Poeta de formas e da palavra.

A criatividade sempre vai acontecer dentro de um contexto, dentro de um campo pré-definido, um campo simbólico de ação. Isso pode incluir muitas coisas, matemática, física, cosmologia, escrever, e normalmente isso vai envolver uma pessoa, um grupo, que faz certas incursões nessa área ao ponto de modificar visualmente um aspecto da estrutura da área, criando algo que é notavelmente diferente, ou pelo menos enriquece de certa maneira ou traz um ângulo de pensamento que até então não existia. (Charles Watson)

O que faz a real criação e um real artista? As palavras acima grifadas foram ditas por Charles Watson, Irlandês, que adotou o Brasil, especificamente a cidade do Rio de Janeiro para morar, e trabalha com a investigação de processos criativos.

Suas palavras me levam a década de 1980 quando costuma ir para a cidade de Caruaru em Pernambuco, ver sua feira e visitar o Alto do Moura. O bairro do Alto do Moura é um pouco afastado do centro da cidade e é lá onde prolifera a produção do artesanato no barro, tendo Mestre Vitalino como o precursor desse trabalho. Nos dias atuais são dois nomes ícones que encabeçam a escultura do barro em Caruaru, Mestre Vitalino e Mestre Galdino.

Nessas minhas viagens,  Mestre Vitalino já havia morrido e a única coisa que encontrávamos por lá era o legado que ele havia deixado, principalmente para sua linhagem. Todos, sem exceção, copiavam o estilo dele. Modificam um coisa aqui, outra acolá, na escala, ou cores, nos bonecos que representam a cultura do lugar. E por mais que fosse bonito, passava a sensação de uma produção em grande escala e não chamava a minha atenção.

Por essa época, numa dessas viagens, conheci Galdino. Figura que era tida como “meio louca” no povoado, que ia na contramão da produção em voga, mas que para mim, era uma figura especial, com um trabalho mágico, que continha um diferencial no meio dos iguais. Tinha um universo e alma próprios, cheio de estórias para contar de cada peça. Fiquei apaixonada!

galdino

Mestre Galdino em frente a sua casa

Ao começar a escrever este texto resolvi não só me basear pelas minhas impressões e memória afetiva, visto que elas eram tendenciosas na escolha primordial do meu olhar, precisava ver outras referencias sobre ele, talvez assim faria um texto mais “isento”. Fui consultar um livro que me marcou desde a primeira vez que o li, que para mim era a “ bíblia” do artesanato nordestino numa época em que não se dava voz ao artesão, não se conhecia muito do trabalho deles. Por um bom tempo achei que havia perdido este livro nas mudanças da vida. Comprei outro recentemente no sebo, pois a edição já estava esgotada. Acabei achando o primeiro e fiquei com dois exemplares. Este livro maravilhoso se chama “O Reinado da Lua”- Escultores Populares do Nordeste, de Silvia Rodrigues, Flávia Martins e Maria Letícia Duarte. Qual minha surpresa e ao mesmo tempo decepção ao descobrir que Mestre Galdino não estava lá!. Folheei por umas três vezes e só na última descobri apenas uma pequena citação no meio da fala de um filho mais velho de Vitalino, o Amaro, que dizia:

“O barro eu pego com Manuel Galdino, que é meu colega de arte. Ele é muito bom, faz máscaras. O trabalho dele é diferente do da gente. Ele não faz os bonecos que nós fazemos nem a gente faz os dele. Meu trabalho eu boto na sua casa. Quando vendo, dou agrado para ele…

Então vejam só, nem foi mapeado como artista popular para o livro e talvez ainda não fosse  valorizado como artesão, vide a fala enfatizando sua criação ser “diferente da da gente” e que “dava agrado”, quando havia vendas na casa dele. Fiquei triste e sem entender o porquê dessa ausência, já que para mim ele era a presença que mais brilhava e tinha luz própria naquele contexto.

Quando você o visitava e começava a olhar uma peça, ele imediatamente se aproximava e começava a contar a estória da peça, que ia de seres extra terrestres à visões de santos e entidades, quase numa explosão de delírio e alegria. Declamava versos parecendo um personagem de cordel e o mote do repente era o significado de cada peça. Ele dizia que as peças falavam com ele e ele com elas. Falava com paixão da arte de esculpir e queimar o barro. Que tinha o tempo de esculpir, de deixá-lo secar, de esperar mais um tempo para pô-lo no forno, de esperar depois de esfriar para sair do forno, todo um ritual de respeito à própria criação que, diz ele, “saíria encruada e feia”caso não seguisse o ritual.

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Escolher uma peça dava trabalho, porque eram muitas e ricas com as estórias de cada uma delas cheias de personalidade. E, em resposta sobre o porquê o seu trabalho não se enquadrava nas influência de Mestre Vitalino, ele declamava:

Galdino é bonequeiro/ e sou poeta também/ tem boneco em minha casa/ que bonequeiro não tem/ na arte só devo a Deus/ lição não devo a ninguém.

