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Fuxico Estrela

Hoje vou falar de um trabalho lindo, pouco conhecido, que é chamado de Fuxico Estrela, Hexágono ou Fofoca. Esse lindo trabalho é conhecido por todos esses nomes e como a sua construção tem um pouco de tudo isto do qual é batizado, fica difícil saber qual é o nome correto.

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Fuxico Estrela

Estava eu nas minhas andanças olhando artesanato com minha amiga querida e também apreciadora de coisas lindas, Cristiana Tejo, no Centro de Artesanato de Pernambuco, no Recife, quando me deparei com dois desses trabalhos no meio das pilhas de colchas de crochê,  de linhas e patchwork. Fiquei com um e Cristiana com o outro. Tal era nosso encantamento que uma recepcionista se aproximou e falou que se tratava do artesanato chamado de “Fofoca”. Eu já conhecia o Fuxico, quem não o conhece?

Diz a lenda que o Fuxico surgiu há anos trazidos pelos escravos. Quando eles se juntavam para costurar, usavam as sobras dos tecidos dos seus senhorios e aproveitavam para fazer fuxico dos mesmos. Fuxico pelo dicionário quer dizer: futrica, intriga, mexerico.  E também: cerzidura ou remendo malfeito.

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Fuxico

Os produtos em questão eram caminhos de mesa com a elaboração de flores em hexágono, sem emendas. Pensei: meu Deus, essa peça tem a sofisticação de um origami, como se faz isso? Comprei e levei para casa para analisar melhor. Com enorme curiosidade desmanchei uma das florzinhas e vi que se tratava  de um hexágono com dobraduras, como eu já havia previsto. Tentei repetir em outro tecido amassando a peça, passando ferro e não consegui chegar a um resultado satisfatório. Pensei comigo, deve haver uma lógica para sua construção, por mais difícil que possa parecer a confecção, há uma lógica!

O legal nos produtos do Centro de Artesanato é que eles colocam em cada um deles uma etiqueta do artesão, de onde ele é e o seu telefone. Lá estava o nome de D. Maria José e, por sorte minha, ela morava em Olinda. Liguei para ela e elogiei o trabalho, falei que queria aprender como fazia aquela belezura e se ela poderia me ensinar. Ela me falou que participava de uma “cela” na Casa da Cultura do Recife, com um grupo de Terceira Idade.

A Casa da Cultura, para quem não conhece é um prédio lindo em estilo Neoclassico que foi a antiga Casa de Detenção do Recife. Inaugurada em 1855, foi o projeto mais inovador de prisão àquela época, não só pelo seu estilo arquitetônico, mas também pelo seu funcionamento. Havia uma preocupação com a inserção da instituição na vida social do bairro e até da cidade, inclusive conta-se que o melhor pão da região era aquele produzido pelas mãos dos detentos na panificadora do presídio. E os pentes de chifre e as coleções de jogo de botão fabricados ali tinham fama pela sua qualidade. Além disso, o primeiro estandarte do Vassourinhas foi bordado também dentro do presídio. Tudo isso sem falar que os detentos ainda formavam times de futebol e tinham uma biblioteca à sua disposição. Em 1973 a Casa de Detenção foi desativada e restaurada por Lina Bo Bardi e Jorge Martins Junior, sendo inaugurada em 1976 como Casa da Cultura de Pernambuco. Suas celas viraram lojinhas de artesanato e foi lá numa delas que eu encontrei D. Maria José com outras senhoras que realizam e comercializam seus respectivos artesanatos.

