem e realizar uma boa travessia com um bom calado vinham cheios de pedras de basalto e de calcário branco e negro, as pedras portuguesas. O retorno era com o nosso ouro e as nossas madeiras. As pedras portuguesas chegaram dessa forma e dá o “tom” português a inúmeras cidades brasileiras como Rio de Janeiro, Manaus, Recife, entre outras. Por ocasião da primavera, a cidade de Lisboa tem uma das mais belas paisagens, os nossos jacarandás floridos com as suas flores roxas. As ruas ficam lindas!

E o Fado? Como não perceber a semelhança na sonoridade com o Lundu Marajoara, música dançada, que por sua vez tem origem com danças angolanas trazidas ao Brasil, como Kaduke de Mbaka, e que também foram levadas a Portugal. E a comida? Temos inúmeras semelhanças, mas nunca faremos os doces como eles fazem!

Av. Dom Carlos I

Acredito que seja necessário bem mais estudos aprofundando a real dimensão dessas influências e origens em ambas as culturas, na culinária, na música, na arte e no artesanato. Detenho-me aqui a falar um pouco das artes e ofícios tradicionais ou, para ser mais precisa, do que vi de artesanato em ambos os países.

Em viagem a Estremoz, Portugal, vi uma exposição de presépios de várias regiões e qual minha enorme surpresa, parecia que eu estava vendo as peças de cerâmicas do Alto do Moura em Caruaru-Pernambuco. Algumas parecidas com as cerâmicas do Vale do Jequitinhonha.

Em outra viagem a Braga e Guimarães, percebi nos bordados feitos por lá inúmeras semelhanças com os bordados encontrados em Passira – Pernambuco e também em alguns bordados mais específicos encontrados na região do Mato Grosso.

O bordado de Filé de Felgueiras encontra sua versão tropical em Alagoas onde abundam cores tropicais e fazem o diferencial de seu irmão português.

Os bordados dos tapetes de Arraiolo, Alentejanos, são encontrados em Minas e em Pernambuco.

As cerâmicas utilitárias que encontramos de Norte ao Sul de Portugal, especificamente em algumas regiões do Alentejo como em São Pedro do Corval, assemelham-se a algumas que encontramos também em Caruaru-Pernambuco e no Espírito Santo.

E como não falar da produção têxtil sem citar as da Região Central, Alentejo e do Minho em Portugal com semelhanças na produção em seus teares das do nosso sertão do Nordeste e de Minas Gerais? Isto para citar apenas algumas tradições artesanais no meio de tantas outras.

São tantas riquezas ora em versão semelhante ora re-interpretadas a partir da miscigenação dos povos e seus costumes, que é difícil alcançar o amplo leque e talvez seja difícil sintetizar em apenas um texto.

O tempo nos deixa de certa forma familiarizados com os objetos encontrados no nosso cotidiano. São tantos materiais e técnicas dos saberes artesanais na nossa imensa cultura que nem sequer pensamos em pesquisar-lhes a fundo quais são as suas origens. Mas quando nos deparamos com esses artefatos com um olhar mais atento, ficamos surpresos e com uma sensação de familiaridade, e não podemos deixar de pensar nesse fluxo.

O fato é que desde que as caravelas atravessaram o Oceano Atlântico e aportaram em solo brasileiro os portugueses entraram em contato com os nossos índios e constaram que eles possuíam hábitos completamente distintos dos da “civilização”. Seus costumes e rituais foram relatados via cartas por Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal.

Uma dessas cartas descrevia como os índios moravam e como dormiam em redes que eles próprios confeccionavam. Na realidade a rede se chamava Ini, mas Pero Vaz nunca perguntou aos próprios índios o seu nome real, batizou-a de rede pela semelhança que havia com as redes de pescar.

A rede foi objeto de estudo de Luís Câmara Cascudo, historiador, antropólogo e folclorista brasileiro, que escreveu o livro Redes de Dormir Uma Pesquisa Etnográfica. Na descrição sobre os hábitos indígenas Pero Vaz fala que os índios dormiam em redes suspensas por dois cabos nas extremidades e que eram feitas com cordas de dois a quatro centímetros de larguras. Já as redes de tecido mais compacto foram feitas posteriormente pelas mulheres portuguesas no Brasil, a partir da introdução dos teares no país. Começaram então as versões mais enfeitadas e com as varandas em franjas.

Curioso ver que apesar das redes confeccionadas pelos portugueses no Brasil terem sido “enfeitadas” e aperfeiçoadas tornando-as mais macias e confortáveis, os portugueses em Portugal não têm o hábito de tê-las em suas casas como os brasileiros. Pouquíssimos lugares usam redes e, quando a vemos, sempre tem o “dedo” de um brasileiro.

E a língua? Somos na América do Sul o único país que tem a língua portuguesa. Ela atravessou o oceano no embalo das ondas desse imenso mar, misturou-se e transformou-se. Temos a mesma língua, mas não a mesma linguagem. Mas é lindo poder perceber que em plena Europa entendemos tudo com uma nova sonoridade. E quando estamos em Portugal nos pegamos, sem querer, a imitar o português na sua fala: “o que estás a fazer?” ao invés de dizer “o que estás fazendo?”. “Não percebo”, ao invés de dizer “não entendo“. “E beijinhos grandes” ao invés de simplesmente beijos, para citar apenas algumas expressões e formas verbais.

