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O Olhar para a Vista Alegre

Como começar a falar de um país tão rico em tantas coisas, principalmente na sua produção fabril, sendo uma estrangeira?

Acredito que a primeira coisa para se conhecer um lugar é ver, a segunda observar e a terceira, olhar. Estas categorias para mim diferem umas das outras pelo simples fato de que o ver é passar o olho rapidamente; observar, já conota uma certa pausa; e o olhar, este é mais atento, silencioso e demorado. O olhar para as coisas é tão importante que usamos as expressões “olhar apaixonado” , “olhar inebriado”, “olhar como um lince”.

Silenciosamente olhar é o que faz aos poucos você começar a entender esse Outro/Lugar, (com tudo o que pode haver implícito nesse conceito do Outro). Esse lugar estranho a nós estrangeiros, que temos uma outra cultura, mesmo sendo países irmãos.

Portugal, esse país que nos encanta e que não sabemos definir logo a princípio exatamente o porquê. Para mim, me faz pensar que a paixão é pelo “conjunto da obra” e, principalmente, porque Portugal é um país que vai se desvelando aos poucos, em camadas, e a cada revelação, uma surpresa e novo encantamento.

Isto me veio a cabeça desde que comecei a pesquisar e ver como as lojas e estabelecimentos onde encontramos majoritariamente os produtos feitos em Portugal há o orgulho dos portugueses em intitularem “genuinamente português”, se não pela matéria prima, é pelo design e/ou concepção do produto. Essa é uma das máximas do orgulho deles, as lojas com História. Desde os gagets das lojinhas de produtos artesanais para turistas – onde encontramos todo o tipo de coisas em cortiça e objetos que levam a padronagem dos azulejos portugueses – até produtos de design que são vendidos nas Concept Stores. Você entra na loja e está lá explicitamente o Made in Portugal, quando não, está implícito em algum detalhe ou no discurso de quem atende na loja. Um dos exemplos que me vem à cabeça é a concepção e produtos da loja a Vida Portuguesa, onde encontramos artigos genuínos e produtos de criação portuguesa, que estavam extintos e voltaram ao mercado graças à loja.

Então pensei em começar a falar de uma tradição cara aos portugueses que é a sua porcelana e cerâmica. E como poder falar delas sem apresentar a primeira fábrica de produção nesse quesito, mundialmente conhecida, que é a Vista Alegre?

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Caminho para Vista Alegre

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Fábrica da Vista Alegre

Aspeto geral da fachada de entrada principal da fábrica da Vista Alegre na atualidade

Antiga Fábrica da Vista Alegre e hoje Museu

Pois bem, em passeio pela linda cidade de Aveiro descobri que em Ílhavo, cidade contígua e sub-região de Aveiro, é onde se localiza a fábrica da Vista Alegre.

Fui à visita aberta a conhecer apenas a parte do glamour, já que é uma produção sofisticada, desejo de consumo de várias pessoas e feita para mercados sofisticados. Qual minha surpresa em ver o complexo da fábrica e saber melhor a sua história.

A Fábrica fica localizada na Quinta da Ermida, na vila de Ílhavo. Quando cheguei lá senti que o tempo havia parado, há silêncio e beleza em todo o espaço. A Vista Alegre é hoje um conjunto arquitetônico de inigualável interesse, repositório de memórias sociais e artísticas fundamentais para a construção de uma identidade nacional. Todo conservado, com casinhas que são a moradia dos operários que obtiveram título vitalício, consoante o seu agregado familiar e necessidades. Há uma linda praça, onde podemos ver a Ermida de Nossa Senhora da Penha de França, datada de 1693, um teatro, o outlet, o museu que foi a antiga fábrica, a loja, um espaço dedicado a Bordallo Pinheiro, o café e um hotel cinco estrelas com vista ao vale do Rio Boco de tirar o fôlego!

