Arquivo da categoria: moda

LxFactory-Lisboa, Bhering-Rio

Fui apresentada pelos queridos amigos que aqui se encontram a esse complexo que se chama LxFactory, na zona de Alcântara, em Lisboa. Lembrei-me imediatamente de dois lugares que têm o mesmo espírito em cidades distintas no Brasil: Rio de Janeiro, com sua Fábrica Bhering e o Recife com a Fábrica Tacaruna. A Bhering, exitosa no tocante à ocupação e ampliação de seus espaços; A Tacaruna, um projeto que resultou num grande fiasco e nunca saiu do papel.

O prédio da Fábrica Bhering é de 1930. Foi uma fábrica renomada de chocolate  de mesmo nome e ainda hoje preserva o maquinário do seu primeiro uso.

Em 2005, inspirado em ocupações de fábricas de Berlim, Londres e Paris, o dono da fábrica resolveu dar um novo uso ao espaço, que estava desativado desde a década de 1990. Aos poucos os alugueis, que eram bem convidativos, começaram a subir por conta do boom imobiliário de 2010 e o local começou a ficar disputado e badalado

Talvez por ser um espaço pensado de maneira despretensiosa e sem qualquer intuito em comum entre os ocupantes, fez com que a pluralidade de linguagens e propostas desenvolvidas independentemente, pudessem dar início à transformação daquele ambiente em um lugar de produção e possíveis trocas. Encontramos ateliês, escritórios de design e arquitetura, estúdios, brechós.

Há três anos, a ocupação artística foi ameaçada de despejo depois de um leilão, mas a Prefeitura do Rio decretou o tombamento e a desapropriação do imóvel, garantindo a permanência do espaço como é hoje.

O segundo espaço, a Fábrica de Tacaruna no Recife, ensaiou algo parecido, mas nunca foi viabilizado, porque o governo do estado de Pernambuco não teve interesse na sua continuidade. Atualmente corre ao largo a intenção de ser um espaço artístico, que abrigaria inclusive a riquíssima coleção de arte de Marcantonio Vilaça. Uma pena, porque como espaço simbólico e físico daria um lindo complexo!

Voltemos a LxFactory, interesse dessa minha postagem. A iniciativa se deu por uma empresa, MainSide, criada para o desenvolvimento de projetos de investimento imobiliário em reabilitação e revitalização nos centros urbanos.

Foi um ‘casamento’ interessante entre um grupo que tinha interesse nessa reabilitação e pessoas que procuravam espaços para desenvolver suas áreas específicas.

A  LxFactory é uma fábrica de experiências onde é possível intervir, pensar, produzir, apresentar ideias e produtos num único lugar. É uma ilha criativa ocupada por empresas e profissionais da indústria. Também tem sido cenário de um diverso leque de acontecimentos nas áreas da moda, publicidade, comunicação, multimídia, arte, arquitetura, música, etc. gerando uma dinâmica que tem atraído inúmeros visitantes a redescobrir esta zona da cidade. 

A LxFactory é um projeto inovador e criativo, que nasceu no auge da crise em Portugal e foi desenvolvido como uma resposta ao momento que o país vivia e ainda vive, assim como boa parte da Europa. É nas crises que surgem as melhores oportunidades!

O espaço total tem cerca de 23.000m2, e ainda existe alguma disponibilidade residual de rotação, com valores que variam entre 8€/m2 e 12€/m2 dependendo da localização dentro do complexo, da área, do espaço.

Funcionam mais de 200 empresas, o que dá um movimento aproximado de 2200 pessoas por dia. Existem escritórios de restauração, design, moda, publicidade, arquitetura, fotografia, assim como cabeleireiro, escolas de arte, entre muitas outras atividades, como exposições, instalações, concertos e festas. Bares, restaurante e cafés charmosos.

O objetivo da LxFactory é continuar a crescer qualitativamente, sendo um espaço pioneiro de experiências, com a mesma flexibilidade que teve desde o início da sua própria criação.

 

IMG_2651

 

 

 

 

 

Anúncios

Passado e Presente num só lugar-Guimarães

Até onde meus olhos puderam alcançar nesse além mar, Guimarães foi a cidade que mais me deixou encantada. Sabe aquela sensação de pertencimento, como se você já tivesse vivido ali em outras vidas? Ou como se a sensação sentida ao conhecê-la fosse uma antecipação do tempo ao fato em si. Pois bem, essa impressão me acomete vez por outra em algumas cidades, e a sentimento é de bem estar e envolvimento.

