Arquivo mensal: fevereiro 2017

Nhô Caboclo, exuberância de gestos e palavras

Manoel Fontoura é um genuíno artista!

Mais conhecido como Nhô Caboclo, era uma figura excêntrica, alegre, contador de histórias e se descrevia assim:

(…) Eu me chamo assim, não sei como vim antes. Só sei que me chamo assim-de um lado o bruxão. Nasci na aldeia de Águas Belas, na serra de Urubá. Eu não sou índio, como o pessoal aí diz; eu sou caboclinho: casco de cuia, venta chata, pele vermelha, gente que não presta nem para morrer (…)

O único trabalho que motivava Nhô Caboclo era dar forma ao que vinha de seu ‘corgo’, palavra usada por ele para descrever o que seria a inspiração.

(…) mas tenho corgo, que é a pessoa fechar os olhos e, o que vier no sentido, fazer (…)  

Baseado em seu ‘corgo’, ele criou uma simbologia própria ao dar forma a personagens do seu universo pessoal.

Na tradição da arte popular, onde a prática de ensinar o ofício é passada por gerações, Caboclo, deixou poucos seguidores . Adriano Jordão de Souza é um deles. Trabalhou com Nhô Caboclo já nos últimos anos de sua vida, quando foi seu auxiliar. Mais recentemente outro discípulo, o José Alves, começou a fazer um trabalho baseado nas figuras e nos objetos em movimento do seu mestre, mas, na minha opinião, ambos estão longe da beleza e riqueza da obra do Nhô Caboclo.

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Trabalho de Nhô Caboclo que está no Museu do Pontal-Rio de Janeiro

(…) O pessoal me conhecia como bonequeiro de Casa Amarela (…) Antigamente eu fazia talha, mas muita gente pegou a trabalhar igual, aí eu deixei para ser diferente dos outros. Esses que fazem talha, para mim, são apenas uns desenhistas em corte (…)

Suas peças eram esculpidas em madeira e seus personagens representavam figuras que pareciam índios, caboclos, negros. Utilizava penas de aves em alguns personagens, com isso, reforçava a imagem de um protótipo de guerreiro. Além da madeira, ele também usava outros materiais como folhas-de-flandres, panos, cabaças. Tudo confeccionado com instrumentos criados por ele próprio, facas afiadíssimas, estiletes feitos de hastes de guarda-chuva. Suas peças tinham o equilíbrio perfeito e uma engenhoca que dava movimentos aos barcos e rodas-d’água. Tinha uma estrutura tão sofisticada, que fazia tudo se mover ao mesmo tempo quando eram acionadas as roldanas e hélices. Ele dizia que deixou de trabalhar com o barro, porque não se fazia um lutador com espada de barro. O barro para ele era uma matéria pesada, e ele adorava a leveza do movimento.

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Nhô Caboclo, acervo do Museu do Homem do Nordeste-Recife

É assim, alguns criadores conseguem impingir sua marca de uma forma tão pessoal e profunda que mesmo os seus seguidores, quando tentam repetir, não conseguem. Não porque seja difícil ‘copiar’ um estilo. O ‘ser’ virtuoso pode acontecer para muitos, mas não basta ter o virtuosismo técnico se não há ‘o corgo’.

O estilo único que torna a digital do artista não pode ser replicado. Mas à questão de autoria na arte popular isto é  mais complicado, pois, na prática, haverá sempre um mestre para seus discípulos. Um discípulo quando tenta replicar a obra do mestre, na maioria das vezes, produz um simulacro, algo sem alma e sem identidade. Raramente um discípulo supera o seu mestre.

Podemos dizer, de qualquer forma, que a mão humana que esculpe o barro ou a madeira, que trança a palha, que borda ou trabalha no tear, tem também digitais, pois é bem diferente de um trabalho mecanizado. Mas só alguns conseguem uma identidade própria e, geralmente, são aqueles que vão na contramão da tradição, que quebram padrões estabelecidos pela cultura vigente no seu meio. Esses para mim são os verdadeiros artistas. Perceber isso é também descobrir e aceitar o diferente no meio do mesmo. É saber ‘olhar’.