Aspeto as instalações da fábrica da Vista Alegre vista da ria foto Céu Vieira

Vista da Vista Alegre pelo Rio Boco (Foto de Céu Vieira)

Fachada do teatro da Vista Alegre na atualidade arq. CMA

Teatro

A história da Vista Alegre começa no princípio do Século XIX em Portugal. Nesse tempo não havia nenhuma fábrica que fabricasse porcelana, sendo esta importada da China. É nessa época que José Ferreira Pinto Basto (1774-1839), figura de destaque na sociedade portuguesa do século XIX, proprietário agrícola e comerciante audaz, decidiu criar uma fábrica de porcelanas, vidro e processos químicos. Em 1816 adquiriu a Quinta, perto da vila de Ílhavo, à beira do rio Boco, região rica em matérias primas como, barro, areias brancas e finas, seixos cristalizados, elementos fundamentais para o fabrico de vidros e porcelanas. No ano de 1824, José Ferreira Pinto Basto apresentou uma petição ao rei D. João VI para;

“erigir para estabelecimento de todos os seus filhos, com igual interesse, uma grande fábrica de louça, porcelana, vidraria e processos chimicos na sua Quinta chamada Vista-Alegre da Ermida”. ( História com História, 2015).

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Entrada do Museu

Concessão feita, foi fundada em 1824 a Quinta da Vista Alegre, no início da primeira Revolução Industrial, sendo a primeira fábrica de porcelana de Portugal. Cinco anos depois de fundada a fábrica recebeu o título de Real Fábrica, em reconhecimento ao seu sucesso industrial e a sua arte. Aos poucos a fabricação da porcelana foi sendo sofisticada graças a visita do filho de José Ferreira, Augusto Ferreira de Pinto Basto (1807-1902), à fábrica de Sèvres- França, trazendo o conhecimento da produção de lá. Descobriu-se então que ao norte de Ílhavo havia jazidas de caulino, imprescindíveis para a composição da pasta para a porcelana mais refinada.

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Busto de Pinto Basto com foto dos operários da Vista Alegre

A Vista Alegre produz peças em porcelana quer para setores mais populares, quer para outros mais requintados, desde serviços de mesa, chá, café, os famosos paliteiros, vasos, conjuntos de toalete até às peças decorativas mais diversas. No seu início as peças eram mais grosseiras e a decoração delas era em torno dos florais. Aos poucos foi sofisticando a matéria prima, seu design e arranjos, acompanhando também os movimentos artístico da época. A contribuição de artistas estrangeiros, tais como foi o caso de Victor Rousseau, foi importante, sobretudo para a criação de uma escola de pintura, ainda hoje famosa em Ílhavo.

Pela sua fama e qualidade, a porcelana da Vista Alegre passa a fazer parte do quotidiano das classes burguesas mais abastadas em Portugal, sendo aconselhada nas publicações de usos e bons costumes do século XIX, aparecendo igualmente citada em alguns romances de autores portugueses da época, a exemplo desta passagem do romance de 1878, “O Primo Bazilio”, de Eça de Queiroz;

“Prosperava com efeito! Não punha na cama senão lençóis de linho. […] Tinha cortinas de cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a cómoda dois vasos da Vista Alegre dourados!”.  ( História com História, 2105).

A fábrica passou por momentos difíceis durante a I Grande Guerra Mundial, mas já na década de 1920 é promovida a transformação da empresa numa sociedade de cotas, passando a designar-se Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre, Lda.

No período de 1922 a 1947, registrou-se uma enorme renovação artística da Vista Alegre, destacando-se a colaboração de artistas de renome nacional e estrangeiros tais como Roque Gameiro, Leitão de Barros, Raul Lino, Piló, Delfim Maia, João Cazaux , entre outros. O artista João Cazaux assume nesta época a função de professor e a direção da escola artística da Vista Alegre.

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Nomes de alguns colaboradores no decorrer dos anos

Na Vista Alegre há também uma seção só de peças exclusivas e uma reserva técnica com inúmeras peças raras. Foi instaurada essa tradição da produção de peças únicas, como o serviço produzido para Sua Majestade Isabel II, rainha de Inglaterra, quando da sua primeira visita a Portugal. Há exemplos de baixelas para serviços de governo de alguns países assim como de famílias abastadas que punham seu brasão e escolhiam toda a sua padronagem. Também havia confecção de materiais para instalações elétricas e laboratórios. A procura se dava principalmente pela imagem de marca, a qualidade do produto, e por último o seu design/decoração.

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Reserva técnica

É impressionante observar ao visitar o museu e entender a evolução da fábrica, concomitantemente com a da sua logo, e em paralelo à concepção das peças, porque elas vão seguindo estilos que perpassam toda a história da arte. Estilo Barroco, Modernista, Art Nouveau, Art Deco, fazem parte do design tanto da estampa, quanto do próprio desenho do produto.