Fui recebida com muito carinho. Ela ficou emocionada pelos meus elogios. É interessante aqui apontar que figuras como D. Maria José, que possuem um talento enorme, não conseguem perceber o quão importante é aquilo que fazem. Talvez porque no geral as pessoas não dão muito valor ao artesanato; talvez por conta, no caso específico dela, que fez por muito tempo o seu artesanato escondido, pois o seu marido não a deixava trabalhar; ou talvez porque, apesar da sofisticação encontrada em alguns artesãos, a grande maioria ainda faz seus produtos para um publico específico, o popular, aos moldes do que é vendido em feirinhas de artesanato em todo o país. Carecem de uma percepção maior na harmonia das cores, dos pontos e nas misturas de materiais. Por exemplo, ela me mostrou o mesmo trabalho do hexágono com uma mistura de crochê, que não combinavam entre si, até brigavam. Mas não cabia a mim interferir, esse é o universo delas! E embora eu tenha tido uma enorme vontade de dar alguns “pitacos” sobre o que eu achava mais interessante para a confecção, tive de me conter, pois eu ali era uma convidada e curiosa do saber que elas detinham. Descobri que apesar de pensar diferente do seu universo, há público para o que elas fazem. Tanto que no tempo em que permaneci lá aprendendo o hexágono, os turistas interessados nos produtos delas chegavam aos montes.

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Feito por mim e ainda em construção

Enfim, como eu previa. Havia uma lógica para a construção daquela singela de florzinha e eu aprendi!!!  Ela falou que o nome “Fofoca” é dado a um outro ponto parecido com o “Colméia” ou “Casa de Abelha”. A generosidade de D. Maria José foi tamanha que acabei comprando o que podia dela, pois queria de alguma forma retribuir tamanha gentileza. Quando perguntei se ela aceitava encomenda, ela me respondeu: “minha filha, meus dedos já estão duros e doem muito. Eu te ensinei para você mesma fazer, porque fica difícil para mim pegar muitas coisas hoje em dia para fazer”. Então eu pensei, que pena! D. Maria José, com todo seu talento, começou a produção com a limitação de esconder do marido. Agora que ela já não escondia mais e que conseguiu sair de casa e participar de um grupo vendendo o seu trabalho, tem outra limitação muito pior que a primeira, a da dificuldade física. Mundo injusto esse nosso! Nunca vou me esquecer da sua generosidade e gentileza. O mundo precisa de mais pessoas assim!

 

 

 

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Poeta de formas e da palavra.

A criatividade sempre vai acontecer dentro de um contexto, dentro de um campo pré-definido, um campo simbólico de ação. Isso pode incluir muitas coisas, matemática, física, cosmologia, escrever, e normalmente isso vai envolver uma pessoa, um grupo, que faz certas incursões nessa área ao ponto de modificar visualmente um aspecto da estrutura da área, criando algo que é notavelmente diferente, ou pelo menos enriquece de certa maneira ou traz um ângulo de pensamento que até então não existia. (Charles Watson)

O que faz a real criação e um real artista? As palavras acima grifadas foram ditas por Charles Watson, Irlandês, que adotou o Brasil, especificamente a cidade do Rio de Janeiro para morar, e trabalha com a investigação de processos criativos.

Suas palavras me levam a década de 1980 quando costuma ir para a cidade de Caruaru em Pernambuco, ver sua feira e visitar o Alto do Moura. O bairro do Alto do Moura é um pouco afastado do centro da cidade e é lá onde prolifera a produção do artesanato no barro, tendo Mestre Vitalino como o precursor desse trabalho. Nos dias atuais são dois nomes ícones que encabeçam a escultura do barro em Caruaru, Mestre Vitalino e Mestre Galdino.

Nessas minhas viagens,  Mestre Vitalino já havia morrido e a única coisa que encontrávamos por lá era o legado que ele havia deixado, principalmente para sua linhagem. Todos, sem exceção, copiavam o estilo dele. Modificam um coisa aqui, outra acolá, na escala, ou cores, nos bonecos que representam a cultura do lugar. E por mais que fosse bonito, passava a sensação de uma produção em grande escala e não chamava a minha atenção.

Por essa época, numa dessas viagens, conheci Galdino. Figura que era tida como “meio louca” no povoado, que ia na contramão da produção em voga, mas que para mim, era uma figura especial, com um trabalho mágico, que continha um diferencial no meio dos iguais. Tinha um universo e alma próprios, cheio de estórias para contar de cada peça. Fiquei apaixonada!