A filósofa Márcia Tiburi, fala da importância e diferença entre ver e olhar. (…) O olhar, portanto, é perceber, é existir, é conviver; vai além da ação rela de enxergar; é a nossa condição de tolerância com o outro. O olhar perturba, angustia, instiga, prende a atenção, provoca reação e remete ao pensar (…)

Nhô Caboclo tinha um olhar especial sobre seu próprio trabalho. Ele era orgulhoso do seu saber, de seu fazer.

(…)Eu não imito ninguém. Tudo o que eu faço é carcatura minha mesmo, as carcaturas que eu quero fazer. Antigamente eu prinspiei a fazer um piscuí de acubagem. Uma pecinha morta, não tinha graça. Depois eu peguei a fazer peça manual pra trabalhar no vento, com um corta vento, ligado a um vaivém, do jeito da máquina do trem que locomove uma elce. Aí a elce trabalha e em tudo que o vaivém tiver enganchado tem que bulir: todo mundo trabalhando(…)

Caboclo começou a produzir desde cedo ainda na fazenda onde morava em Garanhus. Não tinha registro de nascimento, não sabia sua idade. Na realidade era um pária na sociedade. Seguia apenas sua criação, ou melhor dizendo, o seu ‘corgo’. No início, quando as pessoas pagavam algo pelos seus trabalhos, ele colocava o dinheiro no mato ou jogava no rio , porque dizia que era um dinheiro grande e feio.

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Um de seus discípulos, José Alves

Nhô Caboclo teve uma vida completamente desregrada. Podia passar um mês só tomando café. Às vezes comia cinco quilos de peixe de uma vez só! Falava que tomava banho de vez em quando e tranquilamente dizia que já havia passado uns doze anos sem tomar. Veio para o Recife e teve uma vida de nômade. Na cidade percebeu que as pessoas gostavam do seu trabalho e então começou a cobrar por eles, colocando os preços que achava justo. Dizia odiar os pechincheiros. Preferia trocar uma peça por um cigarro ‘de um maloqueiro’, do que baixar seu preço para um ‘pechincheiro’.

Sua comunicação com o mundo apesar das excentricidades era cheia de prosa.  Quando perguntado sobre o porquê de nunca ter se casado, ele respondeu com essa pérola:

(…) Uma mulher é mais cara do que uma cabra. Uma cabra a gente amarra num pé de pau e ela ainda dá leite. Mulher não, fica em casa como passarinho no ninho, com bico aberto: ‘Marido, quero comida; marido a geladeira do vizinho é maior; marido, o fogão do vizinho é mais bonito. ‘Mulher só que ser o que não se pode ser’(…)

Nhô Cabloco veio a falecer em 1976 com uma gripe que se agravou bastante por conta das suas extravagancias no comer, beber e dormir. Ele também tinha uma deficiência cardíaca, cujos sintomas começaram a aparecer desde cedo, mas que para os conhecidos era apenas uma das muitas excentricidades que ele tinha, como dormir sentado numa espreguiçadeira. (ele dizia que caboclo só dorme assim).

Nos dias atuais encontramos pouquíssimas peças dele espalhadas no Brasil, em algumas coleções particulares e poucos museus. Uma pena, pois sua produção era intensa, mas talvez muita coisa tenha se perdido no tempo e nas ruas por onde viveu e produziu o seu trabalho. Nhô Caboclo está presente no Museu do Homem do Nordeste-Recife-Pe, Museu Cais do Sertão-Recife-Pe, Museu do Pontal-Rio de Janeiro-RJ. Museu Afro Brasileiro-São Paulo- SP, entre outros.