No decorrer da visita ao museu vamos também conhecendo a história dos seus funcionários que é mostrada em fotos e vídeo. Assim percebemos que as sucessivas gestões tinham a preocupação de agregar os seus funcionários realizando uma integração do labor com a vida social, utilizando de todos os recursos possíveis para agregar as famílias. Da criação da escola e creche, ao teatro, à instalação desportiva. A relação afetiva com a Vista Alegre, iniciada desde criança por via familiar ao longo de gerações, permitiu criar uma cultura própria através de tradições e eventos, sociais, culturais religiosos e desportivos. Foi também através dos bisnetos do fundador da Vista Alegre, que se introduziu em Portugal a prática dos desportos, em especial o futebol, trazida por estes da Inglaterra em finais do século XIX.

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Foto de crianças indo para creche

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Louça das crianças com monograma da creche

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Album com foto de crianças fazendo ginástica

No ano de 1983 foi criado o Gabinete de Orientação Artística (GOA), dois anos depois, o Centro de Arte e Desenvolvimento da Empresa (CADE), com a finalidade de fomentar a criatividade e contribuir para a formação nas áreas de desenho, pintura e escultura.

Em 1985, devido ao grande interesse suscitado pelas peças da Vista Alegre, e à procura constante de inúmeros clientes, a empresa resolveu organizar um clube de colecionadores, limitando-o rigorosamente a 2500 sócios. Estes recebem, anualmente, uma peça concebida especial e exclusivamente para eles.

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A Vista Alegre já esteve em exposições no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e no Pallazo Reale em Milão, exposições estas que contribuíram decisivamente para a divulgação e internacionalização da marca.

Na visita também podemos conhecer uma pequena amostra do trabalho manual, uma sala asséptica e silenciosa onde as pinturas são feitas manualmente. Embora nos dias atuais majoritariamente suas estampas sejam feitas num processo industrial, todas as peças que contem bicos e alças e também algumas decorativas são trabalhadas manualmente.

Podemos encontrar na Vista Alegre peças criadas por designers, arquitetos e artistas como, David Raffoul e Nicolas Moussallem, Joana Vasconcelos, Christian Lacroix e Oscar de la Renta,Jeanine Hetrau, entre outros. É maravilhoso o jogo de chá criado pelo arquiteto Álvaro Siza, que teve as peças em tiragem limitada. A Vista Alegre, mais recentemente, no ano de 2015 e 2016, ganhou prêmios internacionais como Red Dot Design Award, Wallpaper Design Award e o German Design Award, que lançaram a porcelana da Vista Alegre com design de artistas consagrados para uma projeção de dimensão global.

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Louças que ganharam Prêmios

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Jogo de chá de Álvaro Siza, edição limitada

Em 2001 já com a fusão com o grupo Atantlis, volta à produção de vidro e cristais, que no passado, em 1880, havia cessado. É formado então o maior grupo nacional de utensílios de mesa e sexto maior do mundo nesse setor: o Grupo Vista Alegre Atlantis, que atua em diversas áreas, com onze unidades indústrias e uma produção de mais de 10 milhões de peças por ano.

A parceria entre a Vista Alegre Atlantis e a IKEA em 2013, levou à implementação de uma unidade fabril em Aveiro que fornece a cadeia sueca de artigos para o lar.

Devido à sua alta qualidade, as peças da Vista Alegre encontram-se presentes quer em coleções de famosos, quer de monarcas e governantes de praticamente todo o mundo, como a Casa Branca nos EUA, a Presidência da República portuguesa, no Palácio de Buckingham, entre outros. A Vista Alegre para além de ser líder de mercado em Portugal e possuir uma das melhores e mais bem equipadas fábricas de porcelana de todo o mundo, marcou positivamente todos os que nela trabalharam e continuam a trabalhar, tentando proporcionar-lhes as melhores condições para se sentirem motivados. Por toda história e evolução da Vista Alegre, seus trabalhadores foram sucedidos de geração em geração e sentem orgulho de terem contribuído para o sucesso alcançado pela empresa, embora, mediante seu crescimento e reconhecimento mundial, a fábrica não possa manter as características familiares e de envolvimento da cultura local de outrora. A Vista Alegre mantém-se atenta para conservar  o seu perfil de empresa organizada de modo familiar e profundamente enraizada na cultura e tradições populares da região de Aveiro, mas, ao mesmo tempo, responde às exigências da economia mundial dos tempos atuais.

