Resiliência, a arte que se faz de contas

Acho que em outra encarnação eu fui índio!

Eu já falei na minha página do facebook, O segredo dos meus olhos, sobre a exposição, No caminho da miçanga – um mundo que se faz de contas, curadoria de Els Lagrou. Fiquei tão fascinada com a beleza das peças e mais ainda com as histórias, que fui visitar mais de uma vez, tamanho encantamento.

A exposição encontra-se no Museu do Índio, aqui no Rio de Janeiro, e apresenta todo o fazer artístico com as miçangas dos povos da África, Ásia e América. Entrelaçado a este fazer encontramos a história do comércio, exploração, encontros e as possíveis relações com o Outro.

Irei me deter aqui em mostrar apenas algumas coisas dos nossos índios brasileiros, pois a exposição é vasta e quem puder e se interessar, poderá ver pessoalmente.

Uma das muitas coisas interessantes dentro de toda a história da mostra é conhecer melhor como as miçangas chegaram aqui e foram bem vindas pelos nativos, trazidas pelas mãos do colonizador. Este, ao oferecê-las pensando estar trocando quinquilharias contra preciosas matérias primas, enriqueceu, e muito, o repertório do fazer dos índios. A maioria deles desejava muito essas contas, vindas do ultramar; talvez por elas serem fascinantes, talvez por modificar a maneira deles mesmos confeccionarem suas contas.

Os índios tinham uma manufatura bem sofisticada e demorada na confecção de suas peças, porque a matéria prima que eles trabalhavam era derivada de sementes, coquinhos, conchas e até dentes de animais. Essas matérias primas precisavam ser cortadas, polidas, uma a uma. Em geral, esse serviço era apenas facultado aos homens, no tocante às conchas de madrepérola, os dentes dos animais e as penas. Os índios achavam que esses objetos possuíam o Karô (espírito) do animal abatido e, por isso, poderiam trazer doenças a quem os manipulasse. As mulheres seriam frágeis para tal, só para alguns homens isto era permitido. Atualmente existe uma divisão sexual do trabalho na produção dos enfeites, modificando a maneira da tribo em encarar a divisão do trabalho. Sinal dos tempos?

 

Reza a lenda que, em algumas tribos indígenas, as miçangas vinham dos espíritos; outras achavam que vinham dos excrementos da lagarta; outras das arvores, ou dos excrementos do Gavião, também chamado de Japu.

Nos primórdios elas foram trazidas pelos colonizadores e eram de vidro de origens tcheca, veneziana, holandesa e chinesa; com o passar do tempo, foram sendo substituídas pelas contas de plástico.

A riqueza da mostra é nos apresentar cada grupo desses continentes com seu tipo de manufatura, lendas e mitos. Esses grupos diferenciam-se uns dos outros pela maneira como confeccionam suas peças, de acordo com seus rituais.

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Precisamos valorizar a cultura indígena num todo, assim com a africana (que também faz parte da mostra), caso contrário, corremos o risco de vê-las extinguirem-se.

Quando comecei a escrever este texto, quis ir mais além na pesquisa para tentar mensurar a diminuição das etnias indígenas no Brasil. Tive a surpresa de constatar que existem apenas estatísticas do IBGE do ano de 2010. Não consegui visualizar outros canais que certamente devem fazer isso, como a FUNAI. Na exposição há dados que mostram alguns povos do Xingu com um número tão pequeno de componentes, que até dá pena, a exemplo dos índios Aruak, com apenas 281 pessoas na sua comunidade.

Se não exigirmos mudanças no governo, das demarcações das terras a outras demandas feitas pelos indígenas, perderemos ainda mais tanta beleza produzida por um povo que foi, aos poucos, diminuindo por inúmeras razões, da falta de reservas para sobrevivência, à mortes por conflitos e até doenças típicas do homem branco, como a gripe e diarreia.

E, para finalizar, uma história curiosa. Reza também outra lenda que nos dá a dimensão do descaso, desde sempre, com os nossos índios. Se for verdade, seria a primeira dizimação biológica brasileira?

“Entre 1575 e 1578. O então governador do Rio de Janeiro, Antônio Salema, um jurista, formado em Coimbra, que tinha como principal característica, odiar os índios Tamoios. Salema pretendia instalar um engenho de cana nas margens da atual Lagoa Rodrigo de Freitas. Como estas terras eram ocupadas pelos Tamoios, Salema usou um método traiçoeiro para exterminá-los: espalhou pelas margens, roupas que haviam sido usadas por doentes de varíola. Os índios decidiram vesti-las e se contaminaram. Acabaram mortos”

Ainda estamos cegos para tanta riqueza desse universo indígena. A exposição também nos mostra a resiliência desse povo, sua riqueza, seu poder de encantamento, enfim, sua linda cultura.

 

Miçanga- derivada de masanga, palavra de origem africana, que significa “contas de vidro miúdas

 

 

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