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Passado e Presente num só lugar-Guimarães

Até onde meus olhos puderam alcançar nesse além mar, Guimarães foi a cidade que mais me deixou encantada. Sabe aquela sensação de pertencimento, como se você já tivesse vivido ali em outras vidas? Ou como se a sensação sentida ao conhecê-la fosse uma antecipação do tempo ao fato em si. Pois bem, essa impressão me acomete vez por outra em algumas cidades, e a sentimento é de bem estar e envolvimento.

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Loja Casa da Senhora Aninhas

Guimarães é uma cidade medieval, distrito de Braga, conhecida como “Berço da Nação” e primeira capital do Reino de Portugal. Fundada em 1128, ela foi reconhecida pela UNESCO, em 2001, como Patrimônio Mundial. Em 2012 foi considerada a Capital Europeia da Cultura.

Do Paço do Duque, com seus ambientes escuros de pedra, às ruínas do Castelo, tudo é muito bem cuidado, a cidade é limpa e arborizada. Caminhando uma ladeirinha abaixo desses monumentos, nos deparamos com vielas, ruas e praças, lindíssimas! É bom se perder nas vielas, que parecem paradas no tempo, embora a cidade seja viva e suas edificações sirvam de moradia e comércio.

 

Ao descer a rua de São João ( a escolha foi aleatória, não sigo mapas, vou me deixando levar como um flâneur) me deparo com uma loja que tem tudo a ver com “ O segredo dos meus olhos”. A loja se chama “Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas”.

Um lugar despojado e charmoso, que mais parece um atelier de artista. Você entra e encontra os produtos em cima de uma grande mesa central e nas prateleiras e paredes, pendurados em cabides, despojadamente. As peças são de artistas e designers de Portugal. Fui aos poucos acostumando o olhar e vendo cada peça individualmente, tal a enorme quantidade de coisas lindas juntas.

Colares, alfinetes (broches), anéis, mantas, cerâmicas, escultura e tantas outras coisas no mesmo lugar. As peças artesanais como, mantas, lenços, bolsas, são feitas com a cooperação de artesãos de comunidades da região do Minho e de outras regiões de Portugal. Todas genuínas da tradição Portuguesa, mas com um “toque” contemporâneo. Muitas peças feitas em teares dos artesãos daqui se assemelham com o trabalho dos nossos artesãos de Tacaratu, Pernambuco e de outras regiões do Brasil que têm ainda o uso manual de teares.

Sonia, que me atendeu muito bem quando pedi permissão para poder fotografar, comentou como ficava encantada de poder buscar esses produtos em todo o Portugal e, que, muitas vezes, gostaria de abarcar um numero maior de coisas lindas produzidas pelo país. Imagino como deve ser difícil fazer essa curadoria, tal qual no Brasil, que também possui uma imensa gama no artesanato, com materiais distintos. Quando falei da riqueza do nosso artesanato e dos artistas /designers / artesãos, que fazem a junção dos seus saberes nesse mesmo espírito da loja, ela falou que tinha interesse de conhecer mais coisas do Brasil e que conhecia a designer Mana Bernardes. Falamos dos impostos exorbitantes para exportação praticados no país…..Ah meu Brasil, quanta dificuldade de podermos apresentar nossas riquezas para o mundo!

Então, para os que estão em viagem para Portugal, Guimarães é uma cidade imperdível de se conhecer e se perder no tempo. E a loja “Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas”, um respiro contemporâneo incrustado no coração da cidade. Passado e presente num só lugar.

 

 

 

 

 

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Resiliência, a arte que se faz de contas

Acho que em outra encarnação eu fui índio!

Eu já falei na minha página do facebook, O segredo dos meus olhos, sobre a exposição, No caminho da miçanga – um mundo que se faz de contas, curadoria de Els Lagrou. Fiquei tão fascinada com a beleza das peças e mais ainda com as histórias, que fui visitar mais de uma vez, tamanho encantamento.

A exposição encontra-se no Museu do Índio, aqui no Rio de Janeiro, e apresenta todo o fazer artístico com as miçangas dos povos da África, Ásia e América. Entrelaçado a este fazer encontramos a história do comércio, exploração, encontros e as possíveis relações com o Outro.

Irei me deter aqui em mostrar apenas algumas coisas dos nossos índios brasileiros, pois a exposição é vasta e quem puder e se interessar, poderá ver pessoalmente.

Uma das muitas coisas interessantes dentro de toda a história da mostra é conhecer melhor como as miçangas chegaram aqui e foram bem vindas pelos nativos, trazidas pelas mãos do colonizador. Este, ao oferecê-las pensando estar trocando quinquilharias contra preciosas matérias primas, enriqueceu, e muito, o repertório do fazer dos índios. A maioria deles desejava muito essas contas, vindas do ultramar; talvez por elas serem fascinantes, talvez por modificar a maneira deles mesmos confeccionarem suas contas.

