Arquivo mensal: julho 2016

“EU NÃO EVOLUO, VIAJO”

Vou pegar esse título emprestado porque cai muito bem com o que pretendo escrever. Este título é de uma retrospectiva do pintor José Escada (Lisboa, 1934-1980) que se encontra agora na Fundação Calouste Gulbenkian, mas será sobre a Fundação que irei falar e não da arte de Escada.

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Jardins da Calouste Gulbenkian

O “evoluir” eu considero como um crescimento do ser. Evoluímos de várias maneiras, e, na maioria das vezes, o verbo vem com a conotação de uma situação para melhor, um ‘up grade’ na vida, principalmente a espiritual.

No caso do título, bastante sugestivo, demostra que a viajem é a grande r-evolução. Viajar, seja para onde for, é um deslocamento de um lugar para outro, uma mudança de paisagem, e, as paisagens, por mais inóspitas que sejam, já diferem do lugar de partida, mostram outros mundos. Sempre é um aprendizado. Amo viajar e quando o faço, procuro sorver o que posso do lugar.

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Jardins da Calouste

Ainda em Lisboa fui conhecer outras paisagens, no caso, a Fundação Calouste Gulbenkian. Não entrei logo no edifício, preferi antes circular por seus imensos jardins, sentir a natureza em todo seu esplendor, encher o pulmão daquele verde.

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Jardins da Calouste

O jardim é belo e aberto ao público. Mil recantos intimistas no meio da vegetação, com bancos, quedas d’água, esplanadas. Caminhos lindos cobertos de vegetação frondosa onde transeuntes passeiam, correm, alguns lancham, outros namoram.

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ala contemporânea

Entre suas construções há também o grande anfiteatro ao ar livre, onde shows e espetáculos acontecem.

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Anfiteatro

Depois de conhecer bem o seu entorno, fui visitar o museu com sua coleção, tanto a parte contemporânea, quanto a mais antiga.

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Coleção do Museu

Em fevereiro de 1953, Calouste Gulbenkian escreveu que considerava as obras de arte como “filhas”, que estava no tempo de pensar no futuro delas. Queria um lugar para abriga-las. Ele falava que a coleção representava uns sessenta anos da vida dele e que ela era sua alma e seu coração.

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Coleção do Museu

Da arte Oriental à Ocidental, a apresentação das peças com belos displays e uma ótima iluminação nos faz sentir como se estivéssemos adentrando em um santuário. Estão lá presentes os relevos da Mesopotâmia, tapetes Persas, vasos Chineses e lacas Japonesas. Um silêncio e uma reverência a tanto peso de séculos contidos ali. O que mais me encantou, para além de todo o acervo do museu, foi a sala dedica a René Lalique. Suas peças são maravilhosas! Obras de arte pura, perfeitas!

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Gargantilha Gatos, cristal de rocha, ouro e diamantes

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Peitoral Serpentes, ouro e esmalte

 

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Pendente Rosto feminino, vidro, prata, esmalte, ouro e pérola barroca.

Na ala contemporânea, além de um acervo muito rico, há também exposições temporárias. As curadoras Penelope Curtis e Leonor Nazaré selecionaram os artistas da exposição “Convidados de Verão “por terem suas obras numa proximidade formal ou conceitual com o acervo existente. As obras são colocadas pontualmente no meio do acervo, aqui e ali, realizando assim uma transversalidade da arte em épocas distintas.

 

Fernanda-Fragateiro

Fernanda Fragateiro Paisagem Não-Paisagem, aço inox polido

Ponto para a artista Fernanda Fragateiro, uma das convidadas, que propôs um conjunto de intervenções escultóricas, criando uma ponte entre o Museu, os  bancos da Fundação, desenhados por Ribeiro Telles, e os eventos do Jardim de Verão. Alguns bancos foram recobertos de aço polido e fazem a mimese da paisagem, ou, em outras palavras, se integram de tal forma ao jardim ao refletirem o seu entorno.

 

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Fernanda Fragateiro-Paisagem Não-paisagem, aço inox polido

Uma lufada de ar com pitadas de belo!

 

 

 

 

Magia e segredo, Quinta da Regaleira- Sintra

Não conhecia Sintra e fiquei surpresa com a beleza e magia da pequena cidade.

