Uma eternidade de mar que nos une- Brasil e Portugal

Brasil, quantas semelhanças com Portugal, quantas identidades adquiridas ao longo de 500 anos desde o seu descobrimento. Nunca se desejou tanto desbravar o “desbravador” como agora. E é esse o momento, talvez, de exaltar o que temos em comum, herdado nesse continuo fluxo de travessia do oceano que nos une.

Depois de viver em Portugal, viajar pelo país e pesquisar algumas hábitos e tradições portuguesas, percebi que muitas das nossas riquezas foram levadas do Brasil pelos portugueses, mas também ao sermos colonizados herdamos inúmeras outras.

Sem entrar no mérito político da questão desse fluxo entre colonizado e colonizador o que importa aqui é ressaltar os pontos convergentes entre os dois países desde a nossa descoberta.

Ouvi inúmeros portugueses falarem muito da nossa cultura. Eles são apaixonados por ela, conhecem a fundo nossa música, nossa literatura e um pouco do “jeitinho” brasileiro, que de alguma forma também foi captado através do vício de assistirem as novelas brasileiras passadas por lá.

Sinto que nós brasileiros precisamos também de um conhecimento maior da cultura portuguesa e quando me refiro a isso é por lembrar que aprendemos o básico na escola sobre a nossa colonização, mas apenas conhecemos o país mais a fundo lendo sobre ele, ou vivenciando o dia a dia. E não é dessa forma que se conhece novos territórios? A jornalista portuguesa, Alexandra Lucas Coelho, fala no seu livro Vai Brasil, de um Brasil multifacetado, com características interessantes, que grande parte dos brasileiros não as conhecem. Ela viveu um bom tempo por aqui. O olhar do estrangeiro parece ser mais aguçado ao desbravar novos territórios.

Quando falo em um conhecimento maior é para ressaltar o que temos em comum. É entender aos poucos como foram fincadas algumas raízes e como existimos a partir da chegada das caravelas que singraram esse imenso oceano.

Portugal foi estabelecido em 1141 como primeira Nação europeia enquanto Estado independente. Seu território continental é de 92.080 km² e possui parte do continente voltado para o mar. O Brasil foi descoberto pelos portugueses em 1500 e tem uma extensão continental de 8.515.767 km², com enorme trecho voltado também para o seu litoral. Há um mesmo oceano  que nos une e que nos separa, mas não só!

A calçada portuguesa é uma das primeiras e mais fortes marcas trazidas para cá, tornou-se uma das identidades que nos une. Há uma história, que não sabemos se é lenda ou realidade, que descreve que os navios para obterem e realizar uma boa travessia com um bom calado vinham cheios de pedras de basalto e de calcário branco e negro, as pedras portuguesas. O retorno era com o nosso ouro e as nossas madeiras. As pedras portuguesas chegaram dessa forma e dá o “tom” português a inúmeras cidades brasileiras como Rio de Janeiro, Manaus, Recife, entre outras. Por ocasião da primavera, a cidade de Lisboa tem uma das mais belas paisagens, os nossos jacarandás floridos com as suas flores roxas. As ruas ficam lindas!

E o Fado? Como não perceber a semelhança na sonoridade com o Lundu Marajoara, música dançada, que por sua vez tem origem com danças angolanas trazidas ao Brasil, como Kaduke de Mbaka, e que também foram levadas a Portugal. E a comida? Temos inúmeras semelhanças, mas nunca faremos os doces como eles fazem!

Av. Dom Carlos I

Acredito que seja necessário bem mais estudos aprofundando a real dimensão dessas influências e origens em ambas as culturas, na culinária, na música, na arte e no artesanato. Detenho-me aqui a falar um pouco das artes e ofícios tradicionais ou, para ser mais precisa, do que vi de artesanato em ambos os países.

Em viagem a Estremoz, Portugal, vi uma exposição de presépios de várias regiões e qual minha enorme surpresa, parecia que eu estava vendo as peças de cerâmicas do Alto do Moura em Caruaru-Pernambuco. Algumas parecidas com as cerâmicas do Vale do Jequitinhonha.

Em outra viagem a Braga e Guimarães, percebi nos bordados feitos por lá inúmeras semelhanças com os bordados encontrados em Passira – Pernambuco e também em alguns bordados mais específicos encontrados na região do Mato Grosso.