Visitar essa complexo é voltar no tempo. É ver, observar e olhar com olhos apaixonados, que ainda é possível preservar a história e ao mesmo tempo estar com o pé na atualidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Fuxico Estrela

Hoje vou falar de um trabalho lindo, pouco conhecido, que é chamado de Fuxico Estrela, Hexágono ou Fofoca. Esse lindo trabalho é conhecido por todos esses nomes e como a sua construção tem um pouco de tudo isto do qual é batizado, fica difícil saber qual é o nome correto.

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Fuxico Estrela

Estava eu nas minhas andanças olhando artesanato com minha amiga querida e também apreciadora de coisas lindas, Cristiana Tejo, no Centro de Artesanato de Pernambuco, no Recife, quando me deparei com dois desses trabalhos no meio das pilhas de colchas de crochê,  de linhas e patchwork. Fiquei com um e Cristiana com o outro. Tal era nosso encantamento que uma recepcionista se aproximou e falou que se tratava do artesanato chamado de “Fofoca”. Eu já conhecia o Fuxico, quem não o conhece?

Diz a lenda que o Fuxico surgiu há anos trazidos pelos escravos. Quando eles se juntavam para costurar, usavam as sobras dos tecidos dos seus senhorios e aproveitavam para fazer fuxico dos mesmos. Fuxico pelo dicionário quer dizer: futrica, intriga, mexerico.  E também: cerzidura ou remendo malfeito.

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Fuxico

Os produtos em questão eram caminhos de mesa com a elaboração de flores em hexágono, sem emendas. Pensei: meu Deus, essa peça tem a sofisticação de um origami, como se faz isso? Comprei e levei para casa para analisar melhor. Com enorme curiosidade desmanchei uma das florzinhas e vi que se tratava  de um hexágono com dobraduras, como eu já havia previsto. Tentei repetir em outro tecido amassando a peça, passando ferro e não consegui chegar a um resultado satisfatório. Pensei comigo, deve haver uma lógica para sua construção, por mais difícil que possa parecer a confecção, há uma lógica!

O legal nos produtos do Centro de Artesanato é que eles colocam em cada um deles uma etiqueta do artesão, de onde ele é e o seu telefone. Lá estava o nome de D. Maria José e, por sorte minha, ela morava em Olinda. Liguei para ela e elogiei o trabalho, falei que queria aprender como fazia aquela belezura e se ela poderia me ensinar. Ela me falou que participava de uma “cela” na Casa da Cultura do Recife, com um grupo de Terceira Idade.

A Casa da Cultura, para quem não conhece é um prédio lindo em estilo Neoclassico que foi a antiga Casa de Detenção do Recife. Inaugurada em 1855, foi o projeto mais inovador de prisão àquela época, não só pelo seu estilo arquitetônico, mas também pelo seu funcionamento. Havia uma preocupação com a inserção da instituição na vida social do bairro e até da cidade, inclusive conta-se que o melhor pão da região era aquele produzido pelas mãos dos detentos na panificadora do presídio. E os pentes de chifre e as coleções de jogo de botão fabricados ali tinham fama pela sua qualidade. Além disso, o primeiro estandarte do Vassourinhas foi bordado também dentro do presídio. Tudo isso sem falar que os detentos ainda formavam times de futebol e tinham uma biblioteca à sua disposição. Em 1973 a Casa de Detenção foi desativada e restaurada por Lina Bo Bardi e Jorge Martins Junior, sendo inaugurada em 1976 como Casa da Cultura de Pernambuco. Suas celas viraram lojinhas de artesanato e foi lá numa delas que eu encontrei D. Maria José com outras senhoras que realizam e comercializam seus respectivos artesanatos.