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navegar é preciso…pedras portuguesas nas ondas desse mar

Você sabia que a calçada tão famosa no mundo todo, a de Copacabana, é idêntica a uma outra na cidade de Manaus e outra no outro lado do Atlântico? Isso sem contar que o seu desenho é encontrado e replicado em todo mundo em vários suportes, de revestimento de piso ao teto, em objetos e até acessórios de moda. Assim, em escala, talvez seja o terceiro ícone propagado como um símbolo máximo da cidade do Rio de Janeiro, atrás do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar.

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Fotografia sem crédito

Pois a história desta calçada ícone e não única é bem curiosa e eu fui atrás para poder contar aqui.

Nas minhas andanças pelo centro do Rio de Janeiro, onde encontramos vários e lindos desenhos nas pedras portuguesas, eu gostava de olhar para chão. Não, não pensem que era medo de tropeçar, embora as pedras portuguesas são ‘vingativas’ nesse sentido, caso não cuidem delas com uma devida manutenção! Na realidade era mesmo paixão em admirar tamanha beleza e arte. As pedras no entorno da Candelária são belíssimas!!!!

Os transeuntes já sabem como andar por elas, principalmente as mulheres que trabalham no Centro, de salto. Vão ao trabalho com sandálias rasteirinhas, e, assim que chegam aos escritórios, colocam os seus sapatos bicos finos e salto agulha, inimigos número um das pedras portuguesas.

Pereira Passos, nas enormes mudanças que realizou no Rio de Janeiro, importou as pedras e o seu know-how para aplicá-las, através dos Mestres Calceteiros portugueses . Descobriu-se posteriormente enormes jazidas de calcário branco e basalto no Brasil, mas a denominação da pedra permaneceu. Hoje, suas extrações são variadas e espalhadas por todo o país, mas é de se destacar o Paraná como um dos maiores fornecedores.

Muitas pessoas pensam que as pedras são de difícil manutenção ou acham que são de “uma época”, então acabam destruindo um trabalho secular, que tem uma duração como nenhum outro material de revestimento, basta ver as antigas e lindas calçadas de Lisboa. Como as pedras não levam cimento e a arte é justamente juntá-las o máximo possível para o bom encaixe, se há necessidade de reparo de alguma coisa abaixo do solo, elas são fáceis para remoção e reposição, sem perda de material.

 

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Mestre Calceteiro

Num texto antológico de Cora Rónai para o Globo, em 14 de maio de 2009, ela diz: …A única “desvantagem” das pedras portuguesas em relação aos outros tipos de calçamento é o custo. Elas são muito mais baratas e, por conseguinte, muito menos lucrativas para quem faz as obras. Nós sabemos o que significa o custo Brasil, mas, sinceramente, já estava na hora de isso mudar! Muito melhor e mais barato do que desfazer todas as calçadas e enfear o Rio era criar um curso permanente de calceteiros, que formasse mão de obra especializada no assentamento de pedrinhas. Fazendo a coisa certa, em breve poderíamos até exportar know-how, já que, por acaso, temos as calçadas mais famosas do mundo.

Voltando ao desenho das “ondas” de Copacabana….Tudo começou no outro lado do Atlântico, em 1848. Um piso semelhante foi posto, em padrões ondulantes, por ocasião da construção da Praça de D. Pedro IV, mais conhecida como Praça do Rossio, em Lisboa. Dizem que seu desenho foi escolhido para homenagear o encontro das águas doces do Rio Tejo com o Oceano Atlântico, e que foi um dos primeiros pavimentos com este desenho em Lisboa

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Voltemos ao Brasil. Em Manaus, a calçada do Largo São Sebastião foi feita em 1901, mas já estava planejada desde a década de 1880, quando o Teatro Amazonas, concluído em 1896, começou a ser pensado. A data que marca a finalização do piso em Manaus está numa nota de rodapé do livro “História do Monumento da Praça de São Sebastião”,  de Mario Ypiranga Monteiro.

