Arquivo mensal: janeiro 2017

Ilha do Ferro-beleza e silêncio às margens do Rio São Francisco

Eu e uns amigos fizemos uma viagem para Ilha do Ferro, Sertão de Alagoas, pois queríamos conhecer os artesãos que vivem lá e produzem seu rico artesanato.

Viajar pelo sertão de Alagoas é uma experiência impar, pois, apesar de vermos na maior parte do percurso uma paisagem árida, ao chegarmos ao município de Pão de Açúcar é surpreendente encontrar o Rio São Francisco. Nessa hora nos perguntamos como pode haver tanta água em contraste com tanta seca.

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margem do Rio São Francisco em Pão de Açúcar

Pão de Açúcar é um município incrustado às margens do São Francisco. Seu nome original era Jaciobá, nome Guarani que significa “ Espelho da Lua “. Depois da passagens dos índios Uramaris e Chocó, a região passou a ser domínio de um português chamado Lourenço José de Brito Correia. Ele, proprietário das terras, passou a chamar a região de Pão de Açúcar por conta de um morro onde se fazia o processo da clarificação do açúcar.

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Apesar do nome ter sido batizado por este motivo, é difícil não pensar que a beleza do Rio de Janeiro, com seus símbolos mais famosos como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, não tenham influenciado a população para juntar ambos em um só lugar. A inauguração da estátua de 10 metros de altura do Cristo, em cima do morro, foi em 1950. Também talvez seja mera coincidência que o outro lado do Rio São Francisco, já estado de Sergipe, tenha uma comunidade que se chama Niterói. Coincidências à parte ou não, a saudade bateu! Pensei: aonde eu vá, de Lisboa ao sertão das Alagoas, encontro referências da cidade que fui feliz nos oito anos em que morei, ela sempre teima em estar presente, seja na memória, seja nessas paisagens, nesses Cristos de braços abertos.

Na região há sítios arqueológicos, histórias da passagem de D. Pedro II, além de ter sido a rota do cangaço de Lampião e seu bando.

Seguimos numa estrada de barro até a Ilha do Ferro, que fica a 18km de Pão de Açúcar. Ao contrário do que diz o nome, não é uma ilha e sim continente. O acesso para lá é de barco, pelo Rio São Francisco, ou carro, por uma estrada de barro seco e na caatinga encontramos mandacarus, umbuzeiros e algorabas. Há beleza e silêncio nessa paisagem.

As casinhas são lindas em ruas estreitas, algumas debruçadas sob o rio São Francisco, outras morro acima. O rio é uma preocupação diária dos povos ribeirinhos que ficam apreensivos com as mudanças que têm acontecido no seu leito. Os moradores sabem que precisam desse rio, que é de lá que tiram seu sustento: “É muito forte isso de retratar o nosso lugar. Fico pensando então como vai ser se o Velho Chico morrer. Diziam que o Rio São Francisco ia virar um poço, e agora acho que de fato vai virar mesmo. Quem sabe nossas futuras gerações, os meus tataranetos, não vão alcançar isso? Eu faço economia de água, faço economia de energia, tudo para ver se a situação não piora. Acho isso aqui lindo. Vai ser uma pena se acontecer”. Palavras de Rejânia Rodrigues, bordadeira, casada com Valmir Lessa, escultor.

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Banco de Fernando Rodrigues

Rejânia é filha de Fernando Rodrigues, pioneiro na produção de obras esculpidas nas raízes e troncos de uma árvore chamada Craibeira, encontrados na natureza. O mestre, que faleceu há oito anos, deixou um legado com nomes fortes de talento e criatividade. Aproximadamente 25 homens trabalham com o artesanato em madeira atualmente, seguindo o caminho que o mestre ensinou.

Mestre Fernando Rodrigues foi o pioneiro no ofício de esculpir na madeira. Seus discípulos buscam na matéria-prima morta e descartada na natureza fonte de inspiração, dando forma às peças de decoração e utensílios como cadeiras, objetos de arte, mesas, bancos e o que mais o impulso criativo de cada artesão permitir.

Mestre Valmir Lessa, genro de Fernando Rodrigues, é um dos artesãos que imprime sua marca na madeira. Ele fala que é preciso verificar se existem espinhos e se o galho e o tronco “dão forma”, antes de recolher a matéria-prima. O olhar precisa ser atento, perceber formas onde, para a maioria das pessoas, há apenas troncos retorcidos. “A maioria das coisas já vem pronta. Já são feitas pela natureza. Tem uma cadeira aqui que eu só coloquei o pé. O povo diz que eu sou bom, mas eu olho a madeira morta e digo: ‘Isso aqui vai dá um pássaro. Ou, isso aqui dá uma cadeira’. Enxergo o que já existe ali. O dom é só de conseguir ver o que já vem pronto”.


Bebendo na mesma fonte, os artesãos buscam a originalidade em pequenos diferenciais. Se a especialidade de Valmir são as cadeiras, Mestre Aberaldo tem como principal produção os banquinhos e os famosos bonecos de madeira, pássaros também estão entre os preferidos do artesão.

Além das peças esculpidas em madeira pelos homens, há o bordado de Boa Noite, uma joia rara feito pelas mulheres do local, que constitui uma alternativa de renda. Boa Noite é o nome de uma singela flor da região.

Sem dúvida alguma, o trabalho das mulheres da Ilha do Ferro tem um significado especial. Além de trazer ao público uma das mais belas técnicas de bordado do nosso país, essa produção é, hoje, elemento de agregação e valorização de toda a comunidade.

Na nossa passagem pela Ilha, quase não encontramos nada para ver ou comprar. Para o bem ou para o mal a Rede Globo “ descobriu” o talento dos artesãos e quase tudo que eles tinham foi vendido para participação na novela das oito. Fico cá pensando que a descoberta desses talentos por um maior número de pessoas é uma coisa muito boa para o artista, mas, as perguntas que vêm imediatamente à mente é: Será que com isso eles conseguirão permanecer íntegros na sua criação? Será que esse súbito interesse da classe média emergente urbana, possuidora de outros gostos que não o universo dos artesãos, os farão sucumbir às imposições do mercado? São perguntas bem delicadas para serem observadas no decorrer do tempo.

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Mestre Aberaldo trabalhando

A Ilha do Ferro é ainda e apesar de tudo um cenário bucólico de vida tranquila e longe da algazarra de uma cidade grande. A cidade parece parada no tempo. Os artesão são de uma gentileza e pureza de espírito. Penso que talvez a dificuldade para chegar lá, a paisagem inóspita, não atraiam um turismo de massa. E isso, no meu ponto de vista é bom. Talvez a viagem seja para alguns interessados em ver a cultura e as coisas lindas produzidas por um povo que se orgulha de pertencer a um lugar. Que o rio São Francisco estanque sua vazão e ainda abençoe por muito tempo com suas águas caudalosas essa comunidade tão bonita, rica e criativa.

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banco feito por Bedéu

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