Arquivo mensal: maio 2016

Um respiro para a alma

Estou sem escrever desde a semana passada. O motivo é a falta de ânimo pela atual conjuntura que estamos vivendo. A pergunta é: como escrever sobre alguma coisa bonita no meio de uma tempestade?

Nos dias atuais, se a pessoa tem um mínimo de sensibilidade, a tendência da alma é ficar doente. Não podemos abrir as redes sociais, a internet, conversar com amigos, sem falar do que está acontecendo nas nossas vidas com essas mudanças radicais que estão acontecendo. Às vezes dá vontade de estar numa ilha deserta, mas onde seria esse oásis? Como poderíamos nos isolar do que nos constitui?

Por isso a postagem que decidi para hoje é falar sobre algo que me deu respiro n’alma e uma comunhão com algo superior, que, na condição de agnóstica, não sei bem explicar.

Esse encanto se deu ao visitar o Sítio de Burle Marx em Barra de Guaratiba, aqui no Rio de Janeiro. Para a visita é necessário o agendamento por email. Nunca gostei de visitas guiadas, prefiro às derivas com surpresas sem programação definida. É assim que conhecemos melhor os lugares, andando, se perdendo, mirando. Entendo a mirada como algo diferente de apenas olhar, ela enxerga com a alma! Foi necessária a visita guiada para conhecer bem o sítio. No meio daqueles caminhos tinha que haver alguma disciplina, e, apesar de amar a natureza e adorar plantas, não sou uma conhecedoras de muitas espécies, achei interessante poder ser guiada e saber seus nomes.

Pois bem, além da natureza que contamina qualquer ser insensível, há os espaços físicos onde Burle Marx vivia, de uma simplicidade inigualável! O bom gosto permeava tudo o que ele tocava. Lá também constatamos que realmente ele foi um pioneiro no paisagismo brasileiro ao colocar nos seus projetos plantas tropicais, inclusive, para horror de muitos, os nossos cactos.

Além de ser mais conhecido como paisagista, Burle Marx era múltiplo na sua incansável criatividade. Pintor, desenhista , designer de jóias e tapeçarias, além de ser um exímio cozinheiro! Encontramos livros de suas receitas para vender no sítio.

Merecidamente está acontecendo agora uma retrospectiva, no Museu Judaico, em NY, de todo esse seu universo artístico, com 140 obras. Não fiquem tristes, essa exposição ainda irá para Berlim, mas chegará ao Brasil em 2017, no MAR- Museu de Arte do Rio.

Enquanto ela não chega, poderemos sempre ver “pedacinhos’ de Burle Marx em vários lugares por aqui, da calçada de Copacabana ao Aterro do Flamengo, esse seu lindo Sítio. Além de tantos outras intervenções que ele fez no Brasil afora.

A importância do olhar sensível do artista é dita nesta frase:

“Tenho influência de tudo o que vi ao longo da vida. Do homem pisando na lua, do que Einstein falava, de Donatello, Braque e Picasso”

Precisamos olhar o mundo com mais ‘miradas’, só assim poderemos ampliar nosso leque de encantamento, mesmo que a vida teime em nos dizer o contrário.

Sítio Burle Marx- Estrada Roberto Burle Marx, nø2019-Barra de Guaratiba- tel 24111412- visitas.srbm@iphan.gov.br

 

 

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Resiliência, a arte que se faz de contas

Acho que em outra encarnação eu fui índio!

Eu já falei na minha página do facebook, O segredo dos meus olhos, sobre a exposição, No caminho da miçanga – um mundo que se faz de contas, curadoria de Els Lagrou. Fiquei tão fascinada com a beleza das peças e mais ainda com as histórias, que fui visitar mais de uma vez, tamanho encantamento.

A exposição encontra-se no Museu do Índio, aqui no Rio de Janeiro, e apresenta todo o fazer artístico com as miçangas dos povos da África, Ásia e América. Entrelaçado a este fazer encontramos a história do comércio, exploração, encontros e as possíveis relações com o Outro.

Irei me deter aqui em mostrar apenas algumas coisas dos nossos índios brasileiros, pois a exposição é vasta e quem puder e se interessar, poderá ver pessoalmente.

Uma das muitas coisas interessantes dentro de toda a história da mostra é conhecer melhor como as miçangas chegaram aqui e foram bem vindas pelos nativos, trazidas pelas mãos do colonizador. Este, ao oferecê-las pensando estar trocando quinquilharias contra preciosas matérias primas, enriqueceu, e muito, o repertório do fazer dos índios. A maioria deles desejava muito essas contas, vindas do ultramar; talvez por elas serem fascinantes, talvez por modificar a maneira deles mesmos confeccionarem suas contas.

Os índios tinham uma manufatura bem sofisticada e demorada na confecção de suas peças, porque a matéria prima que eles trabalhavam era derivada de sementes, coquinhos, conchas e até dentes de animais. Essas matérias primas precisavam ser cortadas, polidas, uma a uma. Em geral, esse serviço era apenas facultado aos homens, no tocante às conchas de madrepérola, os dentes dos animais e as penas. Os índios achavam que esses objetos possuíam o Karô (espírito) do animal abatido e, por isso, poderiam trazer doenças a quem os manipulasse. As mulheres seriam frágeis para tal, só para alguns homens isto era permitido. Atualmente existe uma divisão sexual do trabalho na produção dos enfeites, modificando a maneira da tribo em encarar a divisão do trabalho. Sinal dos tempos?

 

Reza a lenda que, em algumas tribos indígenas, as miçangas vinham dos espíritos; outras achavam que vinham dos excrementos da lagarta; outras das arvores, ou dos excrementos do Gavião, também chamado de Japu.