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Largo de São Sebastião, com Teatro Amazonas, em Manaus. Foto antiga da Biblioteca Virtual do Estado do Amazonas

Baseado na natureza do lugar, os moradores de Manaus falavam que o desenho de sua calçada simbolizava o encontro da água escura do Rio Negro com a água barrenta que chega pelo Solimões. Os rios levam quilômetros para se misturar completamente, formando o Amazonas.

No Rio de Janeiro, enquanto capital do Brasil ainda no início do século 20, vimos a construção da primeira calçada de ladrilhos com os padrões ondulantes. A Avenida Rio Branco, antiga Avenida Central, foi coberta com pedras portuguesas em toda sua extensão.

Na praia de Copacabana a construção foi da mesma época, entre 1905 e 1906, e a referência, dizem, foram as ondas do mar, embora a dureza das ondas posicionadas transversalmente deixasse a desejar na definição de balanço das ondas.

Depois de uma forte ressaca, que acabou com todo seu calçamento, do Leme até o Forte, ela foi reconstruída com suas ondas paralelas ao mar.

 

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Reconstruída paralelamente ao mar, foto de 1947

Ao contrário do que muitos pensam, ser de Burle Marx o desenho das ondas, o paisagista apenas interviu no paisagismo e desenho do canteiro central, quando foi chamado para modernizar a Avenida Atlântica. A ideia era que os desenhos pudessem ser visto do alto. Ele usou magistralmente pedras coloridas em contraponto ao preto e branco já existente, realizando um diálogo belo entre os desenhos. A avenida então foi alargada e duplicada no fim dos anos 1970 e suas icônicas “ondas” permaneceram com uma pequena mudança no aumento das suas curvas, criando assim o efeito de ‘balanço’ que ficou conhecido no mundo todo.

E assim suas ondas já foram cantadas em prosa e verso, e sua fama ultrapassou os mares e as outras iguais. Copacabana se tornou única!

 

 

 

Poeta de formas e da palavra.

A criatividade sempre vai acontecer dentro de um contexto, dentro de um campo pré-definido, um campo simbólico de ação. Isso pode incluir muitas coisas, matemática, física, cosmologia, escrever, e normalmente isso vai envolver uma pessoa, um grupo, que faz certas incursões nessa área ao ponto de modificar visualmente um aspecto da estrutura da área, criando algo que é notavelmente diferente, ou pelo menos enriquece de certa maneira ou traz um ângulo de pensamento que até então não existia. (Charles Watson)

O que faz a real criação e um real artista? As palavras acima grifadas foram ditas por Charles Watson, Irlandês, que adotou o Brasil, especificamente a cidade do Rio de Janeiro para morar, e trabalha com a investigação de processos criativos.

Suas palavras me levam a década de 1980 quando costuma ir para a cidade de Caruaru em Pernambuco, ver sua feira e visitar o Alto do Moura. O bairro do Alto do Moura é um pouco afastado do centro da cidade e é lá onde prolifera a produção do artesanato no barro, tendo Mestre Vitalino como o precursor desse trabalho. Nos dias atuais são dois nomes ícones que encabeçam a escultura do barro em Caruaru, Mestre Vitalino e Mestre Galdino.

Nessas minhas viagens,  Mestre Vitalino já havia morrido e a única coisa que encontrávamos por lá era o legado que ele havia deixado, principalmente para sua linhagem. Todos, sem exceção, copiavam o estilo dele. Modificam um coisa aqui, outra acolá, na escala, ou cores, nos bonecos que representam a cultura do lugar. E por mais que fosse bonito, passava a sensação de uma produção em grande escala e não chamava a minha atenção.