Fui recebida com muito carinho. Ela ficou emocionada pelos meus elogios. É interessante aqui apontar que figuras como D. Maria José, que possuem um talento enorme, não conseguem perceber o quão importante é aquilo que fazem. Talvez porque no geral as pessoas não dão muito valor ao artesanato; talvez por conta, no caso específico dela, que fez por muito tempo o seu artesanato escondido, pois o seu marido não a deixava trabalhar; ou talvez porque, apesar da sofisticação encontrada em alguns artesãos, a grande maioria ainda faz seus produtos para um publico específico, o popular, aos moldes do que é vendido em feirinhas de artesanato em todo o país. Carecem de uma percepção maior na harmonia das cores, dos pontos e nas misturas de materiais. Por exemplo, ela me mostrou o mesmo trabalho do hexágono com uma mistura de crochê, que não combinavam entre si, até brigavam. Mas não cabia a mim interferir, esse é o universo delas! E embora eu tenha tido uma enorme vontade de dar alguns “pitacos” sobre o que eu achava mais interessante para a confecção, tive de me conter, pois eu ali era uma convidada e curiosa do saber que elas detinham. Descobri que apesar de pensar diferente do seu universo, há público para o que elas fazem. Tanto que no tempo em que permaneci lá aprendendo o hexágono, os turistas interessados nos produtos delas chegavam aos montes.

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Feito por mim e ainda em construção

Enfim, como eu previa. Havia uma lógica para a construção daquela singela de florzinha e eu aprendi!!!  Ela falou que o nome “Fofoca” é dado a um outro ponto parecido com o “Colméia” ou “Casa de Abelha”. A generosidade de D. Maria José foi tamanha que acabei comprando o que podia dela, pois queria de alguma forma retribuir tamanha gentileza. Quando perguntei se ela aceitava encomenda, ela me respondeu: “minha filha, meus dedos já estão duros e doem muito. Eu te ensinei para você mesma fazer, porque fica difícil para mim pegar muitas coisas hoje em dia para fazer”. Então eu pensei, que pena! D. Maria José, com todo seu talento, começou a produção com a limitação de esconder do marido. Agora que ela já não escondia mais e que conseguiu sair de casa e participar de um grupo vendendo o seu trabalho, tem outra limitação muito pior que a primeira, a da dificuldade física. Mundo injusto esse nosso! Nunca vou me esquecer da sua generosidade e gentileza. O mundo precisa de mais pessoas assim!

 

 

 

navegar é preciso…pedras portuguesas nas ondas desse mar

Você sabia que a calçada tão famosa no mundo todo, a de Copacabana, é idêntica a uma outra na cidade de Manaus e outra no outro lado do Atlântico? Isso sem contar que o seu desenho é encontrado e replicado em todo mundo em vários suportes, de revestimento de piso ao teto, em objetos e até acessórios de moda. Assim, em escala, talvez seja o terceiro ícone propagado como um símbolo máximo da cidade do Rio de Janeiro, atrás do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar.

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Fotografia sem crédito

Pois a história desta calçada ícone e não única é bem curiosa e eu fui atrás para poder contar aqui.

Nas minhas andanças pelo centro do Rio de Janeiro, onde encontramos vários e lindos desenhos nas pedras portuguesas, eu gostava de olhar para chão. Não, não pensem que era medo de tropeçar, embora as pedras portuguesas são ‘vingativas’ nesse sentido, caso não cuidem delas com uma devida manutenção! Na realidade era mesmo paixão em admirar tamanha beleza e arte. As pedras no entorno da Candelária são belíssimas!!!!

Os transeuntes já sabem como andar por elas, principalmente as mulheres que trabalham no Centro, de salto. Vão ao trabalho com sandálias rasteirinhas, e, assim que chegam aos escritórios, colocam os seus sapatos bicos finos e salto agulha, inimigos número um das pedras portuguesas.

Pereira Passos, nas enormes mudanças que realizou no Rio de Janeiro, importou as pedras e o seu know-how para aplicá-las, através dos Mestres Calceteiros portugueses . Descobriu-se posteriormente enormes jazidas de calcário branco e basalto no Brasil, mas a denominação da pedra permaneceu. Hoje, suas extrações são variadas e espalhadas por todo o país, mas é de se destacar o Paraná como um dos maiores fornecedores.

Muitas pessoas pensam que as pedras são de difícil manutenção ou acham que são de “uma época”, então acabam destruindo um trabalho secular, que tem uma duração como nenhum outro material de revestimento, basta ver as antigas e lindas calçadas de Lisboa. Como as pedras não levam cimento e a arte é justamente juntá-las o máximo possível para o bom encaixe, se há necessidade de reparo de alguma coisa abaixo do solo, elas são fáceis para remoção e reposição, sem perda de material.