E por fim a palavra saudade, que ambos os países usam e que não tem tradução em nenhuma outra língua. Sabe-se da saudade, sente-se a saudade, mas não se traduz essa simples palavra sem utilizar duas ou três a mais para explica-la, e a saudade acaba virando uma outra coisa. Mas nós apenas sintetizamos o que sentimos nesta única palavra a qual foi traduzida brilhantemente nessa fala de Carlos Coelho, português, que exalta Portugal como ninguém e escreveu o livro Portugal Genial.

“Mas não estamos perante um problema técnico de tradução, estamos sim perante a capacidade única de um povo, com alma e um sentir sem igual, que só uma palavra intraduzível poderia expressar.”

Faço minha as palavras dele.

 

 

 

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O Olhar para a Vista Alegre

Como começar a falar de um país tão rico em tantas coisas, principalmente na sua produção fabril, sendo uma estrangeira?

Acredito que a primeira coisa para se conhecer um lugar é ver, a segunda observar e a terceira, olhar. Estas categorias para mim diferem umas das outras pelo simples fato de que o ver é passar o olho rapidamente; observar, já conota uma certa pausa; e o olhar, este é mais atento, silencioso e demorado. O olhar para as coisas é tão importante que usamos as expressões “olhar apaixonado” , “olhar inebriado”, “olhar como um lince”.

Silenciosamente olhar é o que faz aos poucos você começar a entender esse Outro/Lugar, (com tudo o que pode haver implícito nesse conceito do Outro). Esse lugar estranho a nós estrangeiros, que temos uma outra cultura, mesmo sendo países irmãos.

Portugal, esse país que nos encanta e que não sabemos definir logo a princípio exatamente o porquê. Para mim, me faz pensar que a paixão é pelo “conjunto da obra” e, principalmente, porque Portugal é um país que vai se desvelando aos poucos, em camadas, e a cada revelação, uma surpresa e novo encantamento.

Isto me veio a cabeça desde que comecei a pesquisar e ver como as lojas e estabelecimentos onde encontramos majoritariamente os produtos feitos em Portugal há o orgulho dos portugueses em intitularem “genuinamente português”, se não pela matéria prima, é pelo design e/ou concepção do produto. Essa é uma das máximas do orgulho deles, as lojas com História. Desde os gagets das lojinhas de produtos artesanais para turistas – onde encontramos todo o tipo de coisas em cortiça e objetos que levam a padronagem dos azulejos portugueses – até produtos de design que são vendidos nas Concept Stores. Você entra na loja e está lá explicitamente o Made in Portugal, quando não, está implícito em algum detalhe ou no discurso de quem atende na loja. Um dos exemplos que me vem à cabeça é a concepção e produtos da loja a Vida Portuguesa, onde encontramos artigos genuínos e produtos de criação portuguesa, que estavam extintos e voltaram ao mercado graças à loja.

Então pensei em começar a falar de uma tradição cara aos portugueses que é a sua porcelana e cerâmica. E como poder falar delas sem apresentar a primeira fábrica de produção nesse quesito, mundialmente conhecida, que é a Vista Alegre?

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Caminho para Vista Alegre

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Fábrica da Vista Alegre

Aspeto geral da fachada de entrada principal da fábrica da Vista Alegre na atualidade

Antiga Fábrica da Vista Alegre e hoje Museu

Pois bem, em passeio pela linda cidade de Aveiro descobri que em Ílhavo, cidade contígua e sub-região de Aveiro, é onde se localiza a fábrica da Vista Alegre.

Fui à visita aberta a conhecer apenas a parte do glamour, já que é uma produção sofisticada, desejo de consumo de várias pessoas e feita para mercados sofisticados. Qual minha surpresa em ver o complexo da fábrica e saber melhor a sua história.

A Fábrica fica localizada na Quinta da Ermida, na vila de Ílhavo. Quando cheguei lá senti que o tempo havia parado, há silêncio e beleza em todo o espaço. A Vista Alegre é hoje um conjunto arquitetônico de inigualável interesse, repositório de memórias sociais e artísticas fundamentais para a construção de uma identidade nacional. Todo conservado, com casinhas que são a moradia dos operários que obtiveram título vitalício, consoante o seu agregado familiar e necessidades. Há uma linda praça, onde podemos ver a Ermida de Nossa Senhora da Penha de França, datada de 1693, um teatro, o outlet, o museu que foi a antiga fábrica, a loja, um espaço dedicado a Bordallo Pinheiro, o café e um hotel cinco estrelas com vista ao vale do Rio Boco de tirar o fôlego!

Aspeto as instalações da fábrica da Vista Alegre vista da ria foto Céu Vieira

Vista da Vista Alegre pelo Rio Boco (Foto de Céu Vieira)

Fachada do teatro da Vista Alegre na atualidade arq. CMA

Teatro

A história da Vista Alegre começa no princípio do Século XIX em Portugal. Nesse tempo não havia nenhuma fábrica que fabricasse porcelana, sendo esta importada da China. É nessa época que José Ferreira Pinto Basto (1774-1839), figura de destaque na sociedade portuguesa do século XIX, proprietário agrícola e comerciante audaz, decidiu criar uma fábrica de porcelanas, vidro e processos químicos. Em 1816 adquiriu a Quinta, perto da vila de Ílhavo, à beira do rio Boco, região rica em matérias primas como, barro, areias brancas e finas, seixos cristalizados, elementos fundamentais para o fabrico de vidros e porcelanas. No ano de 1824, José Ferreira Pinto Basto apresentou uma petição ao rei D. João VI para;

“erigir para estabelecimento de todos os seus filhos, com igual interesse, uma grande fábrica de louça, porcelana, vidraria e processos chimicos na sua Quinta chamada Vista-Alegre da Ermida”. ( História com História, 2015).