Por essa época, numa dessas viagens, conheci Galdino. Figura que era tida como “meio louca” no povoado, que ia na contramão da produção em voga, mas que para mim, era uma figura especial, com um trabalho mágico, que continha um diferencial no meio dos iguais. Tinha um universo e alma próprios, cheio de estórias para contar de cada peça. Fiquei apaixonada!

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Mestre Galdino em frente a sua casa

Ao começar a escrever este texto resolvi não só me basear pelas minhas impressões e memória afetiva, visto que elas eram tendenciosas na escolha primordial do meu olhar, precisava ver outras referencias sobre ele, talvez assim faria um texto mais “isento”. Fui consultar um livro que me marcou desde a primeira vez que o li, que para mim era a “ bíblia” do artesanato nordestino numa época em que não se dava voz ao artesão, não se conhecia muito do trabalho deles. Por um bom tempo achei que havia perdido este livro nas mudanças da vida. Comprei outro recentemente no sebo, pois a edição já estava esgotada. Acabei achando o primeiro e fiquei com dois exemplares. Este livro maravilhoso se chama “O Reinado da Lua”- Escultores Populares do Nordeste, de Silvia Rodrigues, Flávia Martins e Maria Letícia Duarte. Qual minha surpresa e ao mesmo tempo decepção ao descobrir que Mestre Galdino não estava lá!. Folheei por umas três vezes e só na última descobri apenas uma pequena citação no meio da fala de um filho mais velho de Vitalino, o Amaro, que dizia:

“O barro eu pego com Manuel Galdino, que é meu colega de arte. Ele é muito bom, faz máscaras. O trabalho dele é diferente do da gente. Ele não faz os bonecos que nós fazemos nem a gente faz os dele. Meu trabalho eu boto na sua casa. Quando vendo, dou agrado para ele…

Então vejam só, nem foi mapeado como artista popular para o livro e talvez ainda não fosse  valorizado como artesão, vide a fala enfatizando sua criação ser “diferente da da gente” e que “dava agrado”, quando havia vendas na casa dele. Fiquei triste e sem entender o porquê dessa ausência, já que para mim ele era a presença que mais brilhava e tinha luz própria naquele contexto.

Quando você o visitava e começava a olhar uma peça, ele imediatamente se aproximava e começava a contar a estória da peça, que ia de seres extra terrestres à visões de santos e entidades, quase numa explosão de delírio e alegria. Declamava versos parecendo um personagem de cordel e o mote do repente era o significado de cada peça. Ele dizia que as peças falavam com ele e ele com elas. Falava com paixão da arte de esculpir e queimar o barro. Que tinha o tempo de esculpir, de deixá-lo secar, de esperar mais um tempo para pô-lo no forno, de esperar depois de esfriar para sair do forno, todo um ritual de respeito à própria criação que, diz ele, “saíria encruada e feia”caso não seguisse o ritual.

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Escolher uma peça dava trabalho, porque eram muitas e ricas com as estórias de cada uma delas cheias de personalidade. E, em resposta sobre o porquê o seu trabalho não se enquadrava nas influência de Mestre Vitalino, ele declamava:

Galdino é bonequeiro/ e sou poeta também/ tem boneco em minha casa/ que bonequeiro não tem/ na arte só devo a Deus/ lição não devo a ninguém.

Tal qual o grande artista Bispo do Rosário, que por muito tempo viveu como um pária da sociedade, e dizia conversar com Deus,  ele era compulsivo na arte de criar. Galdino teve reconhecimento tardio. Mas quando descobriu a arte na sua vida, produziu como ninguém, nunca repetindo uma peça. Antes da descoberta do barro ele trabalhou com várias coisas, inclusive como pedreiro.  O fato da paixão pelo barro aconteceu quando foi fazer obra no Alto do Moura e viu a produção dos artesãos. Desejou começar a trabalhar com aquilo, principalmente porque via os artesãos vendendo sua peças aos turistas e ganhando três vezes mais do que ele. Então, consciente de sua condição, decidiu frequentar os ateliês e pedir ‘bolinhos’ de barro para os amigos. Ele passava o dia revestindo o posto de saúde como pedreiro e no período noturno iniciava sua segunda jornada de trabalho, como ceramista. Ele disse que a primeira vez que sentou para criar, pensou consigo mesmo: Senhor, pelo amor de Deus, faz de mim um ceramista, eu to passando tanta necessidade! Apesar de eu ser tão pecador, faz de mim um ceramista, pra eu sair dessa miséria que eu vivo!

