O Olhar para a Vista Alegre

Como começar a falar de um país tão rico em tantas coisas, principalmente na sua produção fabril, sendo uma estrangeira?

Acredito que a primeira coisa para se conhecer um lugar é ver, a segunda observar e a terceira, olhar. Estas categorias para mim diferem umas das outras pelo simples fato de que o ver é passar o olho rapidamente; observar, já conota uma certa pausa; e o olhar, este é mais atento, silencioso e demorado. O olhar para as coisas é tão importante que usamos as expressões “olhar apaixonado” , “olhar inebriado”, “olhar como um lince”.

Silenciosamente olhar é o que faz aos poucos você começar a entender esse Outro/Lugar, (com tudo o que pode haver implícito nesse conceito do Outro). Esse lugar estranho a nós estrangeiros, que temos uma outra cultura, mesmo sendo países irmãos.

Portugal, esse país que nos encanta e que não sabemos definir logo a princípio exatamente o porquê. Para mim, me faz pensar que a paixão é pelo “conjunto da obra” e, principalmente, porque Portugal é um país que vai se desvelando aos poucos, em camadas, e a cada revelação, uma surpresa e novo encantamento.

Isto me veio a cabeça desde que comecei a pesquisar e ver como as lojas e estabelecimentos onde encontramos majoritariamente os produtos feitos em Portugal há o orgulho dos portugueses em intitularem “genuinamente português”, se não pela matéria prima, é pelo design e/ou concepção do produto. Essa é uma das máximas do orgulho deles, as lojas com História. Desde os gagets das lojinhas de produtos artesanais para turistas – onde encontramos todo o tipo de coisas em cortiça e objetos que levam a padronagem dos azulejos portugueses – até produtos de design que são vendidos nas Concept Stores. Você entra na loja e está lá explicitamente o Made in Portugal, quando não, está implícito em algum detalhe ou no discurso de quem atende na loja. Um dos exemplos que me vem à cabeça é a concepção e produtos da loja a Vida Portuguesa, onde encontramos artigos genuínos e produtos de criação portuguesa, que estavam extintos e voltaram ao mercado graças à loja.

Então pensei em começar a falar de uma tradição cara aos portugueses que é a sua porcelana e cerâmica. E como poder falar delas sem apresentar a primeira fábrica de produção nesse quesito, mundialmente conhecida, que é a Vista Alegre?

thumb_IMG_9519_1024

Caminho para Vista Alegre

Untitled-1

Fábrica da Vista Alegre

Aspeto geral da fachada de entrada principal da fábrica da Vista Alegre na atualidade

Antiga Fábrica da Vista Alegre e hoje Museu

Pois bem, em passeio pela linda cidade de Aveiro descobri que em Ílhavo, cidade contígua e sub-região de Aveiro, é onde se localiza a fábrica da Vista Alegre.

Fui à visita aberta a conhecer apenas a parte do glamour, já que é uma produção sofisticada, desejo de consumo de várias pessoas e feita para mercados sofisticados. Qual minha surpresa em ver o complexo da fábrica e saber melhor a sua história.

A Fábrica fica localizada na Quinta da Ermida, na vila de Ílhavo. Quando cheguei lá senti que o tempo havia parado, há silêncio e beleza em todo o espaço. A Vista Alegre é hoje um conjunto arquitetônico de inigualável interesse, repositório de memórias sociais e artísticas fundamentais para a construção de uma identidade nacional. Todo conservado, com casinhas que são a moradia dos operários que obtiveram título vitalício, consoante o seu agregado familiar e necessidades. Há uma linda praça, onde podemos ver a Ermida de Nossa Senhora da Penha de França, datada de 1693, um teatro, o outlet, o museu que foi a antiga fábrica, a loja, um espaço dedicado a Bordallo Pinheiro, o café e um hotel cinco estrelas com vista ao vale do Rio Boco de tirar o fôlego!