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Entrada do Museu

Concessão feita, foi fundada em 1824 a Quinta da Vista Alegre, no início da primeira Revolução Industrial, sendo a primeira fábrica de porcelana de Portugal. Cinco anos depois de fundada a fábrica recebeu o título de Real Fábrica, em reconhecimento ao seu sucesso industrial e a sua arte. Aos poucos a fabricação da porcelana foi sendo sofisticada graças a visita do filho de José Ferreira, Augusto Ferreira de Pinto Basto (1807-1902), à fábrica de Sèvres- França, trazendo o conhecimento da produção de lá. Descobriu-se então que ao norte de Ílhavo havia jazidas de caulino, imprescindíveis para a composição da pasta para a porcelana mais refinada.

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Busto de Pinto Basto com foto dos operários da Vista Alegre

A Vista Alegre produz peças em porcelana quer para setores mais populares, quer para outros mais requintados, desde serviços de mesa, chá, café, os famosos paliteiros, vasos, conjuntos de toalete até às peças decorativas mais diversas. No seu início as peças eram mais grosseiras e a decoração delas era em torno dos florais. Aos poucos foi sofisticando a matéria prima, seu design e arranjos, acompanhando também os movimentos artístico da época. A contribuição de artistas estrangeiros, tais como foi o caso de Victor Rousseau, foi importante, sobretudo para a criação de uma escola de pintura, ainda hoje famosa em Ílhavo.

Pela sua fama e qualidade, a porcelana da Vista Alegre passa a fazer parte do quotidiano das classes burguesas mais abastadas em Portugal, sendo aconselhada nas publicações de usos e bons costumes do século XIX, aparecendo igualmente citada em alguns romances de autores portugueses da época, a exemplo desta passagem do romance de 1878, “O Primo Bazilio”, de Eça de Queiroz;

“Prosperava com efeito! Não punha na cama senão lençóis de linho. […] Tinha cortinas de cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a cómoda dois vasos da Vista Alegre dourados!”.  ( História com História, 2105).

A fábrica passou por momentos difíceis durante a I Grande Guerra Mundial, mas já na década de 1920 é promovida a transformação da empresa numa sociedade de cotas, passando a designar-se Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre, Lda.

No período de 1922 a 1947, registrou-se uma enorme renovação artística da Vista Alegre, destacando-se a colaboração de artistas de renome nacional e estrangeiros tais como Roque Gameiro, Leitão de Barros, Raul Lino, Piló, Delfim Maia, João Cazaux , entre outros. O artista João Cazaux assume nesta época a função de professor e a direção da escola artística da Vista Alegre.

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Nomes de alguns colaboradores no decorrer dos anos

Na Vista Alegre há também uma seção só de peças exclusivas e uma reserva técnica com inúmeras peças raras. Foi instaurada essa tradição da produção de peças únicas, como o serviço produzido para Sua Majestade Isabel II, rainha de Inglaterra, quando da sua primeira visita a Portugal. Há exemplos de baixelas para serviços de governo de alguns países assim como de famílias abastadas que punham seu brasão e escolhiam toda a sua padronagem. Também havia confecção de materiais para instalações elétricas e laboratórios. A procura se dava principalmente pela imagem de marca, a qualidade do produto, e por último o seu design/decoração.

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Reserva técnica

É impressionante observar ao visitar o museu e entender a evolução da fábrica, concomitantemente com a da sua logo, e em paralelo à concepção das peças, porque elas vão seguindo estilos que perpassam toda a história da arte. Estilo Barroco, Modernista, Art Nouveau, Art Deco, fazem parte do design tanto da estampa, quanto do próprio desenho do produto.

No decorrer da visita ao museu vamos também conhecendo a história dos seus funcionários que é mostrada em fotos e vídeo. Assim percebemos que as sucessivas gestões tinham a preocupação de agregar os seus funcionários realizando uma integração do labor com a vida social, utilizando de todos os recursos possíveis para agregar as famílias. Da criação da escola e creche, ao teatro, à instalação desportiva. A relação afetiva com a Vista Alegre, iniciada desde criança por via familiar ao longo de gerações, permitiu criar uma cultura própria através de tradições e eventos, sociais, culturais religiosos e desportivos. Foi também através dos bisnetos do fundador da Vista Alegre, que se introduziu em Portugal a prática dos desportos, em especial o futebol, trazida por estes da Inglaterra em finais do século XIX.

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Foto de crianças indo para creche

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Louça das crianças com monograma da creche

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Album com foto de crianças fazendo ginástica

No ano de 1983 foi criado o Gabinete de Orientação Artística (GOA), dois anos depois, o Centro de Arte e Desenvolvimento da Empresa (CADE), com a finalidade de fomentar a criatividade e contribuir para a formação nas áreas de desenho, pintura e escultura.

Em 1985, devido ao grande interesse suscitado pelas peças da Vista Alegre, e à procura constante de inúmeros clientes, a empresa resolveu organizar um clube de colecionadores, limitando-o rigorosamente a 2500 sócios. Estes recebem, anualmente, uma peça concebida especial e exclusivamente para eles.