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Mestre Galdino em frente a sua casa

Ao começar a escrever este texto resolvi não só me basear pelas minhas impressões e memória afetiva, visto que elas eram tendenciosas na escolha primordial do meu olhar, precisava ver outras referencias sobre ele, talvez assim faria um texto mais “isento”. Fui consultar um livro que me marcou desde a primeira vez que o li, que para mim era a “ bíblia” do artesanato nordestino numa época em que não se dava voz ao artesão, não se conhecia muito do trabalho deles. Por um bom tempo achei que havia perdido este livro nas mudanças da vida. Comprei outro recentemente no sebo, pois a edição já estava esgotada. Acabei achando o primeiro e fiquei com dois exemplares. Este livro maravilhoso se chama “O Reinado da Lua”- Escultores Populares do Nordeste, de Silvia Rodrigues, Flávia Martins e Maria Letícia Duarte. Qual minha surpresa e ao mesmo tempo decepção ao descobrir que Mestre Galdino não estava lá!. Folheei por umas três vezes e só na última descobri apenas uma pequena citação no meio da fala de um filho mais velho de Vitalino, o Amaro, que dizia:

“O barro eu pego com Manuel Galdino, que é meu colega de arte. Ele é muito bom, faz máscaras. O trabalho dele é diferente do da gente. Ele não faz os bonecos que nós fazemos nem a gente faz os dele. Meu trabalho eu boto na sua casa. Quando vendo, dou agrado para ele…

Então vejam só, nem foi mapeado como artista popular para o livro e talvez ainda não fosse  valorizado como artesão, vide a fala enfatizando sua criação ser “diferente da da gente” e que “dava agrado”, quando havia vendas na casa dele. Fiquei triste e sem entender o porquê dessa ausência, já que para mim ele era a presença que mais brilhava e tinha luz própria naquele contexto.

Quando você o visitava e começava a olhar uma peça, ele imediatamente se aproximava e começava a contar a estória da peça, que ia de seres extra terrestres à visões de santos e entidades, quase numa explosão de delírio e alegria. Declamava versos parecendo um personagem de cordel e o mote do repente era o significado de cada peça. Ele dizia que as peças falavam com ele e ele com elas. Falava com paixão da arte de esculpir e queimar o barro. Que tinha o tempo de esculpir, de deixá-lo secar, de esperar mais um tempo para pô-lo no forno, de esperar depois de esfriar para sair do forno, todo um ritual de respeito à própria criação que, diz ele, “saíria encruada e feia”caso não seguisse o ritual.

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Escolher uma peça dava trabalho, porque eram muitas e ricas com as estórias de cada uma delas cheias de personalidade. E, em resposta sobre o porquê o seu trabalho não se enquadrava nas influência de Mestre Vitalino, ele declamava:

Galdino é bonequeiro/ e sou poeta também/ tem boneco em minha casa/ que bonequeiro não tem/ na arte só devo a Deus/ lição não devo a ninguém.

Tal qual o grande artista Bispo do Rosário, que por muito tempo viveu como um pária da sociedade, e dizia conversar com Deus,  ele era compulsivo na arte de criar. Galdino teve reconhecimento tardio. Mas quando descobriu a arte na sua vida, produziu como ninguém, nunca repetindo uma peça. Antes da descoberta do barro ele trabalhou com várias coisas, inclusive como pedreiro.  O fato da paixão pelo barro aconteceu quando foi fazer obra no Alto do Moura e viu a produção dos artesãos. Desejou começar a trabalhar com aquilo, principalmente porque via os artesãos vendendo sua peças aos turistas e ganhando três vezes mais do que ele. Então, consciente de sua condição, decidiu frequentar os ateliês e pedir ‘bolinhos’ de barro para os amigos. Ele passava o dia revestindo o posto de saúde como pedreiro e no período noturno iniciava sua segunda jornada de trabalho, como ceramista. Ele disse que a primeira vez que sentou para criar, pensou consigo mesmo: Senhor, pelo amor de Deus, faz de mim um ceramista, eu to passando tanta necessidade! Apesar de eu ser tão pecador, faz de mim um ceramista, pra eu sair dessa miséria que eu vivo!