Ele falou que não sabia se foi um pensamento dele, mas para ele o Deus apareceu dizendo: Galdino, tu vai ser um ceramista!…Mas eu desconfio que no momento que eu nasci Jesus é que deve ter dito: Galdino, tu vai ser um ceramista!

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Galdino forjou um mundo próprio com o barro. Muitos críticos ainda hoje tentam classificar seu estilo. Suas imagens antropofágicas, híbridas, oníricas, já foram rotuladas de incomuns, surreais, grotescas, “os bichos feios de seu mané”. Em seu estilo próprio, ele misturou a mitologia tradicional com a recente, somou arquétipos universais com o imaginário nordestino. As imagens observadas no seu cotidiano e a sua imaginação aguçavam sua percepção para criar as figuras impressas no seu inconsciente e reconhecidas por ele como a ‘parede de seu juízo’. Ele costumava quebrar as peças que não saiam iguais as de seus sonhos. Para mim não importa classificá-lo, rótulos apenas para catalogá-lo e engessá-lo em categorias. Para que? O que importa é o fato  que Galdino foi Galdino o tempo inteiro, mestre criador, íntegro, um verdadeiro artista!

SE CRIA ASSIM

Quem cria tem que durmi

Pensar bem no passado

De tudo ser bem lembrado

Tirar do Juízo como louco

Ter a voz como um pipoco

Ter o corpo com energia

Ler o escudo do dia

Conservar uma oração

Fazer sua oração

Ao deus da puizia.

Deve durmi muito cedo

Bem mais cedo acordar

Muito mais tarde sonhar

Muito afoito e menos medo

Muito honesto com segredo

Muito menos guardar

Muito mais revelar

Pra ter mais soberania

Muito poca covardia

Não durmi para sonhar

(Poema de Mestre Galdino)

Galdino morreu pobre e doente em 1996. A pobreza sempre fez parte da sua vida mesmo depois do reconhecimento e de ter participado de muitas mostras, inclusive no exterior. Destaque para a participação na exposição “Brésil Arts Populaires” no Grand Palais, Paris- 1987. Muitas vezes, por necessidade de dinheiro, vendia suas peças a preços irrisórios. Às vezes cobrava um preço justo, mas não conseguia vender porque não era para o bolso do turista comum que ia ao Alto do Mora comprar artesanato.

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Dizem que ao morrer do coração aos 72 anos, tendo apenas 21 de produção intensa, pois começou sua arte aos 51 anos, havia ainda muitas peças na sua casa, pois mesmo doente ele se levantava e produzia dizendo que nem sentia que estava doente. Foi aconselhado aos filhos que guardassem essas peças para no futuro terem algo do pai. Reza a lenda que um belo dia chega alguém lá e consegue ‘catequizar’ um dos seus filhos a vender todas elas, foi pago por elas um preço irrisório.

Outra perda é do seu caderno de notas. Havia escrito para mais de mil estórias, rimas, poemas. Outro filho relata que estava sob posse de um irmão, que acabou cedendo o caderno a uma mulher, com promessas de escrever uma história do pai. Eles nunca mais tiveram notícias desse caderno. Dos três filhos só resta o Joel, que, enquanto o pai estava vivo, tentou repetir o estilo dele, mas nunca conseguiu chegar aos  seus pés. Não se imita um verdadeiro artista! Galdino continuará a ser Galdino, único, sem discípulos e agora sem matéria.