Nos primórdios elas foram trazidas pelos colonizadores e eram de vidro de origens tcheca, veneziana, holandesa e chinesa; com o passar do tempo, foram sendo substituídas pelas contas de plástico.

A riqueza da mostra é nos apresentar cada grupo desses continentes com seu tipo de manufatura, lendas e mitos. Esses grupos diferenciam-se uns dos outros pela maneira como confeccionam suas peças, de acordo com seus rituais.

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Precisamos valorizar a cultura indígena num todo, assim com a africana (que também faz parte da mostra), caso contrário, corremos o risco de vê-las extinguirem-se.

Quando comecei a escrever este texto, quis ir mais além na pesquisa para tentar mensurar a diminuição das etnias indígenas no Brasil. Tive a surpresa de constatar que existem apenas estatísticas do IBGE do ano de 2010. Não consegui visualizar outros canais que certamente devem fazer isso, como a FUNAI. Na exposição há dados que mostram alguns povos do Xingu com um número tão pequeno de componentes, que até dá pena, a exemplo dos índios Aruak, com apenas 281 pessoas na sua comunidade.

Se não exigirmos mudanças no governo, das demarcações das terras a outras demandas feitas pelos indígenas, perderemos ainda mais tanta beleza produzida por um povo que foi, aos poucos, diminuindo por inúmeras razões, da falta de reservas para sobrevivência, à mortes por conflitos e até doenças típicas do homem branco, como a gripe e diarreia.

E, para finalizar, uma história curiosa. Reza também outra lenda que nos dá a dimensão do descaso, desde sempre, com os nossos índios. Se for verdade, seria a primeira dizimação biológica brasileira?

“Entre 1575 e 1578. O então governador do Rio de Janeiro, Antônio Salema, um jurista, formado em Coimbra, que tinha como principal característica, odiar os índios Tamoios. Salema pretendia instalar um engenho de cana nas margens da atual Lagoa Rodrigo de Freitas. Como estas terras eram ocupadas pelos Tamoios, Salema usou um método traiçoeiro para exterminá-los: espalhou pelas margens, roupas que haviam sido usadas por doentes de varíola. Os índios decidiram vesti-las e se contaminaram. Acabaram mortos”

Ainda estamos cegos para tanta riqueza desse universo indígena. A exposição também nos mostra a resiliência desse povo, sua riqueza, seu poder de encantamento, enfim, sua linda cultura.

 

Miçanga- derivada de masanga, palavra de origem africana, que significa “contas de vidro miúdas

 

 

Dr. Borracha, o guardião da floresta

José Rodrigues, mais conhecido como “Dr. Borracha”, é um artesão/seringueiro/guardião da floresta do Acre. Começou a trabalhar na extração do látex aos 10 anos de idade, ofício que aprendeu com seu pai que também era seringueiro.

Dr. Borracha

José Rodrigues e Lene, sua mulher

Vou mais longe ao dizer que ele é um verdadeiro artista, principalmente por ter conseguido impingir sua marca ao criar suas sandálias/sapatos de látex.

O que diferencia um artesão de outro? É exatamente criar o seu produto, feito da mesma matéria dos demais, com uma personalidade própria. Isso acontece em várias comunidades de artesãos que trabalham com matérias diversas como a borracha, o barro, a palha, a madeira e tantas outras que temos nesse vasto e rico ‘Brasis’. Há sempre expoentes que se destacam pelas singularidades em seus trabalhos.

José mora no meio da floresta, não sabe ler, nunca foi à escola, não tem computador. Mas é mestre em fazer sandálias de borracha a partir da extração da seiva dos seringais acreanos.

Graças a um curso ministrado pela UnB (Universidade Federal de Brasília), ele aprendeu uma técnica em que são produzidas ‘folhas de látex’, as chamadas Folha Semi Artefato (FSA). Essas folhas são produzidas por ele e coloridas com a ajuda da sua mulher Lene.

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folhas coloridas de látex

Suas palavras são poéticas: “o povo do Acre sempre diz que a seringueira é como uma mãe. A gente pega o leite dela para conseguir o leite das nossas crianças. Assim fui criado. Por isso digo que sou um defensor da floresta, pois eu não derrubo a floresta, eu dependo dela pra viver’

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Há uma enorme importância nesta sua fala na medida que vemos uma pessoa consciente do seu dom, conciliando seu produto à preservação da natureza. Isto é o melhor que temos em termos de sustentabilidade: preservar a natureza e ainda retirar lindos ‘frutos’ dela. Ahhh, se todos fossem iguais a você, Dr. Borracha! O mundo seria muito melhor!

É bom lembrar que a figura do seringueiro Chico Mendes ainda permanece nas nossas lembranças como o grande defensor da Amazônia. Assim como Chico, José nos ensina que é possível explorar a natureza com consciência. “Quando casei e cheguei aqui (Epitaciolândia, a 243 km de Rio Branco) o pessoal nem sabia que tinha seringueira na região. Só derrubavam árvore para criar gado”. Aos poucos ele foi ensinando a comunidade a extrair o Látex, que havia tido uma redução de uns 60% da atividade. No passado a extração do látex era uma cultura bastante forte.

José não está só, ao compartilhar com a comunidade o seu saber, ele forma uma cadeia produtiva em torno da cultura do látex. Isto é importante para sua subsistência e para fomentar o desenvolvimento sustentável na região. Não é surpresa ele ter recebido, em 2014, o Prêmio Chico Mendes de Florestania.

Que esse guardião da floresta da Amazonia nos ensine, com a beleza de seus frutos,  a cada vez mais valorizarmos cada pedacinho dela.

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