Aspeto as instalações da fábrica da Vista Alegre vista da ria foto Céu Vieira

Vista da Vista Alegre pelo Rio Boco (Foto de Céu Vieira)

Fachada do teatro da Vista Alegre na atualidade arq. CMA

Teatro

A história da Vista Alegre começa no princípio do Século XIX em Portugal. Nesse tempo não havia nenhuma fábrica que fabricasse porcelana, sendo esta importada da China. É nessa época que José Ferreira Pinto Basto (1774-1839), figura de destaque na sociedade portuguesa do século XIX, proprietário agrícola e comerciante audaz, decidiu criar uma fábrica de porcelanas, vidro e processos químicos. Em 1816 adquiriu a Quinta, perto da vila de Ílhavo, à beira do rio Boco, região rica em matérias primas como, barro, areias brancas e finas, seixos cristalizados, elementos fundamentais para o fabrico de vidros e porcelanas. No ano de 1824, José Ferreira Pinto Basto apresentou uma petição ao rei D. João VI para;

“erigir para estabelecimento de todos os seus filhos, com igual interesse, uma grande fábrica de louça, porcelana, vidraria e processos chimicos na sua Quinta chamada Vista-Alegre da Ermida”. ( História com História, 2015).

thumb_IMG_9557_1024

Entrada do Museu

Concessão feita, foi fundada em 1824 a Quinta da Vista Alegre, no início da primeira Revolução Industrial, sendo a primeira fábrica de porcelana de Portugal. Cinco anos depois de fundada a fábrica recebeu o título de Real Fábrica, em reconhecimento ao seu sucesso industrial e a sua arte. Aos poucos a fabricação da porcelana foi sendo sofisticada graças a visita do filho de José Ferreira, Augusto Ferreira de Pinto Basto (1807-1902), à fábrica de Sèvres- França, trazendo o conhecimento da produção de lá. Descobriu-se então que ao norte de Ílhavo havia jazidas de caulino, imprescindíveis para a composição da pasta para a porcelana mais refinada.

thumb_IMG_9566_1024

Busto de Pinto Basto com foto dos operários da Vista Alegre

A Vista Alegre produz peças em porcelana quer para setores mais populares, quer para outros mais requintados, desde serviços de mesa, chá, café, os famosos paliteiros, vasos, conjuntos de toalete até às peças decorativas mais diversas. No seu início as peças eram mais grosseiras e a decoração delas era em torno dos florais. Aos poucos foi sofisticando a matéria prima, seu design e arranjos, acompanhando também os movimentos artístico da época. A contribuição de artistas estrangeiros, tais como foi o caso de Victor Rousseau, foi importante, sobretudo para a criação de uma escola de pintura, ainda hoje famosa em Ílhavo.

Pela sua fama e qualidade, a porcelana da Vista Alegre passa a fazer parte do quotidiano das classes burguesas mais abastadas em Portugal, sendo aconselhada nas publicações de usos e bons costumes do século XIX, aparecendo igualmente citada em alguns romances de autores portugueses da época, a exemplo desta passagem do romance de 1878, “O Primo Bazilio”, de Eça de Queiroz;

“Prosperava com efeito! Não punha na cama senão lençóis de linho. […] Tinha cortinas de cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a cómoda dois vasos da Vista Alegre dourados!”.  ( História com História, 2105).

A fábrica passou por momentos difíceis durante a I Grande Guerra Mundial, mas já na década de 1920 é promovida a transformação da empresa numa sociedade de cotas, passando a designar-se Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre, Lda.

No período de 1922 a 1947, registrou-se uma enorme renovação artística da Vista Alegre, destacando-se a colaboração de artistas de renome nacional e estrangeiros tais como Roque Gameiro, Leitão de Barros, Raul Lino, Piló, Delfim Maia, João Cazaux , entre outros. O artista João Cazaux assume nesta época a função de professor e a direção da escola artística da Vista Alegre.

thumb_IMG_9628_1024

Nomes de alguns colaboradores no decorrer dos anos

Na Vista Alegre há também uma seção só de peças exclusivas e uma reserva técnica com inúmeras peças raras. Foi instaurada essa tradição da produção de peças únicas, como o serviço produzido para Sua Majestade Isabel II, rainha de Inglaterra, quando da sua primeira visita a Portugal. Há exemplos de baixelas para serviços de governo de alguns países assim como de famílias abastadas que punham seu brasão e escolhiam toda a sua padronagem. Também havia confecção de materiais para instalações elétricas e laboratórios. A procura se dava principalmente pela imagem de marca, a qualidade do produto, e por último o seu design/decoração.

thumb_IMG_9607_1024

Reserva técnica

É impressionante observar ao visitar o museu e entender a evolução da fábrica, concomitantemente com a da sua logo, e em paralelo à concepção das peças, porque elas vão seguindo estilos que perpassam toda a história da arte. Estilo Barroco, Modernista, Art Nouveau, Art Deco, fazem parte do design tanto da estampa, quanto do próprio desenho do produto.