 

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Mestre Calceteiro

Num texto antológico de Cora Rónai para o Globo, em 14 de maio de 2009, ela diz: …A única “desvantagem” das pedras portuguesas em relação aos outros tipos de calçamento é o custo. Elas são muito mais baratas e, por conseguinte, muito menos lucrativas para quem faz as obras. Nós sabemos o que significa o custo Brasil, mas, sinceramente, já estava na hora de isso mudar! Muito melhor e mais barato do que desfazer todas as calçadas e enfear o Rio era criar um curso permanente de calceteiros, que formasse mão de obra especializada no assentamento de pedrinhas. Fazendo a coisa certa, em breve poderíamos até exportar know-how, já que, por acaso, temos as calçadas mais famosas do mundo.

Voltando ao desenho das “ondas” de Copacabana….Tudo começou no outro lado do Atlântico, em 1848. Um piso semelhante foi posto, em padrões ondulantes, por ocasião da construção da Praça de D. Pedro IV, mais conhecida como Praça do Rossio, em Lisboa. Dizem que seu desenho foi escolhido para homenagear o encontro das águas doces do Rio Tejo com o Oceano Atlântico, e que foi um dos primeiros pavimentos com este desenho em Lisboa

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Voltemos ao Brasil. Em Manaus, a calçada do Largo São Sebastião foi feita em 1901, mas já estava planejada desde a década de 1880, quando o Teatro Amazonas, concluído em 1896, começou a ser pensado. A data que marca a finalização do piso em Manaus está numa nota de rodapé do livro “História do Monumento da Praça de São Sebastião”,  de Mario Ypiranga Monteiro.

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Largo de São Sebastião, com Teatro Amazonas, em Manaus. Foto antiga da Biblioteca Virtual do Estado do Amazonas

Baseado na natureza do lugar, os moradores de Manaus falavam que o desenho de sua calçada simbolizava o encontro da água escura do Rio Negro com a água barrenta que chega pelo Solimões. Os rios levam quilômetros para se misturar completamente, formando o Amazonas.

No Rio de Janeiro, enquanto capital do Brasil ainda no início do século 20, vimos a construção da primeira calçada de ladrilhos com os padrões ondulantes. A Avenida Rio Branco, antiga Avenida Central, foi coberta com pedras portuguesas em toda sua extensão.

Na praia de Copacabana a construção foi da mesma época, entre 1905 e 1906, e a referência, dizem, foram as ondas do mar, embora a dureza das ondas posicionadas transversalmente deixasse a desejar na definição de balanço das ondas.

Depois de uma forte ressaca, que acabou com todo seu calçamento, do Leme até o Forte, ela foi reconstruída com suas ondas paralelas ao mar.

 

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Reconstruída paralelamente ao mar, foto de 1947

Ao contrário do que muitos pensam, ser de Burle Marx o desenho das ondas, o paisagista apenas interviu no paisagismo e desenho do canteiro central, quando foi chamado para modernizar a Avenida Atlântica. A ideia era que os desenhos pudessem ser visto do alto. Ele usou magistralmente pedras coloridas em contraponto ao preto e branco já existente, realizando um diálogo belo entre os desenhos. A avenida então foi alargada e duplicada no fim dos anos 1970 e suas icônicas “ondas” permaneceram com uma pequena mudança no aumento das suas curvas, criando assim o efeito de ‘balanço’ que ficou conhecido no mundo todo.

E assim suas ondas já foram cantadas em prosa e verso, e sua fama ultrapassou os mares e as outras iguais. Copacabana se tornou única!

 

 

 

Cores de amores

A linda coleção “Grades do Recife” é o resultado do trabalho de formação de Jovens Artesãos, projeto do Museu do Homem do Nordeste/Fundação Joaquim Nabuco-Recife

Belas, coloridas e originais, as peças são inspiradas nos arabescos e linhas sinuosas das janelas, portas e sacadas do Recife. Essas fontes foram o ponto de partida para a criação de uma bela coleção de vasos, fruteiras e luminárias, feitas com tramas de linhas e cordas de polipropileno.

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O trabalho contou com a consultoria e a intervenção do designer mato-grossense, Sérgio J. Matos, que instigou os alunos a observarem seu universo. A partir do registro em fotografia dos gradis das suas moradas, os alunos foram criando os detalhes para o desenvolvimento dos produtos. O objetivo do projeto foi capacitar profissionalmente estudantes de escolas públicas na produção artesanal. Lindo trabalho com os pequenos artesãos e, principalmente, o seu resultado. Os produtos estão a venda na loja do Museu.

