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Sobre o segredo dos meus olhos

Uma curiosa do mundo

Ilha do Ferro-beleza e silêncio às margens do Rio São Francisco

Eu e uns amigos fizemos uma viagem para Ilha do Ferro, Sertão de Alagoas, pois queríamos conhecer os artesãos que vivem lá e produzem seu rico artesanato.

Viajar pelo sertão de Alagoas é uma experiência impar, pois, apesar de vermos na maior parte do percurso uma paisagem árida, ao chegarmos ao município de Pão de Açúcar é surpreendente encontrar o Rio São Francisco. Nessa hora nos perguntamos como pode haver tanta água em contraste com tanta seca.

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margem do Rio São Francisco em Pão de Açúcar

Pão de Açúcar é um município incrustado às margens do São Francisco. Seu nome original era Jaciobá, nome Guarani que significa “ Espelho da Lua “. Depois da passagens dos índios Uramaris e Chocó, a região passou a ser domínio de um português chamado Lourenço José de Brito Correia. Ele, proprietário das terras, passou a chamar a região de Pão de Açúcar por conta de um morro onde se fazia o processo da clarificação do açúcar.

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Apesar do nome ter sido batizado por este motivo, é difícil não pensar que a beleza do Rio de Janeiro, com seus símbolos mais famosos como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, não tenham influenciado a população para juntar ambos em um só lugar. A inauguração da estátua de 10 metros de altura do Cristo, em cima do morro, foi em 1950. Também talvez seja mera coincidência que o outro lado do Rio São Francisco, já estado de Sergipe, tenha uma comunidade que se chama Niterói. Coincidências à parte ou não, a saudade bateu! Pensei: aonde eu vá, de Lisboa ao sertão das Alagoas, encontro referências da cidade que fui feliz nos oito anos em que morei, ela sempre teima em estar presente, seja na memória, seja nessas paisagens, nesses Cristos de braços abertos.

Na região há sítios arqueológicos, histórias da passagem de D. Pedro II, além de ter sido a rota do cangaço de Lampião e seu bando.

Seguimos numa estrada de barro até a Ilha do Ferro, que fica a 18km de Pão de Açúcar. Ao contrário do que diz o nome, não é uma ilha e sim continente. O acesso para lá é de barco, pelo Rio São Francisco, ou carro, por uma estrada de barro seco e na caatinga encontramos mandacarus, umbuzeiros e algorabas. Há beleza e silêncio nessa paisagem.

As casinhas são lindas em ruas estreitas, algumas debruçadas sob o rio São Francisco, outras morro acima. O rio é uma preocupação diária dos povos ribeirinhos que ficam apreensivos com as mudanças que têm acontecido no seu leito. Os moradores sabem que precisam desse rio, que é de lá que tiram seu sustento: “É muito forte isso de retratar o nosso lugar. Fico pensando então como vai ser se o Velho Chico morrer. Diziam que o Rio São Francisco ia virar um poço, e agora acho que de fato vai virar mesmo. Quem sabe nossas futuras gerações, os meus tataranetos, não vão alcançar isso? Eu faço economia de água, faço economia de energia, tudo para ver se a situação não piora. Acho isso aqui lindo. Vai ser uma pena se acontecer”. Palavras de Rejânia Rodrigues, bordadeira, casada com Valmir Lessa, escultor.

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Banco de Fernando Rodrigues

Rejânia é filha de Fernando Rodrigues, pioneiro na produção de obras esculpidas nas raízes e troncos de uma árvore chamada Craibeira, encontrados na natureza. O mestre, que faleceu há oito anos, deixou um legado com nomes fortes de talento e criatividade. Aproximadamente 25 homens trabalham com o artesanato em madeira atualmente, seguindo o caminho que o mestre ensinou.

Mestre Fernando Rodrigues foi o pioneiro no ofício de esculpir na madeira. Seus discípulos buscam na matéria-prima morta e descartada na natureza fonte de inspiração, dando forma às peças de decoração e utensílios como cadeiras, objetos de arte, mesas, bancos e o que mais o impulso criativo de cada artesão permitir.