13029503_492879440908624_5839864431849023352_o

Loja Casa da Senhora Aninhas

Guimarães é uma cidade medieval, distrito de Braga, conhecida como “Berço da Nação” e primeira capital do Reino de Portugal. Fundada em 1128, ela foi reconhecida pela UNESCO, em 2001, como Patrimônio Mundial. Em 2012 foi considerada a Capital Europeia da Cultura.

Do Paço do Duque, com seus ambientes escuros de pedra, às ruínas do Castelo, tudo é muito bem cuidado, a cidade é limpa e arborizada. Caminhando uma ladeirinha abaixo desses monumentos, nos deparamos com vielas, ruas e praças, lindíssimas! É bom se perder nas vielas, que parecem paradas no tempo, embora a cidade seja viva e suas edificações sirvam de moradia e comércio.

 

Ao descer a rua de São João ( a escolha foi aleatória, não sigo mapas, vou me deixando levar como um flâneur) me deparo com uma loja que tem tudo a ver com “ O segredo dos meus olhos”. A loja se chama “Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas”.

Um lugar despojado e charmoso, que mais parece um atelier de artista. Você entra e encontra os produtos em cima de uma grande mesa central e nas prateleiras e paredes, pendurados em cabides, despojadamente. As peças são de artistas e designers de Portugal. Fui aos poucos acostumando o olhar e vendo cada peça individualmente, tal a enorme quantidade de coisas lindas juntas.

Colares, alfinetes (broches), anéis, mantas, cerâmicas, escultura e tantas outras coisas no mesmo lugar. As peças artesanais como, mantas, lenços, bolsas, são feitas com a cooperação de artesãos de comunidades da região do Minho e de outras regiões de Portugal. Todas genuínas da tradição Portuguesa, mas com um “toque” contemporâneo. Muitas peças feitas em teares dos artesãos daqui se assemelham com o trabalho dos nossos artesãos de Tacaratu, Pernambuco e de outras regiões do Brasil que têm ainda o uso manual de teares.

Sonia, que me atendeu muito bem quando pedi permissão para poder fotografar, comentou como ficava encantada de poder buscar esses produtos em todo o Portugal e, que, muitas vezes, gostaria de abarcar um numero maior de coisas lindas produzidas pelo país. Imagino como deve ser difícil fazer essa curadoria, tal qual no Brasil, que também possui uma imensa gama no artesanato, com materiais distintos. Quando falei da riqueza do nosso artesanato e dos artistas /designers / artesãos, que fazem a junção dos seus saberes nesse mesmo espírito da loja, ela falou que tinha interesse de conhecer mais coisas do Brasil e que conhecia a designer Mana Bernardes. Falamos dos impostos exorbitantes para exportação praticados no país…..Ah meu Brasil, quanta dificuldade de podermos apresentar nossas riquezas para o mundo!

Então, para os que estão em viagem para Portugal, Guimarães é uma cidade imperdível de se conhecer e se perder no tempo. E a loja “Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas”, um respiro contemporâneo incrustado no coração da cidade. Passado e presente num só lugar.

 

 

 

 

 

Couro Vegetal e sua beleza em Berlim

Vou falar de um lugar onde a arte prolifera a todo momento e se respira cultura em todo canto.

Há exatos 15 anos fazendo uma deriva no bairro do Mitte, antigo lado oriental de Berlim, que, com a queda do muro, passou a ter um desenho multicultural, encontrei essa loja e fiquei fascinada.

ab_03

Mitte é fashion e cheio de comprinhas legais para fazer. Nisso, por sinal, Berlim é uma tentação. Com sua estética atraente, este lado da cidade conta com verdadeiros achados. O bairro de Mitte (que, em alemão, significa “centro” ou “meio”) com muitas lojas, estilo até dizer chega e galerias de arte transbordando novidades, é uma verdadeira festa para os olhos.

A cidade respira arte, e isso se reflete na proposta “do it yourself” (DIY), de muitos designers alemães que vendem seus trabalhos originais nas suas ruas.

A simplicidade e a proposta da loja eram encantadoras. Você via todo o fazer, desde a confecção, até o produto final. Havia no espaço central as máquinas, os estoques, além do produto pronto. A loja tinha um charme inigualável. Comprei uma bolsa (caríssima!!!!!) que ainda hoje uso e faz um enorme sucesso. Já batizaram-na de bolsa de “Bruxa “, devido ao seu formato de cone. Aonde vou com ela, mesmo já bastante velhinha, chama a atenção.

