Fuxico Estrela

Hoje vou falar de um trabalho lindo, pouco conhecido, que é chamado de Fuxico Estrela, Hexágono ou Fofoca. Esse lindo trabalho é conhecido por todos esses nomes e como a sua construção tem um pouco de tudo isto do qual é batizado, fica difícil saber qual é o nome correto.

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Fuxico Estrela

Estava eu nas minhas andanças olhando artesanato com minha amiga querida e também apreciadora de coisas lindas, Cristiana Tejo, no Centro de Artesanato de Pernambuco, no Recife, quando me deparei com dois desses trabalhos no meio das pilhas de colchas de crochê,  de linhas e patchwork. Fiquei com um e Cristiana com o outro. Tal era nosso encantamento que uma recepcionista se aproximou e falou que se tratava do artesanato chamado de “Fofoca”. Eu já conhecia o Fuxico, quem não o conhece?

Diz a lenda que o Fuxico surgiu há anos trazidos pelos escravos. Quando eles se juntavam para costurar, usavam as sobras dos tecidos dos seus senhorios e aproveitavam para fazer fuxico dos mesmos. Fuxico pelo dicionário quer dizer: futrica, intriga, mexerico.  E também: cerzidura ou remendo malfeito.

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Fuxico

Os produtos em questão eram caminhos de mesa com a elaboração de flores em hexágono, sem emendas. Pensei: meu Deus, essa peça tem a sofisticação de um origami, como se faz isso? Comprei e levei para casa para analisar melhor. Com enorme curiosidade desmanchei uma das florzinhas e vi que se tratava  de um hexágono com dobraduras, como eu já havia previsto. Tentei repetir em outro tecido amassando a peça, passando ferro e não consegui chegar a um resultado satisfatório. Pensei comigo, deve haver uma lógica para sua construção, por mais difícil que possa parecer a confecção, há uma lógica!

O legal nos produtos do Centro de Artesanato é que eles colocam em cada um deles uma etiqueta do artesão, de onde ele é e o seu telefone. Lá estava o nome de D. Maria José e, por sorte minha, ela morava em Olinda. Liguei para ela e elogiei o trabalho, falei que queria aprender como fazia aquela belezura e se ela poderia me ensinar. Ela me falou que participava de uma “cela” na Casa da Cultura do Recife, com um grupo de Terceira Idade.

A Casa da Cultura, para quem não conhece é um prédio lindo em estilo Neoclassico que foi a antiga Casa de Detenção do Recife. Inaugurada em 1855, foi o projeto mais inovador de prisão àquela época, não só pelo seu estilo arquitetônico, mas também pelo seu funcionamento. Havia uma preocupação com a inserção da instituição na vida social do bairro e até da cidade, inclusive conta-se que o melhor pão da região era aquele produzido pelas mãos dos detentos na panificadora do presídio. E os pentes de chifre e as coleções de jogo de botão fabricados ali tinham fama pela sua qualidade. Além disso, o primeiro estandarte do Vassourinhas foi bordado também dentro do presídio. Tudo isso sem falar que os detentos ainda formavam times de futebol e tinham uma biblioteca à sua disposição. Em 1973 a Casa de Detenção foi desativada e restaurada por Lina Bo Bardi e Jorge Martins Junior, sendo inaugurada em 1976 como Casa da Cultura de Pernambuco. Suas celas viraram lojinhas de artesanato e foi lá numa delas que eu encontrei D. Maria José com outras senhoras que realizam e comercializam seus respectivos artesanatos.

Fui recebida com muito carinho. Ela ficou emocionada pelos meus elogios. É interessante aqui apontar que figuras como D. Maria José, que possuem um talento enorme, não conseguem perceber o quão importante é aquilo que fazem. Talvez porque no geral as pessoas não dão muito valor ao artesanato; talvez por conta, no caso específico dela, que fez por muito tempo o seu artesanato escondido, pois o seu marido não a deixava trabalhar; ou talvez porque, apesar da sofisticação encontrada em alguns artesãos, a grande maioria ainda faz seus produtos para um publico específico, o popular, aos moldes do que é vendido em feirinhas de artesanato em todo o país. Carecem de uma percepção maior na harmonia das cores, dos pontos e nas misturas de materiais. Por exemplo, ela me mostrou o mesmo trabalho do hexágono com uma mistura de crochê, que não combinavam entre si, até brigavam. Mas não cabia a mim interferir, esse é o universo delas! E embora eu tenha tido uma enorme vontade de dar alguns “pitacos” sobre o que eu achava mais interessante para a confecção, tive de me conter, pois eu ali era uma convidada e curiosa do saber que elas detinham. Descobri que apesar de pensar diferente do seu universo, há público para o que elas fazem. Tanto que no tempo em que permaneci lá aprendendo o hexágono, os turistas interessados nos produtos delas chegavam aos montes.

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Feito por mim e ainda em construção

Enfim, como eu previa. Havia uma lógica para a construção daquela singela de florzinha e eu aprendi!!!  Ela falou que o nome “Fofoca” é dado a um outro ponto parecido com o “Colméia” ou “Casa de Abelha”. A generosidade de D. Maria José foi tamanha que acabei comprando o que podia dela, pois queria de alguma forma retribuir tamanha gentileza. Quando perguntei se ela aceitava encomenda, ela me respondeu: “minha filha, meus dedos já estão duros e doem muito. Eu te ensinei para você mesma fazer, porque fica difícil para mim pegar muitas coisas hoje em dia para fazer”. Então eu pensei, que pena! D. Maria José, com todo seu talento, começou a produção com a limitação de esconder do marido. Agora que ela já não escondia mais e que conseguiu sair de casa e participar de um grupo vendendo o seu trabalho, tem outra limitação muito pior que a primeira, a da dificuldade física. Mundo injusto esse nosso! Nunca vou me esquecer da sua generosidade e gentileza. O mundo precisa de mais pessoas assim!

 

 

 

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