Mestre Valmir Lessa, genro de Fernando Rodrigues, é um dos artesãos que imprime sua marca na madeira. Ele fala que é preciso verificar se existem espinhos e se o galho e o tronco “dão forma”, antes de recolher a matéria-prima. O olhar precisa ser atento, perceber formas onde, para a maioria das pessoas, há apenas troncos retorcidos. “A maioria das coisas já vem pronta. Já são feitas pela natureza. Tem uma cadeira aqui que eu só coloquei o pé. O povo diz que eu sou bom, mas eu olho a madeira morta e digo: ‘Isso aqui vai dá um pássaro. Ou, isso aqui dá uma cadeira’. Enxergo o que já existe ali. O dom é só de conseguir ver o que já vem pronto”.


Bebendo na mesma fonte, os artesãos buscam a originalidade em pequenos diferenciais. Se a especialidade de Valmir são as cadeiras, Mestre Aberaldo tem como principal produção os banquinhos e os famosos bonecos de madeira, pássaros também estão entre os preferidos do artesão.

Além das peças esculpidas em madeira pelos homens, há o bordado de Boa Noite, uma joia rara feito pelas mulheres do local, que constitui uma alternativa de renda. Boa Noite é o nome de uma singela flor da região.

Sem dúvida alguma, o trabalho das mulheres da Ilha do Ferro tem um significado especial. Além de trazer ao público uma das mais belas técnicas de bordado do nosso país, essa produção é, hoje, elemento de agregação e valorização de toda a comunidade.

Na nossa passagem pela Ilha, quase não encontramos nada para ver ou comprar. Para o bem ou para o mal a Rede Globo “ descobriu” o talento dos artesãos e quase tudo que eles tinham foi vendido para participação na novela das oito. Fico cá pensando que a descoberta desses talentos por um maior número de pessoas é uma coisa muito boa para o artista, mas, as perguntas que vêm imediatamente à mente é: Será que com isso eles conseguirão permanecer íntegros na sua criação? Será que esse súbito interesse da classe média emergente urbana, possuidora de outros gostos que não o universo dos artesãos, os farão sucumbir às imposições do mercado? São perguntas bem delicadas para serem observadas no decorrer do tempo.

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Mestre Aberaldo trabalhando

A Ilha do Ferro é ainda e apesar de tudo um cenário bucólico de vida tranquila e longe da algazarra de uma cidade grande. A cidade parece parada no tempo. Os artesão são de uma gentileza e pureza de espírito. Penso que talvez a dificuldade para chegar lá, a paisagem inóspita, não atraiam um turismo de massa. E isso, no meu ponto de vista é bom. Talvez a viagem seja para alguns interessados em ver a cultura e as coisas lindas produzidas por um povo que se orgulha de pertencer a um lugar. Que o rio São Francisco estanque sua vazão e ainda abençoe por muito tempo com suas águas caudalosas essa comunidade tão bonita, rica e criativa.

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banco feito por Bedéu

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“Tempo esse grande escultor”

Capela, Zona da Mata em Alagoas, cidade onde meu pai nasceu e que sempre ia quando eu ainda era criança. Na casa da minha avó sempre brincávamos de fazer bonecos e panelinhas de barro.

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Bom revisitar o passado depois de tanto tempo e encontrar um espaço como o Art do Barro do João das Alagoas. Como estava em viagem para visitar outros artesãos no sertão Alagoano, resolvi parar lá e conhecer melhor o trabalho dos mestres do barro de Alagoas.

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O espaço é uma casa simples de cimento batido numa rua sem saída onde encontramos no final um curral de bois. A paisagem é bucólica como se estivéssemos parados no tempo.

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João das Alagoas, Sil, Nena, são alguns dos nomes que imprimem seus universos imaginários na matéria do barro. Além deles, os filhos de João também seguem esse caminho de modelar e ensinam aos jovens de cidade o ofício e os segredos do barro. Sim, porque a matéria guarda seus segredos. Me lembro bem quando modelava minhas pequenas peças, tinha que ter paciência, pois era necessário um tempo para todas as etapas, além de ter um barro de qualidade para amalgamar, pois alguns não davam “a liga”. Tempo para modelar, tempo para secar, tempo para queimar no forno à lenha…tempo, tempo, tempo, tempo, “ Tempo esse grande escultor “, já dizia Yourcenar.