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LxFactory-Lisboa, Bhering-Rio

Fui apresentada pelos queridos amigos que aqui se encontram a esse complexo que se chama LxFactory, na zona de Alcântara, em Lisboa. Lembrei-me imediatamente de dois lugares que têm o mesmo espírito em cidades distintas no Brasil: Rio de Janeiro, com sua Fábrica Bhering e o Recife com a Fábrica Tacaruna. A Bhering, exitosa no tocante à ocupação e ampliação de seus espaços; A Tacaruna, um projeto que resultou num grande fiasco e nunca saiu do papel.

O prédio da Fábrica Bhering é de 1930. Foi uma fábrica renomada de chocolate  de mesmo nome e ainda hoje preserva o maquinário do seu primeiro uso.

Em 2005, inspirado em ocupações de fábricas de Berlim, Londres e Paris, o dono da fábrica resolveu dar um novo uso ao espaço, que estava desativado desde a década de 1990. Aos poucos os alugueis, que eram bem convidativos, começaram a subir por conta do boom imobiliário de 2010 e o local começou a ficar disputado e badalado

Talvez por ser um espaço pensado de maneira despretensiosa e sem qualquer intuito em comum entre os ocupantes, fez com que a pluralidade de linguagens e propostas desenvolvidas independentemente, pudessem dar início à transformação daquele ambiente em um lugar de produção e possíveis trocas. Encontramos ateliês, escritórios de design e arquitetura, estúdios, brechós.

Há três anos, a ocupação artística foi ameaçada de despejo depois de um leilão, mas a Prefeitura do Rio decretou o tombamento e a desapropriação do imóvel, garantindo a permanência do espaço como é hoje.

O segundo espaço, a Fábrica de Tacaruna no Recife, ensaiou algo parecido, mas nunca foi viabilizado, porque o governo do estado de Pernambuco não teve interesse na sua continuidade. Atualmente corre ao largo a intenção de ser um espaço artístico, que abrigaria inclusive a riquíssima coleção de arte de Marcantonio Vilaça. Uma pena, porque como espaço simbólico e físico daria um lindo complexo!

Voltemos a LxFactory, interesse dessa minha postagem. A iniciativa se deu por uma empresa, MainSide, criada para o desenvolvimento de projetos de investimento imobiliário em reabilitação e revitalização nos centros urbanos.

Foi um ‘casamento’ interessante entre um grupo que tinha interesse nessa reabilitação e pessoas que procuravam espaços para desenvolver suas áreas específicas.

A  LxFactory é uma fábrica de experiências onde é possível intervir, pensar, produzir, apresentar ideias e produtos num único lugar. É uma ilha criativa ocupada por empresas e profissionais da indústria. Também tem sido cenário de um diverso leque de acontecimentos nas áreas da moda, publicidade, comunicação, multimídia, arte, arquitetura, música, etc. gerando uma dinâmica que tem atraído inúmeros visitantes a redescobrir esta zona da cidade. 

A LxFactory é um projeto inovador e criativo, que nasceu no auge da crise em Portugal e foi desenvolvido como uma resposta ao momento que o país vivia e ainda vive, assim como boa parte da Europa. É nas crises que surgem as melhores oportunidades!

O espaço total tem cerca de 23.000m2, e ainda existe alguma disponibilidade residual de rotação, com valores que variam entre 8€/m2 e 12€/m2 dependendo da localização dentro do complexo, da área, do espaço.

Funcionam mais de 200 empresas, o que dá um movimento aproximado de 2200 pessoas por dia. Existem escritórios de restauração, design, moda, publicidade, arquitetura, fotografia, assim como cabeleireiro, escolas de arte, entre muitas outras atividades, como exposições, instalações, concertos e festas. Bares, restaurante e cafés charmosos.

O objetivo da LxFactory é continuar a crescer qualitativamente, sendo um espaço pioneiro de experiências, com a mesma flexibilidade que teve desde o início da sua própria criação.

 

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Passado e Presente num só lugar-Guimarães

Até onde meus olhos puderam alcançar nesse além mar, Guimarães foi a cidade que mais me deixou encantada. Sabe aquela sensação de pertencimento, como se você já tivesse vivido ali em outras vidas? Ou como se a sensação sentida ao conhecê-la fosse uma antecipação do tempo ao fato em si. Pois bem, essa impressão me acomete vez por outra em algumas cidades, e a sentimento é de bem estar e envolvimento.