Ele falou que não sabia se foi um pensamento dele, mas para ele o Deus apareceu dizendo: Galdino, tu vai ser um ceramista!…Mas eu desconfio que no momento que eu nasci Jesus é que deve ter dito: Galdino, tu vai ser um ceramista!

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Galdino forjou um mundo próprio com o barro. Muitos críticos ainda hoje tentam classificar seu estilo. Suas imagens antropofágicas, híbridas, oníricas, já foram rotuladas de incomuns, surreais, grotescas, “os bichos feios de seu mané”. Em seu estilo próprio, ele misturou a mitologia tradicional com a recente, somou arquétipos universais com o imaginário nordestino. As imagens observadas no seu cotidiano e a sua imaginação aguçavam sua percepção para criar as figuras impressas no seu inconsciente e reconhecidas por ele como a ‘parede de seu juízo’. Ele costumava quebrar as peças que não saiam iguais as de seus sonhos. Para mim não importa classificá-lo, rótulos apenas para catalogá-lo e engessá-lo em categorias. Para que? O que importa é o fato  que Galdino foi Galdino o tempo inteiro, mestre criador, íntegro, um verdadeiro artista!

SE CRIA ASSIM

Quem cria tem que durmi

Pensar bem no passado

De tudo ser bem lembrado

Tirar do Juízo como louco

Ter a voz como um pipoco

Ter o corpo com energia

Ler o escudo do dia

Conservar uma oração

Fazer sua oração

Ao deus da puizia.

Deve durmi muito cedo

Bem mais cedo acordar

Muito mais tarde sonhar

Muito afoito e menos medo

Muito honesto com segredo

Muito menos guardar

Muito mais revelar

Pra ter mais soberania

Muito poca covardia

Não durmi para sonhar

(Poema de Mestre Galdino)

Galdino morreu pobre e doente em 1996. A pobreza sempre fez parte da sua vida mesmo depois do reconhecimento e de ter participado de muitas mostras, inclusive no exterior. Destaque para a participação na exposição “Brésil Arts Populaires” no Grand Palais, Paris- 1987. Muitas vezes, por necessidade de dinheiro, vendia suas peças a preços irrisórios. Às vezes cobrava um preço justo, mas não conseguia vender porque não era para o bolso do turista comum que ia ao Alto do Mora comprar artesanato.

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Dizem que ao morrer do coração aos 72 anos, tendo apenas 21 de produção intensa, pois começou sua arte aos 51 anos, havia ainda muitas peças na sua casa, pois mesmo doente ele se levantava e produzia dizendo que nem sentia que estava doente. Foi aconselhado aos filhos que guardassem essas peças para no futuro terem algo do pai. Reza a lenda que um belo dia chega alguém lá e consegue ‘catequizar’ um dos seus filhos a vender todas elas, foi pago por elas um preço irrisório.

Outra perda é do seu caderno de notas. Havia escrito para mais de mil estórias, rimas, poemas. Outro filho relata que estava sob posse de um irmão, que acabou cedendo o caderno a uma mulher, com promessas de escrever uma história do pai. Eles nunca mais tiveram notícias desse caderno. Dos três filhos só resta o Joel, que, enquanto o pai estava vivo, tentou repetir o estilo dele, mas nunca conseguiu chegar aos  seus pés. Não se imita um verdadeiro artista! Galdino continuará a ser Galdino, único, sem discípulos e agora sem matéria.

 

 

Ilha do Ferro-beleza e silêncio às margens do Rio São Francisco

Eu e uns amigos fizemos uma viagem para Ilha do Ferro, Sertão de Alagoas, pois queríamos conhecer os artesãos que vivem lá e produzem seu rico artesanato.

Viajar pelo sertão de Alagoas é uma experiência impar, pois, apesar de vermos na maior parte do percurso uma paisagem árida, ao chegarmos ao município de Pão de Açúcar é surpreendente encontrar o Rio São Francisco. Nessa hora nos perguntamos como pode haver tanta água em contraste com tanta seca.