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A Vista Alegre já esteve em exposições no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e no Pallazo Reale em Milão, exposições estas que contribuíram decisivamente para a divulgação e internacionalização da marca.

Na visita também podemos conhecer uma pequena amostra do trabalho manual, uma sala asséptica e silenciosa onde as pinturas são feitas manualmente. Embora nos dias atuais majoritariamente suas estampas sejam feitas num processo industrial, todas as peças que contem bicos e alças e também algumas decorativas são trabalhadas manualmente.

Podemos encontrar na Vista Alegre peças criadas por designers, arquitetos e artistas como, David Raffoul e Nicolas Moussallem, Joana Vasconcelos, Christian Lacroix e Oscar de la Renta,Jeanine Hetrau, entre outros. É maravilhoso o jogo de chá criado pelo arquiteto Álvaro Siza, que teve as peças em tiragem limitada. A Vista Alegre, mais recentemente, no ano de 2015 e 2016, ganhou prêmios internacionais como Red Dot Design Award, Wallpaper Design Award e o German Design Award, que lançaram a porcelana da Vista Alegre com design de artistas consagrados para uma projeção de dimensão global.

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Louças que ganharam Prêmios

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Jogo de chá de Álvaro Siza, edição limitada

Em 2001 já com a fusão com o grupo Atantlis, volta à produção de vidro e cristais, que no passado, em 1880, havia cessado. É formado então o maior grupo nacional de utensílios de mesa e sexto maior do mundo nesse setor: o Grupo Vista Alegre Atlantis, que atua em diversas áreas, com onze unidades indústrias e uma produção de mais de 10 milhões de peças por ano.

A parceria entre a Vista Alegre Atlantis e a IKEA em 2013, levou à implementação de uma unidade fabril em Aveiro que fornece a cadeia sueca de artigos para o lar.

Devido à sua alta qualidade, as peças da Vista Alegre encontram-se presentes quer em coleções de famosos, quer de monarcas e governantes de praticamente todo o mundo, como a Casa Branca nos EUA, a Presidência da República portuguesa, no Palácio de Buckingham, entre outros. A Vista Alegre para além de ser líder de mercado em Portugal e possuir uma das melhores e mais bem equipadas fábricas de porcelana de todo o mundo, marcou positivamente todos os que nela trabalharam e continuam a trabalhar, tentando proporcionar-lhes as melhores condições para se sentirem motivados. Por toda história e evolução da Vista Alegre, seus trabalhadores foram sucedidos de geração em geração e sentem orgulho de terem contribuído para o sucesso alcançado pela empresa, embora, mediante seu crescimento e reconhecimento mundial, a fábrica não possa manter as características familiares e de envolvimento da cultura local de outrora. A Vista Alegre mantém-se atenta para conservar  o seu perfil de empresa organizada de modo familiar e profundamente enraizada na cultura e tradições populares da região de Aveiro, mas, ao mesmo tempo, responde às exigências da economia mundial dos tempos atuais.

Visitar essa complexo é voltar no tempo. É ver, observar e olhar com olhos apaixonados, que ainda é possível preservar a história e ao mesmo tempo estar com o pé na atualidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Odisseia para o caminho de Portugal

Resolvi escrever sobre o caminho que tive para conseguir um visto no Consulado Português.

Fui pega desprevenida. Cheguei no consulado desavisada, sem agendamento, com uns documentos que amigos haviam me dito para levar e me deparei com esse caminho que relato adiante, até como forma de ajudar a não estressar a quem precise.

Vamos lá! Primeiro coisa, NÃO vá ao consulado sem antes realizar o agendamento online, você irá quebrar a cara, vão mandar você voltar!

Vou dar o passo a passo, inclusive com ilustrações do caminho ( porque para localizar o site foi bem complicado até achar o caminho certo para preencher o tal Visto de Shengen. Visto este que dá início ao processo da tirada do seu visto com o agendamento no consulado.

Quem pensa que o site é http://www.consulados.com.br/portugal/ também irá quebrar a cara. Nesse endereço só há os endereços, e-mails, telefones e horários de atendimento dos consulados de todo o Brasil.

1) Primeiros passos:

  • Vá ao endereço certo: https://www.portaldascomunidades.mne.pt/pt/
  • Este é a porta mágica para você achar tudo! Mas estou aqui justamente para facilitar um pouco mais a sua vida e tentar fazer você não perder tantas horas e viagens perdidas às instituições. Então vamos juntos para cada paço.
  • Entre no portal do endereço acima. Clique na barra de cima onde está escrito “Visto” .
  • Captura de Tela 2017-09-14 às 10.55.46Clique na barra lateral onde está escrito “Faça sua solicitação de visto”

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  • Você vai entrar numa página que tem um monte de bandeirinhas de países. Então você vai na bandeirinha de Portugal. Não clique na primeira linha onde está escrito “Formulário de visto”,  é o formulário em PDF para você imprimir….e talvez preencher a mão…. mas você terá obrigatoriamente de preencher eletronicamente, senão não irá aparecer a data de agendamento ao final do processo.