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Loja Casa da Senhora Aninhas

Guimarães é uma cidade medieval, distrito de Braga, conhecida como “Berço da Nação” e primeira capital do Reino de Portugal. Fundada em 1128, ela foi reconhecida pela UNESCO, em 2001, como Patrimônio Mundial. Em 2012 foi considerada a Capital Europeia da Cultura.

Do Paço do Duque, com seus ambientes escuros de pedra, às ruínas do Castelo, tudo é muito bem cuidado, a cidade é limpa e arborizada. Caminhando uma ladeirinha abaixo desses monumentos, nos deparamos com vielas, ruas e praças, lindíssimas! É bom se perder nas vielas, que parecem paradas no tempo, embora a cidade seja viva e suas edificações sirvam de moradia e comércio.

 

Ao descer a rua de São João ( a escolha foi aleatória, não sigo mapas, vou me deixando levar como um flâneur) me deparo com uma loja que tem tudo a ver com “ O segredo dos meus olhos”. A loja se chama “Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas”.

Um lugar despojado e charmoso, que mais parece um atelier de artista. Você entra e encontra os produtos em cima de uma grande mesa central e nas prateleiras e paredes, pendurados em cabides, despojadamente. As peças são de artistas e designers de Portugal. Fui aos poucos acostumando o olhar e vendo cada peça individualmente, tal a enorme quantidade de coisas lindas juntas.

Colares, alfinetes (broches), anéis, mantas, cerâmicas, escultura e tantas outras coisas no mesmo lugar. As peças artesanais como, mantas, lenços, bolsas, são feitas com a cooperação de artesãos de comunidades da região do Minho e de outras regiões de Portugal. Todas genuínas da tradição Portuguesa, mas com um “toque” contemporâneo. Muitas peças feitas em teares dos artesãos daqui se assemelham com o trabalho dos nossos artesãos de Tacaratu, Pernambuco e de outras regiões do Brasil que têm ainda o uso manual de teares.

Sonia, que me atendeu muito bem quando pedi permissão para poder fotografar, comentou como ficava encantada de poder buscar esses produtos em todo o Portugal e, que, muitas vezes, gostaria de abarcar um numero maior de coisas lindas produzidas pelo país. Imagino como deve ser difícil fazer essa curadoria, tal qual no Brasil, que também possui uma imensa gama no artesanato, com materiais distintos. Quando falei da riqueza do nosso artesanato e dos artistas /designers / artesãos, que fazem a junção dos seus saberes nesse mesmo espírito da loja, ela falou que tinha interesse de conhecer mais coisas do Brasil e que conhecia a designer Mana Bernardes. Falamos dos impostos exorbitantes para exportação praticados no país…..Ah meu Brasil, quanta dificuldade de podermos apresentar nossas riquezas para o mundo!

Então, para os que estão em viagem para Portugal, Guimarães é uma cidade imperdível de se conhecer e se perder no tempo. E a loja “Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas”, um respiro contemporâneo incrustado no coração da cidade. Passado e presente num só lugar.

 

 

 

 

 

A VIDA PORTUGUESA

O segredo dos meus olhos está além mar…

E nada melhor para começar do que mostrar uma loja genuinamente portuguesa, ela se chama “A VIDA PORTUGUESA”.

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Pense numa loja onde se encontra tudo o que vc puder imaginar….se vc quiser presentear alguém e não tem inspiração, vá a loja e irá se perder de tantas opções! Qualquer coisa comprada lá é de um bom gosto incrível! Uma festa para os olhos. Muita informação em apenas um lugar. Lá você encontra da pasta de dente ( com embalagem belíssima), à lata de sardinha; dá louça, à roupa; dá bebida, a lápis e cartilhas….O mais impressionante é que tudo é feito aqui e a loja é um inventário das marcas sobreviventes no tempo.

Há uma pesquisa linda feita do Norte ao sul de Portugal. São produtos que atravessaram o tempo preservando as mesmas embalagens originais, que são lindas!!

Os produtos falam sobre um povo e a sua história, seus gostos, e é revelador da identidade Portuguesa.

A loja ganhou o Prêmio Loja do Ano da Time Out Lisboa 2013, merecidamente!

http://www.avidaportuguesa.com/lojas/chiado_1