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João nos recebeu com uma cordialidade e simplicidade típicas das pessoas que moram em interior. Para de trabalhar e vai mostrando todo espaço, que, apesar de levar seu nome, é um atelier coletivo e reúne todos os mestres e discípulos.

Na sua generosidade vai mostrando cada peça, as suas e as dos outros também, mas a explicação do sentido de cada peça ele só dá para as suas, é claro.

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Mestre no modelar de lapinhas e na religiosidade de seu povo, tem sua marca registrada no “Boi Bumbar “, esculpidas em pequenas e grandes peças, com saias trabalhadas em alto e baixo relevo, representando histórias do folclore nordestino, dos casamentos, dos batizados e das mais típicas brincadeiras de rua das crianças brasileiras. João recebeu, em 2011, o título de Patrimônio vivo do Estado de Alagoas.

 

Sil é uma escultora que modela o barro diferente de João, com detalhes riquíssimos que mais parecem rendas. Suas personagens têm uma riqueza na indumentária, e, até mesmo quando não cria personagens, apenas frutas, são peças ricas nos pequenos detalhes.

 

Nena já tem uma estética um pouco parecida com a do João, mas difere quando modela seus temas em enormes peças que parecem Torres de Babel.

O mais bonito é ver como eles podem “contaminar” uns aos outros no seu dia a dia, principalmente vendo os jovens interessados no ofício, tentando criar suas próprias assinaturas. Isso é saber repassar o ofício, sem pequenez nem mesquinharias. Um lindo trabalho desse povo.

Pontal do Coruripe

Estava há tempos sem escrever e o motivo foram muitas mudanças e muitas viagens na minha vida. Retomarei com “toda corda” porque, afinal, estou agora mais perto do “celeiro”da produção de artesanato, que é aqui no meu nordeste.

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Nas viagens por esse mundão de Deus a gente se depara com tanta riqueza, mas tanta, que aqui e a acolá a gente nem sabe o que é mais bonito, o que é mais rico.

Na  mais recente viagem, passando pelo Pontal de Coruripe, em Alagoas, distante uns 90km de Maceió, entrei na Associação  das Artesãs do Pontal de Coruripe. Uma tarde assim bucólica, dia de semana, e lá estavam as artesãs em conversa como boas comadres, na porta da associação, a realizar as tramas das coisas lindas que elas produzem da palha do Ouricuri.

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As artesãs do Pontal de Coruripe reproduzem manualmente o conhecimento, recebido de seus antepassados, do artesanato da palha da palmeira do Ouricuri, uma espécie de palmeira (Syagrus coronata), facilmente encontrada na região. Por meio da organização coletiva elas buscam inovar nos materiais realizando a  mescla da palha com outros materiais e também introduzindo cores em alguns detalhes dos produtos.

A Associação das Artesãs do Pontal, uma paradisíaca praia que ostenta sua beleza como cartão-postal do Litoral Sul alagoano, explora a biodiversidade local, ou seja, as artesãs associadas se apoiam, para a realização do processo de desenvolvimento sustentável propriamente dito, no que o ecossistema local tem para oferecer. A palha que, através de exploração depredatória, sem responsabilidade ambiental, poderia ser extinta, nas mãos das artesãs de Coruripe é trabalhada com consciência. Elas sabem que para continuar a manufatura do seu artesanato há que se preservar a espécie. O que elas realizam, de fato, é a própria preservação do meio ambiente, a reciclagem da fonte de matéria-prima para assim, garantir o pão de cada dia de seus familiares.

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A praia é lindíssima e o artesanato, nem se fala! Vale a pena um passeio por lá, com direito a um lindo pôr do sol na Associação das Artesãs. Além disso, você acaba levando algo produzido por elas, ajudando a comunidade e adquirindo um artesanato impar em beleza.

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Cores de amores

A linda coleção “Grades do Recife” é o resultado do trabalho de formação de Jovens Artesãos, projeto do Museu do Homem do Nordeste/Fundação Joaquim Nabuco-Recife

Belas, coloridas e originais, as peças são inspiradas nos arabescos e linhas sinuosas das janelas, portas e sacadas do Recife. Essas fontes foram o ponto de partida para a criação de uma bela coleção de vasos, fruteiras e luminárias, feitas com tramas de linhas e cordas de polipropileno.