 

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  • Clique na segunda linha em “Solicitar um pedido de visto”. Não perca nunca sua persistência e paciência, ainda estamos no começo! Você vai achar que não deu certo, pois quando você clica, demora um tantinho para fazer loading do formulário.
  • Aberto o formulário, você irá preencher com cuidado. Atenção! Mesmo que o pedido de duração do visto seja para um ano ou mais, o sistema, na hora do preenchimento, não aceita mais de que 90 dias. Dará erro se você tentar mais que isso. Qualquer erro que der, eles avisam em grifos vermelhos e você terá que ajeitar, do contrário não conseguirá chegar ao final e receber o calendário de agendamento. Não tenha medo de colocar 90 dias. Ao chegar ao velho mundo você ainda terá outro caminho, pois terá que agendar no SEF (Serviço de Imigração), que, e pelo que me disseram, é lá que eles renovam os dias necessários para sua estadia prolongada!

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Se conseguir chegar até o fim do preenchimento terá aparecido um calendário com data e hora disponíveis no consulado da sua cidade. Chegará no seu email o utilizador e a palavra chave que você irá usar para acompanhar o pedido online. Imprima esse formulário e boa sorte para a segunda etapa da Odisséia!

  • ATENÇÃO! Mais um aviso antes de continuar. Nem tente ir como turista achando que depois de três meses lá no SEF você conseguirá o visto de permanência. Eles te mandam de volta para você fazer aqui e viajar com o certo!

2) Com o agendamento realizado, dirija-se ao Consulado Português da sua cidade, ou cidade contígua. Com a seguinte papelada:

  • Passaporte (atentar para o vencimento! tem que ter validade de mais de 3 meses após o fim da duração do visto) ORIGINAL E CÓPIA AUTENTICADA
  • RG e CPF  ORIGINAL E CÓPIA AUTENTICADA
  • 2 fotografias 3 x 4
  • Formulário preenchido (do item 1), impresso, com espaço para colocar a foto.Captura de Tela 2017-09-14 às 15.27.30
  • Declaração do próprio punho, assinada, especificando o motivo do pedido do visto, nome da instituição de ensino, data de início e fim do curso, local de alojamento
  • Carta de aceitação emitida pela instituição ou inscrição no curso pretendido
  • Comprovativo de meios de subsistência = Comprovativo de Bolsa de Estudo que conste o montante recebido, se for o caso; ultima declaração do imposto de renda; termo de responsabilidade de familiar, se for o caso, com ASSINATURA RECONHECIDA dizendo que se responsabiliza por todas as despesas do aluno durante toda a estadia dele. ( nesse caso é necessário a declaração do imposto de renda desse responsável e os três últimos contracheques. E também comprovante de parentesco. VALE RESSALTAR AQUI QUE O CONSULADO ACHA NECESSÁRIO QUE VOCÊ TENHA NO MÍNIMO 1.500,00 EUROS/MENSAIS PARA SUA SOBREVIVÊNCIA LÁ!
  • Comprovativo de alojamento. SE VOCÊ AINDA NÃO TIVER, É BOM RESERVAR UM HOTEL NO BOOKING.COM, POR UMA SEMANA (EXIGÊNCIA DO CONSULADO) POIS CASO ENCONTRE SUA FUTURA CASA APÓS O AGENDAMENTO, VC PODERÁ CANCELAR SEM ONUS. SE TIVER ALUGADO ALGUM LUGAR, TERÁ QUE LEVAR O CONTRATO COM RECONHECIMENTO DE FIRMA LÁ EM PORTUGAL E IDENTIDADE DO LOCATÁRIO (O QUE É MAIS COMPLICADO). SE FOR FICAR EM ALOJAMENTO DA UNIVERSIDADE TEM QUE TER DECLARAÇÃO DA UNIVERSIDADE.
  • Seguro médico internacional de viagem, válido pelo período que permanecer em Portugal com cobertura de 30.000 Euros, repatriação por motivos médicos, necessidade e tratamento hospitalar de emergência. ESSE CAMINHO É MAIS CARO, MAS QUEM PODE, PODE, E É MAIS INTERESSANTE E RÁPIDO. VC PODE REALIZAR A PESQUISA NAS SEGURADORAS POR SITE E CONTRATAR SERVIÇOS VIA SITE MESMO!
  • Caso não contrate um seguro uma outra opção é fazer o PB4, que é o INSS de lá. Mas bemmmmm, bem melhor do que o nosso daqui! Para isso você terá que ir na FUNASA tirar esse PB4. Tem  que levar xerox dos seguintes documentos, identidade, cpf, passaporte, seu NIT ou PIS, comprovante de residência e carta de aceite da universidade ou curso. ESSE DOCUMENTO SAIRÁ DEPOIS DE 5 DIAS UTÉIS. OBS: CASO OPTE PELO PB4,  TAMBÉM TERÁ QUE COMPROVAR NO CONSULADO TERMO DE RESPONSABILIDADE ACIMA. ISTO É, QUE TERÁ CONDIÇÕES FINANCEIRAS PARA REALIZAR REPATRIAÇÃO OU ARCAR COM MAIORES CUSTOS DE SAÚDE, ETC.
  • Atestado de antecedentes criminais. http://www.pf.gov.br/servicos-pf/antecedentes-criminais. TIRAR NESSE ENDEREÇO ACIMA, MAS TEM QUE APOSTILHAR. O APOSTILHAMENTO NADA MAIS É QUE UMA AUTENTICAÇÃO INTERNACIONAL. TEM QUE PROCURAR SABER QUAIS CARTÓRIOS EM SUA CIDADE FAZEM ISSO, POIS NEM TODOS FAZEM.
  • Existem ainda algumas declarações necessárias que o próprio consulado te dá na hora para preenchimento, dependendo de cada caso, tais como: Termo de Responsabilidade de meio de Subsistência entre outros. Declaração que se compromete a só viajar com o visto certo, etc.
  • Aqui vai a dica mais importante de todas: NÃO COMPRE A PASSAGEM ANTES DE REALIZAR OS PASSOS DESSA ODISSÉIA. O prazo que o Consulado te dá para o visto é de 30, 40 a 60 dias, mas é melhor apostar nos 60 dias, pois o volume de pedidos nesse ano triplicou, e, pelo que me consta, não tem saído antes desse prazo! Vi pessoas que estavam a 65 a 75 dias e nada! O volume está sendo maior agora, acredito, pelo ano letivo de lá que se inicia agora. O conselho é que você vá pesquisando as tarifas aéreas e projetando a compra.

