“Tempo esse grande escultor”

Capela, Zona da Mata em Alagoas, cidade onde meu pai nasceu e que sempre ia quando eu ainda era criança. Na casa da minha avó sempre brincávamos de fazer bonecos e panelinhas de barro.

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Bom revisitar o passado depois de tanto tempo e encontrar um espaço como o Art do Barro do João das Alagoas. Como estava em viagem para visitar outros artesãos no sertão Alagoano, resolvi parar lá e conhecer melhor o trabalho dos mestres do barro de Alagoas.

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O espaço é uma casa simples de cimento batido numa rua sem saída onde encontramos no final um curral de bois. A paisagem é bucólica como se estivéssemos parados no tempo.

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João das Alagoas, Sil, Nena, são alguns dos nomes que imprimem seus universos imaginários na matéria do barro. Além deles, os filhos de João também seguem esse caminho de modelar e ensinam aos jovens de cidade o ofício e os segredos do barro. Sim, porque a matéria guarda seus segredos. Me lembro bem quando modelava minhas pequenas peças, tinha que ter paciência, pois era necessário um tempo para todas as etapas, além de ter um barro de qualidade para amalgamar, pois alguns não davam “a liga”. Tempo para modelar, tempo para secar, tempo para queimar no forno à lenha…tempo, tempo, tempo, tempo, “ Tempo esse grande escultor “, já dizia Yourcenar.

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João nos recebeu com uma cordialidade e simplicidade típicas das pessoas que moram em interior. Para de trabalhar e vai mostrando todo espaço, que, apesar de levar seu nome, é um atelier coletivo e reúne todos os mestres e discípulos.

Na sua generosidade vai mostrando cada peça, as suas e as dos outros também, mas a explicação do sentido de cada peça ele só dá para as suas, é claro.

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Mestre no modelar de lapinhas e na religiosidade de seu povo, tem sua marca registrada no “Boi Bumbar “, esculpidas em pequenas e grandes peças, com saias trabalhadas em alto e baixo relevo, representando histórias do folclore nordestino, dos casamentos, dos batizados e das mais típicas brincadeiras de rua das crianças brasileiras. João recebeu, em 2011, o título de Patrimônio vivo do Estado de Alagoas.

 

Sil é uma escultora que modela o barro diferente de João, com detalhes riquíssimos que mais parecem rendas. Suas personagens têm uma riqueza na indumentária, e, até mesmo quando não cria personagens, apenas frutas, são peças ricas nos pequenos detalhes.

 

Nena já tem uma estética um pouco parecida com a do João, mas difere quando modela seus temas em enormes peças que parecem Torres de Babel.

O mais bonito é ver como eles podem “contaminar” uns aos outros no seu dia a dia, principalmente vendo os jovens interessados no ofício, tentando criar suas próprias assinaturas. Isso é saber repassar o ofício, sem pequenez nem mesquinharias. Um lindo trabalho desse povo.

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