Como não sou ligada à grifes, compro o que me encanta, seja na região da Saara aqui no Rio, na 25 de Março, em Sampa, ou em lojas como essa de Berlim.

Odeio rótulos estampados nos produtos (não sou paga para fazer propaganda gratuita!!!), além de achar certo exagero, quando algumas marcas estampam suas logos enormes nos seus produtos. Acho uma coisa cafonérrima, ao contrário de tantas pessoas que os usam justamente porque acreditam que há “valor agregado”, mesmo até com produtos falsos! Então passei esse tempo todo sem saber quem era o designer ou a “grife ” da tal bolsa.

Tive a curiosidade, depois desses 15 anos, apenas para escrever este texto. Pela primeira vez revolvi a bolsa até encontrar um caminho. Achei o nome Penthesileia, grifado no couro. Como sou uma curiosa, fui de novo procurar o significado desse nome e ver se encontrava uma pista da tal loja.

IMG_2270

Minha bolsa de “Bruxa”

Na mitologia grega, Penthesileia foi uma rainha amazônica…e aí tem toda uma historinha….mas ainda não me dava o caminho.

Santo Google!

Descendo mais um pouquinho a página pesquisada, encontro o nome de Anke Runge Berlin, e, quando vi as fotos da loja, voltei na máquina do tempo. Lá estava ela, idêntica como conheci. Como é bom ter um país com economia e cultura sólidas, não? As lojas não fecham!

ab_04

Na realidade o nome grego grifado na minha bolsa foi dado à época da fundação da loja/atelier em 1997. Posteriormente foi mudado para o nome da designer.

Ainda me ocorreu uma lembrança que tive ao comprar a bolsa. Foi falado que era um produto que tinha a sustentabilidade como mote para sua confecção. O couro era vegetal. Fiquei super alegre de portar algo que tinha a ver com sustentabilidade, além de ser lindo!

A designer também trabalha com couro de animais em conformidade com as diretrizes da UE. Os de origem vegetal são a mistura de restos orgânicos de couro reciclados e colados com látex.

ab_06

Recentemente vi uma matéria interessante onde o “ couro “ era feito de fibras de abacaxi.

http://novo-mundo.blogs.sapo.pt/tecido-feito-de-fibras-de-abacaxi-pode-65812

Feliz em poder acreditar que podemos criar coisas lindas com um mundo melhor!

 

 

Anke Runge Berlin-Tucholskystraße 31;

info@ankerunge-taschen.de

 

 

 

 

 

Dr. Borracha, o guardião da floresta

José Rodrigues, mais conhecido como “Dr. Borracha”, é um artesão/seringueiro/guardião da floresta do Acre. Começou a trabalhar na extração do látex aos 10 anos de idade, ofício que aprendeu com seu pai que também era seringueiro.

Dr. Borracha

José Rodrigues e Lene, sua mulher

Vou mais longe ao dizer que ele é um verdadeiro artista, principalmente por ter conseguido impingir sua marca ao criar suas sandálias/sapatos de látex.

O que diferencia um artesão de outro? É exatamente criar o seu produto, feito da mesma matéria dos demais, com uma personalidade própria. Isso acontece em várias comunidades de artesãos que trabalham com matérias diversas como a borracha, o barro, a palha, a madeira e tantas outras que temos nesse vasto e rico ‘Brasis’. Há sempre expoentes que se destacam pelas singularidades em seus trabalhos.

José mora no meio da floresta, não sabe ler, nunca foi à escola, não tem computador. Mas é mestre em fazer sandálias de borracha a partir da extração da seiva dos seringais acreanos.

Graças a um curso ministrado pela UnB (Universidade Federal de Brasília), ele aprendeu uma técnica em que são produzidas ‘folhas de látex’, as chamadas Folha Semi Artefato (FSA). Essas folhas são produzidas por ele e coloridas com a ajuda da sua mulher Lene.

mantas de látex

folhas coloridas de látex

Suas palavras são poéticas: “o povo do Acre sempre diz que a seringueira é como uma mãe. A gente pega o leite dela para conseguir o leite das nossas crianças. Assim fui criado. Por isso digo que sou um defensor da floresta, pois eu não derrubo a floresta, eu dependo dela pra viver’

seringueira2-e1448852999549

seringueira

Há uma enorme importância nesta sua fala na medida que vemos uma pessoa consciente do seu dom, conciliando seu produto à preservação da natureza. Isto é o melhor que temos em termos de sustentabilidade: preservar a natureza e ainda retirar lindos ‘frutos’ dela. Ahhh, se todos fossem iguais a você, Dr. Borracha! O mundo seria muito melhor!