Caí na besteira de comprar projetando os 30 dias, porque sou uma otimista por natureza e acabei cancelando o meu voo. Esse foi o conselho da companhia de aviação, pois se tivesse remarcado sem saber quando realmente chegaria o visto, era multa em cima de multa. No caso, só a multa para o cancelamento foi mais ou menos oitocentos e poucos reais, além da diferença da tarifa!!!! Quase uma passagem nova! Você não irá querer isso, né?

Agora a ultima parte da Odisséia. Segure o coração, faça muita meditação e yoga!

3) Você vai entrar no Portal das Comunidades e vai fazer o caminho exato que fez para o preenchimento do Visto de Schengen até chegar as bandeirinhas. Vai clicar “Verificar Estado”. Irá aparecer isso abaixo. Tá lembrado do utilizador e palavra chave que chegaram no email confirmando seu agendamento? Pois eles serão usados agora!

 

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Depois de colocado irá aparecer afinal o seu status….

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Aconselho você abrir o status só depois de chegar perto dos 30 dias para não surtar. Pode até chegar aos 40 dias. Muita paz e meditação nessa hora, não abra 10 vezes por dia!!! Geralmente eles atualizam no começo da manhã, segure a ansiedade…E, se estiver perto dos 60, vc terá o benefício de já estar expert na prática da meditação!  Depois dos 60, sinal de alerta, caso você ainda esteja nos estágios 1 ou 2, vá ao consulado para falar sobre isso, não adianta telefonar! Eles te ajudam e tentam rastrear o seu passaporte a partir desse tempo.

Mas dirija-se ao Consulado para saber o que vc pode fazer com muita delicadeza. Não adianta gritar, chorar, espernear ou contar toda a sua vida para os atendentes, pois eles não irão resolver antes dos 60 dias. Eles ouvem queixas de todos os tipos, todos os dias! Lembre-se que os pedidos triplicaram e os funcionários são os mesmos ou até diminuíram. Lembre-se também que o passaporte sai do Brasil, viaja para Portugal, antes mesmo que você e volta ao Brasil para os consulados te entregarem. Lembre-se também que o visto te dá entrada para a comunidade européia, cujos problemas de terrorismo e imigração é objeto de muita preocupação dos governos.

Nessa verdadeira Odisséia, a essa altura, você estará louco para ir morar logo na terra deles! Então é de bom tom começar a entender que é assim e pronto! E que se vc começar a falar mal do jeito do português, da burocracia deles (igual a nossa, ou vc não sabia disso?), você estará minimamente entrando em contradição com o seu desejo de conviver com eles, no país deles…Então pense nisso! É um verdadeiro exercício de sabedoria, viver com os nossos e vossos problemas…com coerência!

Boa sorte!

 

 

 

 

 

 

 

Fuxico Estrela

Hoje vou falar de um trabalho lindo, pouco conhecido, que é chamado de Fuxico Estrela, Hexágono ou Fofoca. Esse lindo trabalho é conhecido por todos esses nomes e como a sua construção tem um pouco de tudo isto do qual é batizado, fica difícil saber qual é o nome correto.

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Fuxico Estrela

Estava eu nas minhas andanças olhando artesanato com minha amiga querida e também apreciadora de coisas lindas, Cristiana Tejo, no Centro de Artesanato de Pernambuco, no Recife, quando me deparei com dois desses trabalhos no meio das pilhas de colchas de crochê,  de linhas e patchwork. Fiquei com um e Cristiana com o outro. Tal era nosso encantamento que uma recepcionista se aproximou e falou que se tratava do artesanato chamado de “Fofoca”. Eu já conhecia o Fuxico, quem não o conhece?

Diz a lenda que o Fuxico surgiu há anos trazidos pelos escravos. Quando eles se juntavam para costurar, usavam as sobras dos tecidos dos seus senhorios e aproveitavam para fazer fuxico dos mesmos. Fuxico pelo dicionário quer dizer: futrica, intriga, mexerico.  E também: cerzidura ou remendo malfeito.

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Fuxico

Os produtos em questão eram caminhos de mesa com a elaboração de flores em hexágono, sem emendas. Pensei: meu Deus, essa peça tem a sofisticação de um origami, como se faz isso? Comprei e levei para casa para analisar melhor. Com enorme curiosidade desmanchei uma das florzinhas e vi que se tratava  de um hexágono com dobraduras, como eu já havia previsto. Tentei repetir em outro tecido amassando a peça, passando ferro e não consegui chegar a um resultado satisfatório. Pensei comigo, deve haver uma lógica para sua construção, por mais difícil que possa parecer a confecção, há uma lógica!