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margem do Rio São Francisco em Pão de Açúcar

Pão de Açúcar é um município incrustado às margens do São Francisco. Seu nome original era Jaciobá, nome Guarani que significa “ Espelho da Lua “. Depois da passagens dos índios Uramaris e Chocó, a região passou a ser domínio de um português chamado Lourenço José de Brito Correia. Ele, proprietário das terras, passou a chamar a região de Pão de Açúcar por conta de um morro onde se fazia o processo da clarificação do açúcar.

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Apesar do nome ter sido batizado por este motivo, é difícil não pensar que a beleza do Rio de Janeiro, com seus símbolos mais famosos como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, não tenham influenciado a população para juntar ambos em um só lugar. A inauguração da estátua de 10 metros de altura do Cristo, em cima do morro, foi em 1950. Também talvez seja mera coincidência que o outro lado do Rio São Francisco, já estado de Sergipe, tenha uma comunidade que se chama Niterói. Coincidências à parte ou não, a saudade bateu! Pensei: aonde eu vá, de Lisboa ao sertão das Alagoas, encontro referências da cidade que fui feliz nos oito anos em que morei, ela sempre teima em estar presente, seja na memória, seja nessas paisagens, nesses Cristos de braços abertos.

Na região há sítios arqueológicos, histórias da passagem de D. Pedro II, além de ter sido a rota do cangaço de Lampião e seu bando.

Seguimos numa estrada de barro até a Ilha do Ferro, que fica a 18km de Pão de Açúcar. Ao contrário do que diz o nome, não é uma ilha e sim continente. O acesso para lá é de barco, pelo Rio São Francisco, ou carro, por uma estrada de barro seco e na caatinga encontramos mandacarus, umbuzeiros e algorabas. Há beleza e silêncio nessa paisagem.

As casinhas são lindas em ruas estreitas, algumas debruçadas sob o rio São Francisco, outras morro acima. O rio é uma preocupação diária dos povos ribeirinhos que ficam apreensivos com as mudanças que têm acontecido no seu leito. Os moradores sabem que precisam desse rio, que é de lá que tiram seu sustento: “É muito forte isso de retratar o nosso lugar. Fico pensando então como vai ser se o Velho Chico morrer. Diziam que o Rio São Francisco ia virar um poço, e agora acho que de fato vai virar mesmo. Quem sabe nossas futuras gerações, os meus tataranetos, não vão alcançar isso? Eu faço economia de água, faço economia de energia, tudo para ver se a situação não piora. Acho isso aqui lindo. Vai ser uma pena se acontecer”. Palavras de Rejânia Rodrigues, bordadeira, casada com Valmir Lessa, escultor.

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Banco de Fernando Rodrigues

Rejânia é filha de Fernando Rodrigues, pioneiro na produção de obras esculpidas nas raízes e troncos de uma árvore chamada Craibeira, encontrados na natureza. O mestre, que faleceu há oito anos, deixou um legado com nomes fortes de talento e criatividade. Aproximadamente 25 homens trabalham com o artesanato em madeira atualmente, seguindo o caminho que o mestre ensinou.

Mestre Fernando Rodrigues foi o pioneiro no ofício de esculpir na madeira. Seus discípulos buscam na matéria-prima morta e descartada na natureza fonte de inspiração, dando forma às peças de decoração e utensílios como cadeiras, objetos de arte, mesas, bancos e o que mais o impulso criativo de cada artesão permitir.

Mestre Valmir Lessa, genro de Fernando Rodrigues, é um dos artesãos que imprime sua marca na madeira. Ele fala que é preciso verificar se existem espinhos e se o galho e o tronco “dão forma”, antes de recolher a matéria-prima. O olhar precisa ser atento, perceber formas onde, para a maioria das pessoas, há apenas troncos retorcidos. “A maioria das coisas já vem pronta. Já são feitas pela natureza. Tem uma cadeira aqui que eu só coloquei o pé. O povo diz que eu sou bom, mas eu olho a madeira morta e digo: ‘Isso aqui vai dá um pássaro. Ou, isso aqui dá uma cadeira’. Enxergo o que já existe ali. O dom é só de conseguir ver o que já vem pronto”.


