navegar é preciso…pedras portuguesas nas ondas desse mar

Você sabia que a calçada tão famosa no mundo todo, a de Copacabana, é idêntica a uma outra na cidade de Manaus e outra no outro lado do Atlântico? Isso sem contar que o seu desenho é encontrado e replicado em todo mundo em vários suportes, de revestimento de piso ao teto, em objetos e até acessórios de moda. Assim, em escala, talvez seja o terceiro ícone propagado como um símbolo máximo da cidade do Rio de Janeiro, atrás do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar.

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Fotografia sem crédito

Pois a história desta calçada ícone e não única é bem curiosa e eu fui atrás para poder contar aqui.

Nas minhas andanças pelo centro do Rio de Janeiro, onde encontramos vários e lindos desenhos nas pedras portuguesas, eu gostava de olhar para chão. Não, não pensem que era medo de tropeçar, embora as pedras portuguesas são ‘vingativas’ nesse sentido, caso não cuidem delas com uma devida manutenção! Na realidade era mesmo paixão em admirar tamanha beleza e arte. As pedras no entorno da Candelária são belíssimas!!!!

Os transeuntes já sabem como andar por elas, principalmente as mulheres que trabalham no Centro, de salto. Vão ao trabalho com sandálias rasteirinhas, e, assim que chegam aos escritórios, colocam os seus sapatos bicos finos e salto agulha, inimigos número um das pedras portuguesas.

Pereira Passos, nas enormes mudanças que realizou no Rio de Janeiro, importou as pedras e o seu know-how para aplicá-las, através dos Mestres Calceteiros portugueses . Descobriu-se posteriormente enormes jazidas de calcário branco e basalto no Brasil, mas a denominação da pedra permaneceu. Hoje, suas extrações são variadas e espalhadas por todo o país, mas é de se destacar o Paraná como um dos maiores fornecedores.

Muitas pessoas pensam que as pedras são de difícil manutenção ou acham que são de “uma época”, então acabam destruindo um trabalho secular, que tem uma duração como nenhum outro material de revestimento, basta ver as antigas e lindas calçadas de Lisboa. Como as pedras não levam cimento e a arte é justamente juntá-las o máximo possível para o bom encaixe, se há necessidade de reparo de alguma coisa abaixo do solo, elas são fáceis para remoção e reposição, sem perda de material.

 

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Mestre Calceteiro

Num texto antológico de Cora Rónai para o Globo, em 14 de maio de 2009, ela diz: …A única “desvantagem” das pedras portuguesas em relação aos outros tipos de calçamento é o custo. Elas são muito mais baratas e, por conseguinte, muito menos lucrativas para quem faz as obras. Nós sabemos o que significa o custo Brasil, mas, sinceramente, já estava na hora de isso mudar! Muito melhor e mais barato do que desfazer todas as calçadas e enfear o Rio era criar um curso permanente de calceteiros, que formasse mão de obra especializada no assentamento de pedrinhas. Fazendo a coisa certa, em breve poderíamos até exportar know-how, já que, por acaso, temos as calçadas mais famosas do mundo.

Voltando ao desenho das “ondas” de Copacabana….Tudo começou no outro lado do Atlântico, em 1848. Um piso semelhante foi posto, em padrões ondulantes, por ocasião da construção da Praça de D. Pedro IV, mais conhecida como Praça do Rossio, em Lisboa. Dizem que seu desenho foi escolhido para homenagear o encontro das águas doces do Rio Tejo com o Oceano Atlântico, e que foi um dos primeiros pavimentos com este desenho em Lisboa

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Voltemos ao Brasil. Em Manaus, a calçada do Largo São Sebastião foi feita em 1901, mas já estava planejada desde a década de 1880, quando o Teatro Amazonas, concluído em 1896, começou a ser pensado. A data que marca a finalização do piso em Manaus está numa nota de rodapé do livro “História do Monumento da Praça de São Sebastião”,  de Mario Ypiranga Monteiro.

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Largo de São Sebastião, com Teatro Amazonas, em Manaus. Foto antiga da Biblioteca Virtual do Estado do Amazonas

Baseado na natureza do lugar, os moradores de Manaus falavam que o desenho de sua calçada simbolizava o encontro da água escura do Rio Negro com a água barrenta que chega pelo Solimões. Os rios levam quilômetros para se misturar completamente, formando o Amazonas.

No Rio de Janeiro, enquanto capital do Brasil ainda no início do século 20, vimos a construção da primeira calçada de ladrilhos com os padrões ondulantes. A Avenida Rio Branco, antiga Avenida Central, foi coberta com pedras portuguesas em toda sua extensão.

Na praia de Copacabana a construção foi da mesma época, entre 1905 e 1906, e a referência, dizem, foram as ondas do mar, embora a dureza das ondas posicionadas transversalmente deixasse a desejar na definição de balanço das ondas.

Depois de uma forte ressaca, que acabou com todo seu calçamento, do Leme até o Forte, ela foi reconstruída com suas ondas paralelas ao mar.

 

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Reconstruída paralelamente ao mar, foto de 1947

Ao contrário do que muitos pensam, ser de Burle Marx o desenho das ondas, o paisagista apenas interviu no paisagismo e desenho do canteiro central, quando foi chamado para modernizar a Avenida Atlântica. A ideia era que os desenhos pudessem ser visto do alto. Ele usou magistralmente pedras coloridas em contraponto ao preto e branco já existente, realizando um diálogo belo entre os desenhos. A avenida então foi alargada e duplicada no fim dos anos 1970 e suas icônicas “ondas” permaneceram com uma pequena mudança no aumento das suas curvas, criando assim o efeito de ‘balanço’ que ficou conhecido no mundo todo.

E assim suas ondas já foram cantadas em prosa e verso, e sua fama ultrapassou os mares e as outras iguais. Copacabana se tornou única!

 

 

 

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