O legal nos produtos do Centro de Artesanato é que eles colocam em cada um deles uma etiqueta do artesão, de onde ele é e o seu telefone. Lá estava o nome de D. Maria José e, por sorte minha, ela morava em Olinda. Liguei para ela e elogiei o trabalho, falei que queria aprender como fazia aquela belezura e se ela poderia me ensinar. Ela me falou que participava de uma “cela” na Casa da Cultura do Recife, com um grupo de Terceira Idade.

A Casa da Cultura, para quem não conhece é um prédio lindo em estilo Neoclassico que foi a antiga Casa de Detenção do Recife. Inaugurada em 1855, foi o projeto mais inovador de prisão àquela época, não só pelo seu estilo arquitetônico, mas também pelo seu funcionamento. Havia uma preocupação com a inserção da instituição na vida social do bairro e até da cidade, inclusive conta-se que o melhor pão da região era aquele produzido pelas mãos dos detentos na panificadora do presídio. E os pentes de chifre e as coleções de jogo de botão fabricados ali tinham fama pela sua qualidade. Além disso, o primeiro estandarte do Vassourinhas foi bordado também dentro do presídio. Tudo isso sem falar que os detentos ainda formavam times de futebol e tinham uma biblioteca à sua disposição. Em 1973 a Casa de Detenção foi desativada e restaurada por Lina Bo Bardi e Jorge Martins Junior, sendo inaugurada em 1976 como Casa da Cultura de Pernambuco. Suas celas viraram lojinhas de artesanato e foi lá numa delas que eu encontrei D. Maria José com outras senhoras que realizam e comercializam seus respectivos artesanatos.

Fui recebida com muito carinho. Ela ficou emocionada pelos meus elogios. É interessante aqui apontar que figuras como D. Maria José, que possuem um talento enorme, não conseguem perceber o quão importante é aquilo que fazem. Talvez porque no geral as pessoas não dão muito valor ao artesanato; talvez por conta, no caso específico dela, que fez por muito tempo o seu artesanato escondido, pois o seu marido não a deixava trabalhar; ou talvez porque, apesar da sofisticação encontrada em alguns artesãos, a grande maioria ainda faz seus produtos para um publico específico, o popular, aos moldes do que é vendido em feirinhas de artesanato em todo o país. Carecem de uma percepção maior na harmonia das cores, dos pontos e nas misturas de materiais. Por exemplo, ela me mostrou o mesmo trabalho do hexágono com uma mistura de crochê, que não combinavam entre si, até brigavam. Mas não cabia a mim interferir, esse é o universo delas! E embora eu tenha tido uma enorme vontade de dar alguns “pitacos” sobre o que eu achava mais interessante para a confecção, tive de me conter, pois eu ali era uma convidada e curiosa do saber que elas detinham. Descobri que apesar de pensar diferente do seu universo, há público para o que elas fazem. Tanto que no tempo em que permaneci lá aprendendo o hexágono, os turistas interessados nos produtos delas chegavam aos montes.

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Feito por mim e ainda em construção

Enfim, como eu previa. Havia uma lógica para a construção daquela singela de florzinha e eu aprendi!!!  Ela falou que o nome “Fofoca” é dado a um outro ponto parecido com o “Colméia” ou “Casa de Abelha”. A generosidade de D. Maria José foi tamanha que acabei comprando o que podia dela, pois queria de alguma forma retribuir tamanha gentileza. Quando perguntei se ela aceitava encomenda, ela me respondeu: “minha filha, meus dedos já estão duros e doem muito. Eu te ensinei para você mesma fazer, porque fica difícil para mim pegar muitas coisas hoje em dia para fazer”. Então eu pensei, que pena! D. Maria José, com todo seu talento, começou a produção com a limitação de esconder do marido. Agora que ela já não escondia mais e que conseguiu sair de casa e participar de um grupo vendendo o seu trabalho, tem outra limitação muito pior que a primeira, a da dificuldade física. Mundo injusto esse nosso! Nunca vou me esquecer da sua generosidade e gentileza. O mundo precisa de mais pessoas assim!

 

 

 

Magia e segredo, Quinta da Regaleira- Sintra

Não conhecia Sintra e fiquei surpresa com a beleza e magia da pequena cidade.

Relativamente perto de Lisboa, de Comboio (trem) são apenas uns 55min para chegar lá. Este tempo seria igual ao que se perde ao pegar um engarrafamento pequeno nas grandes cidades brasileiras, de um bairro a outro. Poderíamos comparar que Sintra está para Lisboa, assim como Petrópolis está para o Rio de Janeiro.

 

Sintra também é chamada de Monte da Lua. Patrimônio Mundial da Unesco, a vila fica na encosta da serra que leva seu nome e termina no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental do continente europeu.

O Comboio parte da estação do Rossio, que é linda linda. O prédio da estação foi construído em 1886. O ticket para o comboio custa a bagatela de 2,15 euros!

Tive apenas um dia em Sintra, morrendo de pena, pois cheguei à conclusão que terei que voltar um dia, porque Sintra não se conhece apenas em um dia!