Bebendo na mesma fonte, os artesãos buscam a originalidade em pequenos diferenciais. Se a especialidade de Valmir são as cadeiras, Mestre Aberaldo tem como principal produção os banquinhos e os famosos bonecos de madeira, pássaros também estão entre os preferidos do artesão.

Além das peças esculpidas em madeira pelos homens, há o bordado de Boa Noite, uma joia rara feito pelas mulheres do local, que constitui uma alternativa de renda. Boa Noite é o nome de uma singela flor da região.

Sem dúvida alguma, o trabalho das mulheres da Ilha do Ferro tem um significado especial. Além de trazer ao público uma das mais belas técnicas de bordado do nosso país, essa produção é, hoje, elemento de agregação e valorização de toda a comunidade.

Na nossa passagem pela Ilha, quase não encontramos nada para ver ou comprar. Para o bem ou para o mal a Rede Globo “ descobriu” o talento dos artesãos e quase tudo que eles tinham foi vendido para participação na novela das oito. Fico cá pensando que a descoberta desses talentos por um maior número de pessoas é uma coisa muito boa para o artista, mas, as perguntas que vêm imediatamente à mente é: Será que com isso eles conseguirão permanecer íntegros na sua criação? Será que esse súbito interesse da classe média emergente urbana, possuidora de outros gostos que não o universo dos artesãos, os farão sucumbir às imposições do mercado? São perguntas bem delicadas para serem observadas no decorrer do tempo.

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Mestre Aberaldo trabalhando

A Ilha do Ferro é ainda e apesar de tudo um cenário bucólico de vida tranquila e longe da algazarra de uma cidade grande. A cidade parece parada no tempo. Os artesão são de uma gentileza e pureza de espírito. Penso que talvez a dificuldade para chegar lá, a paisagem inóspita, não atraiam um turismo de massa. E isso, no meu ponto de vista é bom. Talvez a viagem seja para alguns interessados em ver a cultura e as coisas lindas produzidas por um povo que se orgulha de pertencer a um lugar. Que o rio São Francisco estanque sua vazão e ainda abençoe por muito tempo com suas águas caudalosas essa comunidade tão bonita, rica e criativa.

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banco feito por Bedéu

“Tempo esse grande escultor”

Capela, Zona da Mata em Alagoas, cidade onde meu pai nasceu e que sempre ia quando eu ainda era criança. Na casa da minha avó sempre brincávamos de fazer bonecos e panelinhas de barro.

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Bom revisitar o passado depois de tanto tempo e encontrar um espaço como o Art do Barro do João das Alagoas. Como estava em viagem para visitar outros artesãos no sertão Alagoano, resolvi parar lá e conhecer melhor o trabalho dos mestres do barro de Alagoas.

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O espaço é uma casa simples de cimento batido numa rua sem saída onde encontramos no final um curral de bois. A paisagem é bucólica como se estivéssemos parados no tempo.

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João das Alagoas, Sil, Nena, são alguns dos nomes que imprimem seus universos imaginários na matéria do barro. Além deles, os filhos de João também seguem esse caminho de modelar e ensinam aos jovens de cidade o ofício e os segredos do barro. Sim, porque a matéria guarda seus segredos. Me lembro bem quando modelava minhas pequenas peças, tinha que ter paciência, pois era necessário um tempo para todas as etapas, além de ter um barro de qualidade para amalgamar, pois alguns não davam “a liga”. Tempo para modelar, tempo para secar, tempo para queimar no forno à lenha…tempo, tempo, tempo, tempo, “ Tempo esse grande escultor “, já dizia Yourcenar.

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João nos recebeu com uma cordialidade e simplicidade típicas das pessoas que moram em interior. Para de trabalhar e vai mostrando todo espaço, que, apesar de levar seu nome, é um atelier coletivo e reúne todos os mestres e discípulos.