Os índios tinham uma manufatura bem sofisticada e demorada na confecção de suas peças, porque a matéria prima que eles trabalhavam era derivada de sementes, coquinhos, conchas e até dentes de animais. Essas matérias primas precisavam ser cortadas, polidas, uma a uma. Em geral, esse serviço era apenas facultado aos homens, no tocante às conchas de madrepérola, os dentes dos animais e as penas. Os índios achavam que esses objetos possuíam o Karô (espírito) do animal abatido e, por isso, poderiam trazer doenças a quem os manipulasse. As mulheres seriam frágeis para tal, só para alguns homens isto era permitido. Atualmente existe uma divisão sexual do trabalho na produção dos enfeites, modificando a maneira da tribo em encarar a divisão do trabalho. Sinal dos tempos?

 

Reza a lenda que, em algumas tribos indígenas, as miçangas vinham dos espíritos; outras achavam que vinham dos excrementos da lagarta; outras das arvores, ou dos excrementos do Gavião, também chamado de Japu.

Nos primórdios elas foram trazidas pelos colonizadores e eram de vidro de origens tcheca, veneziana, holandesa e chinesa; com o passar do tempo, foram sendo substituídas pelas contas de plástico.

A riqueza da mostra é nos apresentar cada grupo desses continentes com seu tipo de manufatura, lendas e mitos. Esses grupos diferenciam-se uns dos outros pela maneira como confeccionam suas peças, de acordo com seus rituais.

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Precisamos valorizar a cultura indígena num todo, assim com a africana (que também faz parte da mostra), caso contrário, corremos o risco de vê-las extinguirem-se.

Quando comecei a escrever este texto, quis ir mais além na pesquisa para tentar mensurar a diminuição das etnias indígenas no Brasil. Tive a surpresa de constatar que existem apenas estatísticas do IBGE do ano de 2010. Não consegui visualizar outros canais que certamente devem fazer isso, como a FUNAI. Na exposição há dados que mostram alguns povos do Xingu com um número tão pequeno de componentes, que até dá pena, a exemplo dos índios Aruak, com apenas 281 pessoas na sua comunidade.

Se não exigirmos mudanças no governo, das demarcações das terras a outras demandas feitas pelos indígenas, perderemos ainda mais tanta beleza produzida por um povo que foi, aos poucos, diminuindo por inúmeras razões, da falta de reservas para sobrevivência, à mortes por conflitos e até doenças típicas do homem branco, como a gripe e diarreia.

E, para finalizar, uma história curiosa. Reza também outra lenda que nos dá a dimensão do descaso, desde sempre, com os nossos índios. Se for verdade, seria a primeira dizimação biológica brasileira?

“Entre 1575 e 1578. O então governador do Rio de Janeiro, Antônio Salema, um jurista, formado em Coimbra, que tinha como principal característica, odiar os índios Tamoios. Salema pretendia instalar um engenho de cana nas margens da atual Lagoa Rodrigo de Freitas. Como estas terras eram ocupadas pelos Tamoios, Salema usou um método traiçoeiro para exterminá-los: espalhou pelas margens, roupas que haviam sido usadas por doentes de varíola. Os índios decidiram vesti-las e se contaminaram. Acabaram mortos”

Ainda estamos cegos para tanta riqueza desse universo indígena. A exposição também nos mostra a resiliência desse povo, sua riqueza, seu poder de encantamento, enfim, sua linda cultura.

 

Miçanga- derivada de masanga, palavra de origem africana, que significa “contas de vidro miúdas

 

 

Dr. Borracha, o guardião da floresta

José Rodrigues, mais conhecido como “Dr. Borracha”, é um artesão/seringueiro/guardião da floresta do Acre. Começou a trabalhar na extração do látex aos 10 anos de idade, ofício que aprendeu com seu pai que também era seringueiro.

Dr. Borracha

José Rodrigues e Lene, sua mulher

Vou mais longe ao dizer que ele é um verdadeiro artista, principalmente por ter conseguido impingir sua marca ao criar suas sandálias/sapatos de látex.

O que diferencia um artesão de outro? É exatamente criar o seu produto, feito da mesma matéria dos demais, com uma personalidade própria. Isso acontece em várias comunidades de artesãos que trabalham com matérias diversas como a borracha, o barro, a palha, a madeira e tantas outras que temos nesse vasto e rico ‘Brasis’. Há sempre expoentes que se destacam pelas singularidades em seus trabalhos.

José mora no meio da floresta, não sabe ler, nunca foi à escola, não tem computador. Mas é mestre em fazer sandálias de borracha a partir da extração da seiva dos seringais acreanos.

Graças a um curso ministrado pela UnB (Universidade Federal de Brasília), ele aprendeu uma técnica em que são produzidas ‘folhas de látex’, as chamadas Folha Semi Artefato (FSA). Essas folhas são produzidas por ele e coloridas com a ajuda da sua mulher Lene.

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Suas palavras são poéticas: “o povo do Acre sempre diz que a seringueira é como uma mãe. A gente pega o leite dela para conseguir o leite das nossas crianças. Assim fui criado. Por isso digo que sou um defensor da floresta, pois eu não derrubo a floresta, eu dependo dela pra viver’

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Há uma enorme importância nesta sua fala na medida que vemos uma pessoa consciente do seu dom, conciliando seu produto à preservação da natureza. Isto é o melhor que temos em termos de sustentabilidade: preservar a natureza e ainda retirar lindos ‘frutos’ dela. Ahhh, se todos fossem iguais a você, Dr. Borracha! O mundo seria muito melhor!