É bom lembrar que a figura do seringueiro Chico Mendes ainda permanece nas nossas lembranças como o grande defensor da Amazônia. Assim como Chico, José nos ensina que é possível explorar a natureza com consciência. “Quando casei e cheguei aqui (Epitaciolândia, a 243 km de Rio Branco) o pessoal nem sabia que tinha seringueira na região. Só derrubavam árvore para criar gado”. Aos poucos ele foi ensinando a comunidade a extrair o Látex, que havia tido uma redução de uns 60% da atividade. No passado a extração do látex era uma cultura bastante forte.

José não está só, ao compartilhar com a comunidade o seu saber, ele forma uma cadeia produtiva em torno da cultura do látex. Isto é importante para sua subsistência e para fomentar o desenvolvimento sustentável na região. Não é surpresa ele ter recebido, em 2014, o Prêmio Chico Mendes de Florestania.

Que esse guardião da floresta da Amazonia nos ensine, com a beleza de seus frutos,  a cada vez mais valorizarmos cada pedacinho dela.

sándalias

sandália

 

 

 

 

 

 

 

 

Para além do nosso umbigo

Não é de hoje que o estilista Ronaldo Fraga faz a diferença. Há alguns anos, na SPFW N 29, em 2011, ele trabalhou com uma comunidade que faz bordado na cidade de Passira, no Agreste Pernambucano. Criou sua coleção Turista Aprendiz baseado nesses lindos bordados feitos pelas artesãs da comunidade.

Nesse mesmo ano, o estilista realizou a exposição Rio São Francisco navegado por Ronaldo Fraga: cultura popular, história, moda. Durante 3 meses ele bebeu naquela fonte, o caudaloso Rio São Francisco, para criar sua coleção que derivou nessa grande mostra. Lá ele reviveu as histórias e estórias contadas por seu pai, que sempre ia ao São Francisco pescar, e colocou na sua arte as reminiscências dessa infância.

11614-bordado-passira-3

Bordadeiras de Passira

Nestes dias de plena era de desterro para tantos, dos Sírios aos Africanos, passando pelos Palestinos, ele resolveu criar sua nova coleção na interação com esses povos e sua cultura. Mas essa interação vai além das roupas criadas. Ele convidou alguns desses exilados para desfilarem na SPFW N41 (foto acima). A congolesa Fanny-Mudingayl, os sírios Nour Koeder e Nawras Alhaibi, o senegalês Alassane-Diaw e o palestino Leon Diab, são alguns membros da diáspora que assola esse mundão afora. Todos eles vêm com o coração cheio de esperança de encontrar um mundo melhor e possível de se viver. Nesse contexto, além de nos premiar com uma coleção bela, reforça que a moda pode ser vinculada à cultura e pode ser também um vetor social.

Parabéns ao Ronaldo e a todos os que pensam o mundo de uma forma mais ampla!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

Renascença ou Fascinator

Minha filhota casou em setembro do ano passado. O casamento foi à tarde na linda Oficina do Brennand, no Recife. A capela da Oficina é bem rústica, rodeada de mata atlântica. Muito verde, muita arte. O projeto é de Paulo Mendes da Rocha.

Para a ocasião, comprei este fascinator* ou casquete* ( as definições estão abaixo, pois se confundem) em Nova York, no East Village. Fiquei fascinada com a lojinha charmosa da Barbara Feinman, parecia que estava vivendo um episódio de Sex and the City. Ela mesma quem cria as peças.

Queria também colocar algo no vestido, de cor caménerè, para quebrar um pouco o escuro da cor, mas vi que teria que decidir em apenas um acessório, do contrário pareceria uma dama do séc XIX saída de um romance. O facinator prevaleceu, então deixei a bela gola/colar, criação do estilista alagoano Marcus Telles, para usar em outras ocasiões.

Gola

Gola de Renascença de Marcus Telles

Vão as definições, para quem tem dúvidas, do que é Fascinator e e Casquete.

Fascinator– Tecnicamente é apenas um adorno de cabelos feito de plumas, penas e pedrarias. É comumente confundido com casquete, mas a diferença está justamente no material. Pode ser usado de dia e de noite.

Casquete– Criado na déc de 40, pós-guerra, algumas vezes é confundido com o fascinator. Ele é um pequeno chapéu, sem abas, redondo ou oval, estruturado e geralmente usado na lateral da cabeça. É mais comumente usado à noite.

entrada 2psd