Na sua generosidade vai mostrando cada peça, as suas e as dos outros também, mas a explicação do sentido de cada peça ele só dá para as suas, é claro.

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Mestre no modelar de lapinhas e na religiosidade de seu povo, tem sua marca registrada no “Boi Bumbar “, esculpidas em pequenas e grandes peças, com saias trabalhadas em alto e baixo relevo, representando histórias do folclore nordestino, dos casamentos, dos batizados e das mais típicas brincadeiras de rua das crianças brasileiras. João recebeu, em 2011, o título de Patrimônio vivo do Estado de Alagoas.

 

Sil é uma escultora que modela o barro diferente de João, com detalhes riquíssimos que mais parecem rendas. Suas personagens têm uma riqueza na indumentária, e, até mesmo quando não cria personagens, apenas frutas, são peças ricas nos pequenos detalhes.

 

Nena já tem uma estética um pouco parecida com a do João, mas difere quando modela seus temas em enormes peças que parecem Torres de Babel.

O mais bonito é ver como eles podem “contaminar” uns aos outros no seu dia a dia, principalmente vendo os jovens interessados no ofício, tentando criar suas próprias assinaturas. Isso é saber repassar o ofício, sem pequenez nem mesquinharias. Um lindo trabalho desse povo.

Pontal do Coruripe

Estava há tempos sem escrever e o motivo foram muitas mudanças e muitas viagens na minha vida. Retomarei com “toda corda” porque, afinal, estou agora mais perto do “celeiro”da produção de artesanato, que é aqui no meu nordeste.

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Nas viagens por esse mundão de Deus a gente se depara com tanta riqueza, mas tanta, que aqui e a acolá a gente nem sabe o que é mais bonito, o que é mais rico.

Na  mais recente viagem, passando pelo Pontal de Coruripe, em Alagoas, distante uns 90km de Maceió, entrei na Associação  das Artesãs do Pontal de Coruripe. Uma tarde assim bucólica, dia de semana, e lá estavam as artesãs em conversa como boas comadres, na porta da associação, a realizar as tramas das coisas lindas que elas produzem da palha do Ouricuri.

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As artesãs do Pontal de Coruripe reproduzem manualmente o conhecimento, recebido de seus antepassados, do artesanato da palha da palmeira do Ouricuri, uma espécie de palmeira (Syagrus coronata), facilmente encontrada na região. Por meio da organização coletiva elas buscam inovar nos materiais realizando a  mescla da palha com outros materiais e também introduzindo cores em alguns detalhes dos produtos.

A Associação das Artesãs do Pontal, uma paradisíaca praia que ostenta sua beleza como cartão-postal do Litoral Sul alagoano, explora a biodiversidade local, ou seja, as artesãs associadas se apoiam, para a realização do processo de desenvolvimento sustentável propriamente dito, no que o ecossistema local tem para oferecer. A palha que, através de exploração depredatória, sem responsabilidade ambiental, poderia ser extinta, nas mãos das artesãs de Coruripe é trabalhada com consciência. Elas sabem que para continuar a manufatura do seu artesanato há que se preservar a espécie. O que elas realizam, de fato, é a própria preservação do meio ambiente, a reciclagem da fonte de matéria-prima para assim, garantir o pão de cada dia de seus familiares.

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A praia é lindíssima e o artesanato, nem se fala! Vale a pena um passeio por lá, com direito a um lindo pôr do sol na Associação das Artesãs. Além disso, você acaba levando algo produzido por elas, ajudando a comunidade e adquirindo um artesanato impar em beleza.

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Cores de amores

A linda coleção “Grades do Recife” é o resultado do trabalho de formação de Jovens Artesãos, projeto do Museu do Homem do Nordeste/Fundação Joaquim Nabuco-Recife

Belas, coloridas e originais, as peças são inspiradas nos arabescos e linhas sinuosas das janelas, portas e sacadas do Recife. Essas fontes foram o ponto de partida para a criação de uma bela coleção de vasos, fruteiras e luminárias, feitas com tramas de linhas e cordas de polipropileno.