É bom lembrar que a figura do seringueiro Chico Mendes ainda permanece nas nossas lembranças como o grande defensor da Amazônia. Assim como Chico, José nos ensina que é possível explorar a natureza com consciência. “Quando casei e cheguei aqui (Epitaciolândia, a 243 km de Rio Branco) o pessoal nem sabia que tinha seringueira na região. Só derrubavam árvore para criar gado”. Aos poucos ele foi ensinando a comunidade a extrair o Látex, que havia tido uma redução de uns 60% da atividade. No passado a extração do látex era uma cultura bastante forte.

José não está só, ao compartilhar com a comunidade o seu saber, ele forma uma cadeia produtiva em torno da cultura do látex. Isto é importante para sua subsistência e para fomentar o desenvolvimento sustentável na região. Não é surpresa ele ter recebido, em 2014, o Prêmio Chico Mendes de Florestania.

Que esse guardião da floresta da Amazonia nos ensine, com a beleza de seus frutos,  a cada vez mais valorizarmos cada pedacinho dela.

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Colares de Tucum

Os Surui de Rondônia se autodenominam Paiter, que na língua significa “gente de verdade, nós mesmos”.

As ameaças e violências sofridas, motivaram a luta desse povo pelo reconhecimento e integridade do seu território, mantendo a vitalidade de suas tradições.

As mulheres Surui fazem colares de voltas a partir de várias matérias-primas. Os colares de contas de tucumã são feitos com coco de tucum, um coqueiro típico da região amazônica, quebrados, cortados com faca, perfurados, enfiados em uma linha amarrada em duas pontas e lixado com pedra, por vezes numa extensão de dez metros ou mais. O colar é usado por homens, mulheres e crianças de várias maneira e em várias partes do corpo.

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Renascença ou Fascinator

Minha filhota casou em setembro do ano passado. O casamento foi à tarde na linda Oficina do Brennand, no Recife. A capela da Oficina é bem rústica, rodeada de mata atlântica. Muito verde, muita arte. O projeto é de Paulo Mendes da Rocha.

Para a ocasião, comprei este fascinator* ou casquete* ( as definições estão abaixo, pois se confundem) em Nova York, no East Village. Fiquei fascinada com a lojinha charmosa da Barbara Feinman, parecia que estava vivendo um episódio de Sex and the City. Ela mesma quem cria as peças.

Queria também colocar algo no vestido, de cor caménerè, para quebrar um pouco o escuro da cor, mas vi que teria que decidir em apenas um acessório, do contrário pareceria uma dama do séc XIX saída de um romance. O facinator prevaleceu, então deixei a bela gola/colar, criação do estilista alagoano Marcus Telles, para usar em outras ocasiões.

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Gola de Renascença de Marcus Telles

Vão as definições, para quem tem dúvidas, do que é Fascinator e e Casquete.

Fascinator– Tecnicamente é apenas um adorno de cabelos feito de plumas, penas e pedrarias. É comumente confundido com casquete, mas a diferença está justamente no material. Pode ser usado de dia e de noite.

Casquete– Criado na déc de 40, pós-guerra, algumas vezes é confundido com o fascinator. Ele é um pequeno chapéu, sem abas, redondo ou oval, estruturado e geralmente usado na lateral da cabeça. É mais comumente usado à noite.

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A iconografia da matéria

Ontem fui ao CRAB- Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, no Fórum Mercado Rio Criativo. Fiquei encantada com o espaço e a proposta do lugar. Na exposição que está lá, com curadoria de Adélia Borges e Jair de Souza, podemos ver um recorte do artesanato de origem vegetal brasileiro. Belas peças, colocaria muitas delas na minha casa e usaria tantas outras. O que mais me encantou foi a sala onde  há uma iconografia da matéria. A natureza é bela e nos dá “frutos”para perpetuarmos esta beleza.

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Mulheres de Fibra

FIBRA DA BANANEIRA

O Filé, bordado tradicional alagoano, confeccionado comumente com linhas de algodão, ganha nova versão com a fibra do tronco da bananeira. As responsáveis por esta mudança são as artesãs alagoanas.

Provenientes de assentamentos rurais, essas mulheres se uniram, em 2008, com o intuito de transformar o artesanato em uma oportunidade de vida.

Com sensibilidade, criatividade e algumas combinações de pontos de Filé, as Mulheres de Fibra,criam peças belíssimas e, ao mesmo tempo, realizam uma prática ecologicamente correta. Na agricultura, depois que as bananeiras chegam a sua maturidade, seu fruto é colhido e seu tronco descartado, onde viram matéria orgânica. Elas aprenderam a aproveitar a matéria prima do tronco graças à assessoria do SEBRAE e APL de Turismo Costa dos Corais.

Hoje, essas mulheres realizam um trabalho riquíssimo, que valoriza não só a tradição, elas ampliam a possibilidade de um mundo mais sustentável.