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O trabalho contou com a consultoria e a intervenção do designer mato-grossense, Sérgio J. Matos, que instigou os alunos a observarem seu universo. A partir do registro em fotografia dos gradis das suas moradas, os alunos foram criando os detalhes para o desenvolvimento dos produtos. O objetivo do projeto foi capacitar profissionalmente estudantes de escolas públicas na produção artesanal. Lindo trabalho com os pequenos artesãos e, principalmente, o seu resultado. Os produtos estão a venda na loja do Museu.

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“EU NÃO EVOLUO, VIAJO”

Vou pegar esse título emprestado porque cai muito bem com o que pretendo escrever. Este título é de uma retrospectiva do pintor José Escada (Lisboa, 1934-1980) que se encontra agora na Fundação Calouste Gulbenkian, mas será sobre a Fundação que irei falar e não da arte de Escada.

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Jardins da Calouste Gulbenkian

O “evoluir” eu considero como um crescimento do ser. Evoluímos de várias maneiras, e, na maioria das vezes, o verbo vem com a conotação de uma situação para melhor, um ‘up grade’ na vida, principalmente a espiritual.

No caso do título, bastante sugestivo, demostra que a viajem é a grande r-evolução. Viajar, seja para onde for, é um deslocamento de um lugar para outro, uma mudança de paisagem, e, as paisagens, por mais inóspitas que sejam, já diferem do lugar de partida, mostram outros mundos. Sempre é um aprendizado. Amo viajar e quando o faço, procuro sorver o que posso do lugar.

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Jardins da Calouste

Ainda em Lisboa fui conhecer outras paisagens, no caso, a Fundação Calouste Gulbenkian. Não entrei logo no edifício, preferi antes circular por seus imensos jardins, sentir a natureza em todo seu esplendor, encher o pulmão daquele verde.

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Jardins da Calouste

O jardim é belo e aberto ao público. Mil recantos intimistas no meio da vegetação, com bancos, quedas d’água, esplanadas. Caminhos lindos cobertos de vegetação frondosa onde transeuntes passeiam, correm, alguns lancham, outros namoram.

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Entre suas construções há também o grande anfiteatro ao ar livre, onde shows e espetáculos acontecem.

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Anfiteatro

Depois de conhecer bem o seu entorno, fui visitar o museu com sua coleção, tanto a parte contemporânea, quanto a mais antiga.

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Coleção do Museu

Em fevereiro de 1953, Calouste Gulbenkian escreveu que considerava as obras de arte como “filhas”, que estava no tempo de pensar no futuro delas. Queria um lugar para abriga-las. Ele falava que a coleção representava uns sessenta anos da vida dele e que ela era sua alma e seu coração.

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Coleção do Museu

Da arte Oriental à Ocidental, a apresentação das peças com belos displays e uma ótima iluminação nos faz sentir como se estivéssemos adentrando em um santuário. Estão lá presentes os relevos da Mesopotâmia, tapetes Persas, vasos Chineses e lacas Japonesas. Um silêncio e uma reverência a tanto peso de séculos contidos ali. O que mais me encantou, para além de todo o acervo do museu, foi a sala dedica a René Lalique. Suas peças são maravilhosas! Obras de arte pura, perfeitas!

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Gargantilha Gatos, cristal de rocha, ouro e diamantes

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Peitoral Serpentes, ouro e esmalte

 

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Pendente Rosto feminino, vidro, prata, esmalte, ouro e pérola barroca.

Na ala contemporânea, além de um acervo muito rico, há também exposições temporárias. As curadoras Penelope Curtis e Leonor Nazaré selecionaram os artistas da exposição “Convidados de Verão “por terem suas obras numa proximidade formal ou conceitual com o acervo existente. As obras são colocadas pontualmente no meio do acervo, aqui e ali, realizando assim uma transversalidade da arte em épocas distintas.

 

Fernanda-Fragateiro

Fernanda Fragateiro Paisagem Não-Paisagem, aço inox polido

Ponto para a artista Fernanda Fragateiro, uma das convidadas, que propôs um conjunto de intervenções escultóricas, criando uma ponte entre o Museu, os  bancos da Fundação, desenhados por Ribeiro Telles, e os eventos do Jardim de Verão. Alguns bancos foram recobertos de aço polido e fazem a mimese da paisagem, ou, em outras palavras, se integram de tal forma ao jardim ao refletirem o seu entorno.