O bordado de Filé de Felgueiras encontra sua versão tropical em Alagoas onde abundam cores tropicais e fazem o diferencial de seu irmão português.

Os bordados dos tapetes de Arraiolo, Alentejanos, são encontrados em Minas e em Pernambuco.

As cerâmicas utilitárias que encontramos de Norte ao Sul de Portugal, especificamente em algumas regiões do Alentejo como em São Pedro do Corval, assemelham-se a algumas que encontramos também em Caruaru-Pernambuco e no Espírito Santo.

E como não falar da produção têxtil sem citar as da Região Central, Alentejo e do Minho em Portugal com semelhanças na produção em seus teares das do nosso sertão do Nordeste e de Minas Gerais? Isto para citar apenas algumas tradições artesanais no meio de tantas outras.

São tantas riquezas ora em versão semelhante ora re-interpretadas a partir da miscigenação dos povos e seus costumes, que é difícil alcançar o amplo leque e talvez seja difícil sintetizar em apenas um texto.

O tempo nos deixa de certa forma familiarizados com os objetos encontrados no nosso cotidiano. São tantos materiais e técnicas dos saberes artesanais na nossa imensa cultura que nem sequer pensamos em pesquisar-lhes a fundo quais são as suas origens. Mas quando nos deparamos com esses artefatos com um olhar mais atento, ficamos surpresos e com uma sensação de familiaridade, e não podemos deixar de pensar nesse fluxo.

O fato é que desde que as caravelas atravessaram o Oceano Atlântico e aportaram em solo brasileiro os portugueses entraram em contato com os nossos índios e constaram que eles possuíam hábitos completamente distintos dos da “civilização”. Seus costumes e rituais foram relatados via cartas por Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal.

Uma dessas cartas descrevia como os índios moravam e como dormiam em redes que eles próprios confeccionavam. Na realidade a rede se chamava Ini, mas Pero Vaz nunca perguntou aos próprios índios o seu nome real, batizou-a de rede pela semelhança que havia com as redes de pescar.

A rede foi objeto de estudo de Luís Câmara Cascudo, historiador, antropólogo e folclorista brasileiro, que escreveu o livro Redes de Dormir Uma Pesquisa Etnográfica. Na descrição sobre os hábitos indígenas Pero Vaz fala que os índios dormiam em redes suspensas por dois cabos nas extremidades e que eram feitas com cordas de dois a quatro centímetros de larguras. Já as redes de tecido mais compacto foram feitas posteriormente pelas mulheres portuguesas no Brasil, a partir da introdução dos teares no país. Começaram então as versões mais enfeitadas e com as varandas em franjas.

Curioso ver que apesar das redes confeccionadas pelos portugueses no Brasil terem sido “enfeitadas” e aperfeiçoadas tornando-as mais macias e confortáveis, os portugueses em Portugal não têm o hábito de tê-las em suas casas como os brasileiros. Pouquíssimos lugares usam redes e, quando a vemos, sempre tem o “dedo” de um brasileiro.

E a língua? Somos na América do Sul o único país que tem a língua portuguesa. Ela atravessou o oceano no embalo das ondas desse imenso mar, misturou-se e transformou-se. Temos a mesma língua, mas não a mesma linguagem. Mas é lindo poder perceber que em plena Europa entendemos tudo com uma nova sonoridade. E quando estamos em Portugal nos pegamos, sem querer, a imitar o português na sua fala: “o que estás a fazer?” ao invés de dizer “o que estás fazendo?”. “Não percebo”, ao invés de dizer “não entendo“. “E beijinhos grandes” ao invés de simplesmente beijos, para citar apenas algumas expressões e formas verbais.

E por fim a palavra saudade, que ambos os países usam e que não tem tradução em nenhuma outra língua. Sabe-se da saudade, sente-se a saudade, mas não se traduz essa simples palavra sem utilizar duas ou três a mais para explica-la, e a saudade acaba virando uma outra coisa. Mas nós apenas sintetizamos o que sentimos nesta única palavra a qual foi traduzida brilhantemente nessa fala de Carlos Coelho, português, que exalta Portugal como ninguém e escreveu o livro Portugal Genial.

“Mas não estamos perante um problema técnico de tradução, estamos sim perante a capacidade única de um povo, com alma e um sentir sem igual, que só uma palavra intraduzível poderia expressar.”

Faço minha as palavras dele.

 

 

 

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