Nhô Caboclo, exuberância de gestos e palavras

Manoel Fontoura é um genuíno artista!

Mais conhecido como Nhô Caboclo, era uma figura excêntrica, alegre, contador de histórias e se descrevia assim:

(…) Eu me chamo assim, não sei como vim antes. Só sei que me chamo assim-de um lado o bruxão. Nasci na aldeia de Águas Belas, na serra de Urubá. Eu não sou índio, como o pessoal aí diz; eu sou caboclinho: casco de cuia, venta chata, pele vermelha, gente que não presta nem para morrer (…)

O único trabalho que motivava Nhô Caboclo era dar forma ao que vinha de seu ‘corgo’, palavra usada por ele para descrever o que seria a inspiração.

(…) mas tenho corgo, que é a pessoa fechar os olhos e, o que vier no sentido, fazer (…)  

Baseado em seu ‘corgo’, ele criou uma simbologia própria ao dar forma a personagens do seu universo pessoal.

Na tradição da arte popular, onde a prática de ensinar o ofício é passada por gerações, Caboclo, deixou poucos seguidores . Adriano Jordão de Souza é um deles. Trabalhou com Nhô Caboclo já nos últimos anos de sua vida, quando foi seu auxiliar. Mais recentemente outro discípulo, o José Alves, começou a fazer um trabalho baseado nas figuras e nos objetos em movimento do seu mestre, mas, na minha opinião, ambos estão longe da beleza e riqueza da obra do Nhô Caboclo.

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Trabalho de Nhô Caboclo que está no Museu do Pontal-Rio de Janeiro

(…) O pessoal me conhecia como bonequeiro de Casa Amarela (…) Antigamente eu fazia talha, mas muita gente pegou a trabalhar igual, aí eu deixei para ser diferente dos outros. Esses que fazem talha, para mim, são apenas uns desenhistas em corte (…)

Suas peças eram esculpidas em madeira e seus personagens representavam figuras que pareciam índios, caboclos, negros. Utilizava penas de aves em alguns personagens, com isso, reforçava a imagem de um protótipo de guerreiro. Além da madeira, ele também usava outros materiais como folhas-de-flandres, panos, cabaças. Tudo confeccionado com instrumentos criados por ele próprio, facas afiadíssimas, estiletes feitos de hastes de guarda-chuva. Suas peças tinham o equilíbrio perfeito e uma engenhoca que dava movimentos aos barcos e rodas-d’água. Tinha uma estrutura tão sofisticada, que fazia tudo se mover ao mesmo tempo quando eram acionadas as roldanas e hélices. Ele dizia que deixou de trabalhar com o barro, porque não se fazia um lutador com espada de barro. O barro para ele era uma matéria pesada, e ele adorava a leveza do movimento.

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Nhô Caboclo, acervo do Museu do Homem do Nordeste-Recife

É assim, alguns criadores conseguem impingir sua marca de uma forma tão pessoal e profunda que mesmo os seus seguidores, quando tentam repetir, não conseguem. Não porque seja difícil ‘copiar’ um estilo. O ‘ser’ virtuoso pode acontecer para muitos, mas não basta ter o virtuosismo técnico se não há ‘o corgo’.

O estilo único que torna a digital do artista não pode ser replicado. Mas à questão de autoria na arte popular isto é  mais complicado, pois, na prática, haverá sempre um mestre para seus discípulos. Um discípulo quando tenta replicar a obra do mestre, na maioria das vezes, produz um simulacro, algo sem alma e sem identidade. Raramente um discípulo supera o seu mestre.

Podemos dizer, de qualquer forma, que a mão humana que esculpe o barro ou a madeira, que trança a palha, que borda ou trabalha no tear, tem também digitais, pois é bem diferente de um trabalho mecanizado. Mas só alguns conseguem uma identidade própria e, geralmente, são aqueles que vão na contramão da tradição, que quebram padrões estabelecidos pela cultura vigente no seu meio. Esses para mim são os verdadeiros artistas. Perceber isso é também descobrir e aceitar o diferente no meio do mesmo. É saber ‘olhar’.

A filósofa Márcia Tiburi, fala da importância e diferença entre ver e olhar. (…) O olhar, portanto, é perceber, é existir, é conviver; vai além da ação rela de enxergar; é a nossa condição de tolerância com o outro. O olhar perturba, angustia, instiga, prende a atenção, provoca reação e remete ao pensar (…)

Nhô Caboclo tinha um olhar especial sobre seu próprio trabalho. Ele era orgulhoso do seu saber, de seu fazer.

(…)Eu não imito ninguém. Tudo o que eu faço é carcatura minha mesmo, as carcaturas que eu quero fazer. Antigamente eu prinspiei a fazer um piscuí de acubagem. Uma pecinha morta, não tinha graça. Depois eu peguei a fazer peça manual pra trabalhar no vento, com um corta vento, ligado a um vaivém, do jeito da máquina do trem que locomove uma elce. Aí a elce trabalha e em tudo que o vaivém tiver enganchado tem que bulir: todo mundo trabalhando(…)

Caboclo começou a produzir desde cedo ainda na fazenda onde morava em Garanhus. Não tinha registro de nascimento, não sabia sua idade. Na realidade era um pária na sociedade. Seguia apenas sua criação, ou melhor dizendo, o seu ‘corgo’. No início, quando as pessoas pagavam algo pelos seus trabalhos, ele colocava o dinheiro no mato ou jogava no rio , porque dizia que era um dinheiro grande e feio.

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Um de seus discípulos, José Alves

Nhô Caboclo teve uma vida completamente desregrada. Podia passar um mês só tomando café. Às vezes comia cinco quilos de peixe de uma vez só! Falava que tomava banho de vez em quando e tranquilamente dizia que já havia passado uns doze anos sem tomar. Veio para o Recife e teve uma vida de nômade. Na cidade percebeu que as pessoas gostavam do seu trabalho e então começou a cobrar por eles, colocando os preços que achava justo. Dizia odiar os pechincheiros. Preferia trocar uma peça por um cigarro ‘de um maloqueiro’, do que baixar seu preço para um ‘pechincheiro’.

Sua comunicação com o mundo apesar das excentricidades era cheia de prosa.  Quando perguntado sobre o porquê de nunca ter se casado, ele respondeu com essa pérola:

(…) Uma mulher é mais cara do que uma cabra. Uma cabra a gente amarra num pé de pau e ela ainda dá leite. Mulher não, fica em casa como passarinho no ninho, com bico aberto: ‘Marido, quero comida; marido a geladeira do vizinho é maior; marido, o fogão do vizinho é mais bonito. ‘Mulher só que ser o que não se pode ser’(…)

Nhô Cabloco veio a falecer em 1976 com uma gripe que se agravou bastante por conta das suas extravagancias no comer, beber e dormir. Ele também tinha uma deficiência cardíaca, cujos sintomas começaram a aparecer desde cedo, mas que para os conhecidos era apenas uma das muitas excentricidades que ele tinha, como dormir sentado numa espreguiçadeira. (ele dizia que caboclo só dorme assim).

Nos dias atuais encontramos pouquíssimas peças dele espalhadas no Brasil, em algumas coleções particulares e poucos museus. Uma pena, pois sua produção era intensa, mas talvez muita coisa tenha se perdido no tempo e nas ruas por onde viveu e produziu o seu trabalho. Nhô Caboclo está presente no Museu do Homem do Nordeste-Recife-Pe, Museu Cais do Sertão-Recife-Pe, Museu do Pontal-Rio de Janeiro-RJ. Museu Afro Brasileiro-São Paulo- SP, entre outros.

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