 

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Fernanda Fragateiro-Paisagem Não-paisagem, aço inox polido

Uma lufada de ar com pitadas de belo!

 

 

 

 

Magia e segredo, Quinta da Regaleira- Sintra

Não conhecia Sintra e fiquei surpresa com a beleza e magia da pequena cidade.

Relativamente perto de Lisboa, de Comboio (trem) são apenas uns 55min para chegar lá. Este tempo seria igual ao que se perde ao pegar um engarrafamento pequeno nas grandes cidades brasileiras, de um bairro a outro. Poderíamos comparar que Sintra está para Lisboa, assim como Petrópolis está para o Rio de Janeiro.

 

Sintra também é chamada de Monte da Lua. Patrimônio Mundial da Unesco, a vila fica na encosta da serra que leva seu nome e termina no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental do continente europeu.

O Comboio parte da estação do Rossio, que é linda linda. O prédio da estação foi construído em 1886. O ticket para o comboio custa a bagatela de 2,15 euros!

Tive apenas um dia em Sintra, morrendo de pena, pois cheguei à conclusão que terei que voltar um dia, porque Sintra não se conhece apenas em um dia!

Me detive em andar pela cidade e ir diretamente para a Quinta da Regaleira, pois já tinha ouvido falar dos seus túneis e caminhos secretos e, como se trata de uma propriedade enorme, quase todo tempo foi gasto por lá.

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Quinta da Regaleira

A Quinta é uma curiosa construção que passou por diversos proprietários desde 1697. Em 1840 foi adquirida pela Baronesa da Regaleira e passou a ser conhecida por Quinta da Torre da Regaleira, com seu palacete, capela e jardim.

Em 1893, foi arrematada por António Augusto de Carvalho Monteiro, que adquiriu também outros terrenos no entorno da Quinta para ampliar o seu enorme jardim. A casa servia para o veraneio da família Monteiro. Nos dias atuais a Quinta pertence a Câmara Municipal de Sintra.

Enquanto pertencia a António Augusto de Carvalho Monteiro foram realizadas as modificações que são vistas até hoje. Ele contratou o arquiteto Henri Lusseau, que começou a pensar o Palácio em estilo neogótico francês e o parque. Mas a construção só se deu com arquiteto-cenógrafo Luigi Manini, que construiu o parque com o edifício das Cocheiras e também reformou a Capela e o Palácio. As obras absorveram-no durante 14 anos.

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Lagos da Quinta

Podemos dizer que todos os detalhes da construção da propriedade, principalmente dos espaços subterrâneos, os túneis, poços e lagos, constituem o tema central da Regaleira. Fala-se que tais espaços associam-se a uma passagem sensível pelos elementos e à transposição das trevas para resgatar a luz das origens, qual morte simbólica a que sucede um novo nascimento.

O percurso pelos túneis, na maioria, é todo no escuro. Entrado neles, parece que estamos em um filme de Indiana Jones à caça do tesouro perdido, que, no caso, seria a busca da luz. Poderíamos também pensar no mito da caverna de Platão.

Tantos são os caminhos e labirintos com água minando das paredes e poças pelo chão que há uma verdadeira estranheza ao percorre-los. Não há guia, a não ser um mapa de toda Quinta entregue na hora que se compra o ticket da entrada, mas, de nada adianta quando adentramos o escuro dos túneis!

O mais extraordinário de tudo são os poços. O primeiro deles é o Imperfeito, ele, comparativamente ao outro existente é completamente rústico. Você desce ou sobe em rampas, com paredes feitas em buracos nas pedras cheias de limo.

Descendo por ele chega-se ao chão em outro nível do jardim e anda-se por mais túneis até chegar ao Poço Iniciático, uma enorme torre invertida, que se afunda 27 metros abaixo da terra, com acesso através de uma monumental escadaria em espiral. Como há lagos e cachoeiras por todo o jardim, este poço tem suas escadarias molhadas pela água que mina por toda sua parede.