No decorrer da visita ao museu vamos também conhecendo a história dos seus funcionários que é mostrada em fotos e vídeo. Assim percebemos que as sucessivas gestões tinham a preocupação de agregar os seus funcionários realizando uma integração do labor com a vida social, utilizando de todos os recursos possíveis para agregar as famílias. Da criação da escola e creche, ao teatro, à instalação desportiva. A relação afetiva com a Vista Alegre, iniciada desde criança por via familiar ao longo de gerações, permitiu criar uma cultura própria através de tradições e eventos, sociais, culturais religiosos e desportivos. Foi também através dos bisnetos do fundador da Vista Alegre, que se introduziu em Portugal a prática dos desportos, em especial o futebol, trazida por estes da Inglaterra em finais do século XIX.

thumb_IMG_9591_1024

Foto de crianças indo para creche

thumb_IMG_9592_1024

Louça das crianças com monograma da creche

Untitled-12

Album com foto de crianças fazendo ginástica

No ano de 1983 foi criado o Gabinete de Orientação Artística (GOA), dois anos depois, o Centro de Arte e Desenvolvimento da Empresa (CADE), com a finalidade de fomentar a criatividade e contribuir para a formação nas áreas de desenho, pintura e escultura.

Em 1985, devido ao grande interesse suscitado pelas peças da Vista Alegre, e à procura constante de inúmeros clientes, a empresa resolveu organizar um clube de colecionadores, limitando-o rigorosamente a 2500 sócios. Estes recebem, anualmente, uma peça concebida especial e exclusivamente para eles.

Este slideshow necessita de JavaScript.

A Vista Alegre já esteve em exposições no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e no Pallazo Reale em Milão, exposições estas que contribuíram decisivamente para a divulgação e internacionalização da marca.

Na visita também podemos conhecer uma pequena amostra do trabalho manual, uma sala asséptica e silenciosa onde as pinturas são feitas manualmente. Embora nos dias atuais majoritariamente suas estampas sejam feitas num processo industrial, todas as peças que contem bicos e alças e também algumas decorativas são trabalhadas manualmente.

Podemos encontrar na Vista Alegre peças criadas por designers, arquitetos e artistas como, David Raffoul e Nicolas Moussallem, Joana Vasconcelos, Christian Lacroix e Oscar de la Renta,Jeanine Hetrau, entre outros. É maravilhoso o jogo de chá criado pelo arquiteto Álvaro Siza, que teve as peças em tiragem limitada. A Vista Alegre, mais recentemente, no ano de 2015 e 2016, ganhou prêmios internacionais como Red Dot Design Award, Wallpaper Design Award e o German Design Award, que lançaram a porcelana da Vista Alegre com design de artistas consagrados para uma projeção de dimensão global.

thumb_IMG_9611_1024

Louças que ganharam Prêmios

thumb_IMG_9624_1024

Jogo de chá de Álvaro Siza, edição limitada

Em 2001 já com a fusão com o grupo Atantlis, volta à produção de vidro e cristais, que no passado, em 1880, havia cessado. É formado então o maior grupo nacional de utensílios de mesa e sexto maior do mundo nesse setor: o Grupo Vista Alegre Atlantis, que atua em diversas áreas, com onze unidades indústrias e uma produção de mais de 10 milhões de peças por ano.

A parceria entre a Vista Alegre Atlantis e a IKEA em 2013, levou à implementação de uma unidade fabril em Aveiro que fornece a cadeia sueca de artigos para o lar.

Devido à sua alta qualidade, as peças da Vista Alegre encontram-se presentes quer em coleções de famosos, quer de monarcas e governantes de praticamente todo o mundo, como a Casa Branca nos EUA, a Presidência da República portuguesa, no Palácio de Buckingham, entre outros. A Vista Alegre para além de ser líder de mercado em Portugal e possuir uma das melhores e mais bem equipadas fábricas de porcelana de todo o mundo, marcou positivamente todos os que nela trabalharam e continuam a trabalhar, tentando proporcionar-lhes as melhores condições para se sentirem motivados. Por toda história e evolução da Vista Alegre, seus trabalhadores foram sucedidos de geração em geração e sentem orgulho de terem contribuído para o sucesso alcançado pela empresa, embora, mediante seu crescimento e reconhecimento mundial, a fábrica não possa manter as características familiares e de envolvimento da cultura local de outrora. A Vista Alegre mantém-se atenta para conservar  o seu perfil de empresa organizada de modo familiar e profundamente enraizada na cultura e tradições populares da região de Aveiro, mas, ao mesmo tempo, responde às exigências da economia mundial dos tempos atuais.

Visitar essa complexo é voltar no tempo. É ver, observar e olhar com olhos apaixonados, que ainda é possível preservar a história e ao mesmo tempo estar com o pé na atualidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s