Me detive em andar pela cidade e ir diretamente para a Quinta da Regaleira, pois já tinha ouvido falar dos seus túneis e caminhos secretos e, como se trata de uma propriedade enorme, quase todo tempo foi gasto por lá.

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Quinta da Regaleira

A Quinta é uma curiosa construção que passou por diversos proprietários desde 1697. Em 1840 foi adquirida pela Baronesa da Regaleira e passou a ser conhecida por Quinta da Torre da Regaleira, com seu palacete, capela e jardim.

Em 1893, foi arrematada por António Augusto de Carvalho Monteiro, que adquiriu também outros terrenos no entorno da Quinta para ampliar o seu enorme jardim. A casa servia para o veraneio da família Monteiro. Nos dias atuais a Quinta pertence a Câmara Municipal de Sintra.

Enquanto pertencia a António Augusto de Carvalho Monteiro foram realizadas as modificações que são vistas até hoje. Ele contratou o arquiteto Henri Lusseau, que começou a pensar o Palácio em estilo neogótico francês e o parque. Mas a construção só se deu com arquiteto-cenógrafo Luigi Manini, que construiu o parque com o edifício das Cocheiras e também reformou a Capela e o Palácio. As obras absorveram-no durante 14 anos.

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Lagos da Quinta

Podemos dizer que todos os detalhes da construção da propriedade, principalmente dos espaços subterrâneos, os túneis, poços e lagos, constituem o tema central da Regaleira. Fala-se que tais espaços associam-se a uma passagem sensível pelos elementos e à transposição das trevas para resgatar a luz das origens, qual morte simbólica a que sucede um novo nascimento.

O percurso pelos túneis, na maioria, é todo no escuro. Entrado neles, parece que estamos em um filme de Indiana Jones à caça do tesouro perdido, que, no caso, seria a busca da luz. Poderíamos também pensar no mito da caverna de Platão.

Tantos são os caminhos e labirintos com água minando das paredes e poças pelo chão que há uma verdadeira estranheza ao percorre-los. Não há guia, a não ser um mapa de toda Quinta entregue na hora que se compra o ticket da entrada, mas, de nada adianta quando adentramos o escuro dos túneis!

O mais extraordinário de tudo são os poços. O primeiro deles é o Imperfeito, ele, comparativamente ao outro existente é completamente rústico. Você desce ou sobe em rampas, com paredes feitas em buracos nas pedras cheias de limo.

Descendo por ele chega-se ao chão em outro nível do jardim e anda-se por mais túneis até chegar ao Poço Iniciático, uma enorme torre invertida, que se afunda 27 metros abaixo da terra, com acesso através de uma monumental escadaria em espiral. Como há lagos e cachoeiras por todo o jardim, este poço tem suas escadarias molhadas pela água que mina por toda sua parede.

Enquanto representação do cosmos, o jardim desvenda lugares imbuídos de magia e mistério. Símbolos esculpidos presentes em vários lugares do palácio, capela, jardins e fontes, revelam referencias à Mitologia, ao Olimpo, aos Poetas e aos Alquimistas. Juntos fazem um conjunto misterioso que demonstra que a capacidade humana de criar é imbatível. É surpreendente! E só ao vivo e a cores pode se conhecer…as palavras não dão conta.

 

Mais belíssimos azulejos no Porto, Portugal

Pegando um trem de Porto para Braga me deparo com a belíssima Estação de São Bento, no Porto. Fiquei tão encantada que fui pesquisar sua história. Descobri que ela foi erguida no local do Convento de São Bento da Ave Maria, totalmente destruído para dar lugar à estação que preservou o seu nome. Sua obra começou em 1900 e só foi finalizada em 1916.

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Os azulejos da Estação de São Bento, considerados os mais belos painéis do gênero em Portugal, foram apresentados em agosto de 1915, num total de 551 metros quadrados. Cada painel apresenta uma cena histórica portuguesa diferente, como a entrada triunfal de D. João I e o seu casamento com D. Filipa de Lencastre, no Porto, em 1386; o Torneio de Arcos de Valdevez, em 1140, ou a Conquista de Ceuta, em 1415.

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Além dos motivos históricos e reais, encontramos outros painéis com cenas campestres, do cotidiano e religiosas. Estão estampadas a procissão da Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, a romaria de S. Torcato, em Guimarães ou o transporte do vinho, no Douro.

Finalmente, no átrio encontra-se um friso multicolorido que se dedica exclusivamente em retratar a história dos transportes em Portugal, de forma cronológica. Tanto os painéis únicos, como o friso, foram instalados pela mão do artista português, Jorge Colaço, que na época se afirmava como um dos mais promissores azulejadores portugueses.

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Traçada pela mão do arquiteto portuense José Marques da Silva, e de influência francesa (e portanto o projeto é várias vezes associado erradamente a Gustave Eiffel), a fachada principal da estação está virada para a Praça Almeida Garrett e possui oito linhas terminais e cinco cais, para armazenamento.

Em agosto de 2011, num merecido reconhecimento, a Estação de São Bento foi considerada, pela revista norte-americana “Travel+Leisure”, uma das 16 estações mais belas do mundo. Por esta e muitas outras razões, a Estação de São Bento é um local de passagem obrigatória, onde poderemos nos deleitar com a fantástica azulejaria tradicional portuguesa, no coração da cidade do Porto.

Ao me deparar com tanta beleza quase que perdia o trem….