Tal qual o grande artista Bispo do Rosário, que por muito tempo viveu como um pária da sociedade, e dizia conversar com Deus,  ele era compulsivo na arte de criar. Galdino teve reconhecimento tardio. Mas quando descobriu a arte na sua vida, produziu como ninguém, nunca repetindo uma peça. Antes da descoberta do barro ele trabalhou com várias coisas, inclusive como pedreiro.  O fato da paixão pelo barro aconteceu quando foi fazer obra no Alto do Moura e viu a produção dos artesãos. Desejou começar a trabalhar com aquilo, principalmente porque via os artesãos vendendo sua peças aos turistas e ganhando três vezes mais do que ele. Então, consciente de sua condição, decidiu frequentar os ateliês e pedir ‘bolinhos’ de barro para os amigos. Ele passava o dia revestindo o posto de saúde como pedreiro e no período noturno iniciava sua segunda jornada de trabalho, como ceramista. Ele disse que a primeira vez que sentou para criar, pensou consigo mesmo: Senhor, pelo amor de Deus, faz de mim um ceramista, eu to passando tanta necessidade! Apesar de eu ser tão pecador, faz de mim um ceramista, pra eu sair dessa miséria que eu vivo!

Ele falou que não sabia se foi um pensamento dele, mas para ele o Deus apareceu dizendo: Galdino, tu vai ser um ceramista!…Mas eu desconfio que no momento que eu nasci Jesus é que deve ter dito: Galdino, tu vai ser um ceramista!

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Galdino forjou um mundo próprio com o barro. Muitos críticos ainda hoje tentam classificar seu estilo. Suas imagens antropofágicas, híbridas, oníricas, já foram rotuladas de incomuns, surreais, grotescas, “os bichos feios de seu mané”. Em seu estilo próprio, ele misturou a mitologia tradicional com a recente, somou arquétipos universais com o imaginário nordestino. As imagens observadas no seu cotidiano e a sua imaginação aguçavam sua percepção para criar as figuras impressas no seu inconsciente e reconhecidas por ele como a ‘parede de seu juízo’. Ele costumava quebrar as peças que não saiam iguais as de seus sonhos. Para mim não importa classificá-lo, rótulos apenas para catalogá-lo e engessá-lo em categorias. Para que? O que importa é o fato  que Galdino foi Galdino o tempo inteiro, mestre criador, íntegro, um verdadeiro artista!

SE CRIA ASSIM

Quem cria tem que durmi

Pensar bem no passado

De tudo ser bem lembrado

Tirar do Juízo como louco

Ter a voz como um pipoco

Ter o corpo com energia

Ler o escudo do dia

Conservar uma oração

Fazer sua oração

Ao deus da puizia.

Deve durmi muito cedo

Bem mais cedo acordar

Muito mais tarde sonhar

Muito afoito e menos medo

Muito honesto com segredo

Muito menos guardar

Muito mais revelar

Pra ter mais soberania

Muito poca covardia

Não durmi para sonhar

(Poema de Mestre Galdino)

Galdino morreu pobre e doente em 1996. A pobreza sempre fez parte da sua vida mesmo depois do reconhecimento e de ter participado de muitas mostras, inclusive no exterior. Destaque para a participação na exposição “Brésil Arts Populaires” no Grand Palais, Paris- 1987. Muitas vezes, por necessidade de dinheiro, vendia suas peças a preços irrisórios. Às vezes cobrava um preço justo, mas não conseguia vender porque não era para o bolso do turista comum que ia ao Alto do Mora comprar artesanato.

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Dizem que ao morrer do coração aos 72 anos, tendo apenas 21 de produção intensa, pois começou sua arte aos 51 anos, havia ainda muitas peças na sua casa, pois mesmo doente ele se levantava e produzia dizendo que nem sentia que estava doente. Foi aconselhado aos filhos que guardassem essas peças para no futuro terem algo do pai. Reza a lenda que um belo dia chega alguém lá e consegue ‘catequizar’ um dos seus filhos a vender todas elas, foi pago por elas um preço irrisório.

Outra perda é do seu caderno de notas. Havia escrito para mais de mil estórias, rimas, poemas. Outro filho relata que estava sob posse de um irmão, que acabou cedendo o caderno a uma mulher, com promessas de escrever uma história do pai. Eles nunca mais tiveram notícias desse caderno. Dos três filhos só resta o Joel, que, enquanto o pai estava vivo, tentou repetir o estilo dele, mas nunca conseguiu chegar aos  seus pés. Não se imita um verdadeiro artista! Galdino continuará a ser Galdino, único, sem discípulos e agora sem matéria.

 

 

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