Enquanto representação do cosmos, o jardim desvenda lugares imbuídos de magia e mistério. Símbolos esculpidos presentes em vários lugares do palácio, capela, jardins e fontes, revelam referencias à Mitologia, ao Olimpo, aos Poetas e aos Alquimistas. Juntos fazem um conjunto misterioso que demonstra que a capacidade humana de criar é imbatível. É surpreendente! E só ao vivo e a cores pode se conhecer…as palavras não dão conta.

 

LxFactory-Lisboa, Bhering-Rio

Fui apresentada pelos queridos amigos que aqui se encontram a esse complexo que se chama LxFactory, na zona de Alcântara, em Lisboa. Lembrei-me imediatamente de dois lugares que têm o mesmo espírito em cidades distintas no Brasil: Rio de Janeiro, com sua Fábrica Bhering e o Recife com a Fábrica Tacaruna. A Bhering, exitosa no tocante à ocupação e ampliação de seus espaços; A Tacaruna, um projeto que resultou num grande fiasco e nunca saiu do papel.

O prédio da Fábrica Bhering é de 1930. Foi uma fábrica renomada de chocolate  de mesmo nome e ainda hoje preserva o maquinário do seu primeiro uso.

Em 2005, inspirado em ocupações de fábricas de Berlim, Londres e Paris, o dono da fábrica resolveu dar um novo uso ao espaço, que estava desativado desde a década de 1990. Aos poucos os alugueis, que eram bem convidativos, começaram a subir por conta do boom imobiliário de 2010 e o local começou a ficar disputado e badalado

Talvez por ser um espaço pensado de maneira despretensiosa e sem qualquer intuito em comum entre os ocupantes, fez com que a pluralidade de linguagens e propostas desenvolvidas independentemente, pudessem dar início à transformação daquele ambiente em um lugar de produção e possíveis trocas. Encontramos ateliês, escritórios de design e arquitetura, estúdios, brechós.

Há três anos, a ocupação artística foi ameaçada de despejo depois de um leilão, mas a Prefeitura do Rio decretou o tombamento e a desapropriação do imóvel, garantindo a permanência do espaço como é hoje.

O segundo espaço, a Fábrica de Tacaruna no Recife, ensaiou algo parecido, mas nunca foi viabilizado, porque o governo do estado de Pernambuco não teve interesse na sua continuidade. Atualmente corre ao largo a intenção de ser um espaço artístico, que abrigaria inclusive a riquíssima coleção de arte de Marcantonio Vilaça. Uma pena, porque como espaço simbólico e físico daria um lindo complexo!

Voltemos a LxFactory, interesse dessa minha postagem. A iniciativa se deu por uma empresa, MainSide, criada para o desenvolvimento de projetos de investimento imobiliário em reabilitação e revitalização nos centros urbanos.

Foi um ‘casamento’ interessante entre um grupo que tinha interesse nessa reabilitação e pessoas que procuravam espaços para desenvolver suas áreas específicas.

A  LxFactory é uma fábrica de experiências onde é possível intervir, pensar, produzir, apresentar ideias e produtos num único lugar. É uma ilha criativa ocupada por empresas e profissionais da indústria. Também tem sido cenário de um diverso leque de acontecimentos nas áreas da moda, publicidade, comunicação, multimídia, arte, arquitetura, música, etc. gerando uma dinâmica que tem atraído inúmeros visitantes a redescobrir esta zona da cidade. 

A LxFactory é um projeto inovador e criativo, que nasceu no auge da crise em Portugal e foi desenvolvido como uma resposta ao momento que o país vivia e ainda vive, assim como boa parte da Europa. É nas crises que surgem as melhores oportunidades!

O espaço total tem cerca de 23.000m2, e ainda existe alguma disponibilidade residual de rotação, com valores que variam entre 8€/m2 e 12€/m2 dependendo da localização dentro do complexo, da área, do espaço.

Funcionam mais de 200 empresas, o que dá um movimento aproximado de 2200 pessoas por dia. Existem escritórios de restauração, design, moda, publicidade, arquitetura, fotografia, assim como cabeleireiro, escolas de arte, entre muitas outras atividades, como exposições, instalações, concertos e festas. Bares, restaurante e cafés charmosos.

O objetivo da LxFactory é continuar a crescer qualitativamente, sendo um espaço pioneiro de experiências, com a mesma flexibilidade que teve desde o início da sua própria criação.

 

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