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O trabalho contou com a consultoria e a intervenção do designer mato-grossense, Sérgio J. Matos, que instigou os alunos a observarem seu universo. A partir do registro em fotografia dos gradis das suas moradas, os alunos foram criando os detalhes para o desenvolvimento dos produtos. O objetivo do projeto foi capacitar profissionalmente estudantes de escolas públicas na produção artesanal. Lindo trabalho com os pequenos artesãos e, principalmente, o seu resultado. Os produtos estão a venda na loja do Museu.

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Passado e Presente num só lugar-Guimarães

Até onde meus olhos puderam alcançar nesse além mar, Guimarães foi a cidade que mais me deixou encantada. Sabe aquela sensação de pertencimento, como se você já tivesse vivido ali em outras vidas? Ou como se a sensação sentida ao conhecê-la fosse uma antecipação do tempo ao fato em si. Pois bem, essa impressão me acomete vez por outra em algumas cidades, e a sentimento é de bem estar e envolvimento.

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Loja Casa da Senhora Aninhas

Guimarães é uma cidade medieval, distrito de Braga, conhecida como “Berço da Nação” e primeira capital do Reino de Portugal. Fundada em 1128, ela foi reconhecida pela UNESCO, em 2001, como Patrimônio Mundial. Em 2012 foi considerada a Capital Europeia da Cultura.

Do Paço do Duque, com seus ambientes escuros de pedra, às ruínas do Castelo, tudo é muito bem cuidado, a cidade é limpa e arborizada. Caminhando uma ladeirinha abaixo desses monumentos, nos deparamos com vielas, ruas e praças, lindíssimas! É bom se perder nas vielas, que parecem paradas no tempo, embora a cidade seja viva e suas edificações sirvam de moradia e comércio.

 

Ao descer a rua de São João ( a escolha foi aleatória, não sigo mapas, vou me deixando levar como um flâneur) me deparo com uma loja que tem tudo a ver com “ O segredo dos meus olhos”. A loja se chama “Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas”.

Um lugar despojado e charmoso, que mais parece um atelier de artista. Você entra e encontra os produtos em cima de uma grande mesa central e nas prateleiras e paredes, pendurados em cabides, despojadamente. As peças são de artistas e designers de Portugal. Fui aos poucos acostumando o olhar e vendo cada peça individualmente, tal a enorme quantidade de coisas lindas juntas.

Colares, alfinetes (broches), anéis, mantas, cerâmicas, escultura e tantas outras coisas no mesmo lugar. As peças artesanais como, mantas, lenços, bolsas, são feitas com a cooperação de artesãos de comunidades da região do Minho e de outras regiões de Portugal. Todas genuínas da tradição Portuguesa, mas com um “toque” contemporâneo. Muitas peças feitas em teares dos artesãos daqui se assemelham com o trabalho dos nossos artesãos de Tacaratu, Pernambuco e de outras regiões do Brasil que têm ainda o uso manual de teares.

Sonia, que me atendeu muito bem quando pedi permissão para poder fotografar, comentou como ficava encantada de poder buscar esses produtos em todo o Portugal e, que, muitas vezes, gostaria de abarcar um numero maior de coisas lindas produzidas pelo país. Imagino como deve ser difícil fazer essa curadoria, tal qual no Brasil, que também possui uma imensa gama no artesanato, com materiais distintos. Quando falei da riqueza do nosso artesanato e dos artistas /designers / artesãos, que fazem a junção dos seus saberes nesse mesmo espírito da loja, ela falou que tinha interesse de conhecer mais coisas do Brasil e que conhecia a designer Mana Bernardes. Falamos dos impostos exorbitantes para exportação praticados no país…..Ah meu Brasil, quanta dificuldade de podermos apresentar nossas riquezas para o mundo!

Então, para os que estão em viagem para Portugal, Guimarães é uma cidade imperdível de se conhecer e se perder no tempo. E a loja “Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas”, um respiro contemporâneo incrustado no coração da cidade. Passado e presente num só lugar.