Relativamente perto de Lisboa, de Comboio (trem) são apenas uns 55min para chegar lá. Este tempo seria igual ao que se perde ao pegar um engarrafamento pequeno nas grandes cidades brasileiras, de um bairro a outro. Poderíamos comparar que Sintra está para Lisboa, assim como Petrópolis está para o Rio de Janeiro.

 

Sintra também é chamada de Monte da Lua. Patrimônio Mundial da Unesco, a vila fica na encosta da serra que leva seu nome e termina no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental do continente europeu.

O Comboio parte da estação do Rossio, que é linda linda. O prédio da estação foi construído em 1886. O ticket para o comboio custa a bagatela de 2,15 euros!

Tive apenas um dia em Sintra, morrendo de pena, pois cheguei à conclusão que terei que voltar um dia, porque Sintra não se conhece apenas em um dia!

Me detive em andar pela cidade e ir diretamente para a Quinta da Regaleira, pois já tinha ouvido falar dos seus túneis e caminhos secretos e, como se trata de uma propriedade enorme, quase todo tempo foi gasto por lá.

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Quinta da Regaleira

A Quinta é uma curiosa construção que passou por diversos proprietários desde 1697. Em 1840 foi adquirida pela Baronesa da Regaleira e passou a ser conhecida por Quinta da Torre da Regaleira, com seu palacete, capela e jardim.

Em 1893, foi arrematada por António Augusto de Carvalho Monteiro, que adquiriu também outros terrenos no entorno da Quinta para ampliar o seu enorme jardim. A casa servia para o veraneio da família Monteiro. Nos dias atuais a Quinta pertence a Câmara Municipal de Sintra.

Enquanto pertencia a António Augusto de Carvalho Monteiro foram realizadas as modificações que são vistas até hoje. Ele contratou o arquiteto Henri Lusseau, que começou a pensar o Palácio em estilo neogótico francês e o parque. Mas a construção só se deu com arquiteto-cenógrafo Luigi Manini, que construiu o parque com o edifício das Cocheiras e também reformou a Capela e o Palácio. As obras absorveram-no durante 14 anos.

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Lagos da Quinta

Podemos dizer que todos os detalhes da construção da propriedade, principalmente dos espaços subterrâneos, os túneis, poços e lagos, constituem o tema central da Regaleira. Fala-se que tais espaços associam-se a uma passagem sensível pelos elementos e à transposição das trevas para resgatar a luz das origens, qual morte simbólica a que sucede um novo nascimento.

O percurso pelos túneis, na maioria, é todo no escuro. Entrado neles, parece que estamos em um filme de Indiana Jones à caça do tesouro perdido, que, no caso, seria a busca da luz. Poderíamos também pensar no mito da caverna de Platão.

Tantos são os caminhos e labirintos com água minando das paredes e poças pelo chão que há uma verdadeira estranheza ao percorre-los. Não há guia, a não ser um mapa de toda Quinta entregue na hora que se compra o ticket da entrada, mas, de nada adianta quando adentramos o escuro dos túneis!

O mais extraordinário de tudo são os poços. O primeiro deles é o Imperfeito, ele, comparativamente ao outro existente é completamente rústico. Você desce ou sobe em rampas, com paredes feitas em buracos nas pedras cheias de limo.

Descendo por ele chega-se ao chão em outro nível do jardim e anda-se por mais túneis até chegar ao Poço Iniciático, uma enorme torre invertida, que se afunda 27 metros abaixo da terra, com acesso através de uma monumental escadaria em espiral. Como há lagos e cachoeiras por todo o jardim, este poço tem suas escadarias molhadas pela água que mina por toda sua parede.

Enquanto representação do cosmos, o jardim desvenda lugares imbuídos de magia e mistério. Símbolos esculpidos presentes em vários lugares do palácio, capela, jardins e fontes, revelam referencias à Mitologia, ao Olimpo, aos Poetas e aos Alquimistas. Juntos fazem um conjunto misterioso que demonstra que a capacidade humana de criar é imbatível. É surpreendente! E só ao vivo e a cores pode se conhecer…as palavras não dão conta.