Arquivo mensal: abril 2016

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Quando estive em Nova York, na década de 1980, fui ao Whitney Museum na sua antiga sede, em Upper East Side, e fiquei extasiada com a obra Calder’s Circus, de Alexander Calder.

Além das peças expostas do Circo, havia um vídeo do próprio artista manipulando seus personagens. A engenhoca funcionava super bem! Fiquei imaginando o próprio Calder elaborando cada personagem, da dançarina do ventre ao atirador de facas; do equilibrista ao domador de leão, cada qual com detalhes sutis nas suas vestimentas e nos seus movimentos. O resultado era uma alegria para os olhos e a volta às brincadeiras da infância. Ele mesmo parecia uma criança ao encenar seus personagens.

Voltei recentemente a Nova York e fui ao novo Whitney. Belo prédio à beira do Rio Hudson, criado pelo arquiteto Renzo Piano e inaugurado em 2015. Fala-se que, a princípio, havia apenas a ideia de uma ampliação da antiga sede, mas a vizinhança do aristocrático bairro de Upper East Side bateu o pé e não permitiu.

Nessa mesma época, a prefeitura de Nova York realizava uma enorme transformação em uma velha linha férrea, ao sul de Manhattan, a High Line. Esta linha passava por uma área de matadouro, frigoríficos e de grandes galerias de arte contemporânea, que foram ocupando aos poucos alguns dos antigos galpões. Veio a calhar a mudança! A prefeitura então ofereceu um terreno para ser construído o novo museu. A área se valorizou ainda mais com toda essa reforma.

Tive o prazer de rever o Circo. A emoção de tantos anos ainda estava à flor da pele. Acredito que as recordações boas vem em lufadas de ar de tempos em tempos. Há um estado de êxtase quando nos deparamos com algumas manifestações artísticas, que mais parece um efeito de alguma droga. A arte tem o dom de fazer isto! Mexe conosco, traz novos sentimentos, nos faz refletir e pensar de uma maneira diferenciada sobre a vida. Nos alimenta de um tipo de gás hélio que nos faz levitar…

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Para além do nosso umbigo

Não é de hoje que o estilista Ronaldo Fraga faz a diferença. Há alguns anos, na SPFW N 29, em 2011, ele trabalhou com uma comunidade que faz bordado na cidade de Passira, no Agreste Pernambucano. Criou sua coleção Turista Aprendiz baseado nesses lindos bordados feitos pelas artesãs da comunidade.

Nesse mesmo ano, o estilista realizou a exposição Rio São Francisco navegado por Ronaldo Fraga: cultura popular, história, moda. Durante 3 meses ele bebeu naquela fonte, o caudaloso Rio São Francisco, para criar sua coleção que derivou nessa grande mostra. Lá ele reviveu as histórias e estórias contadas por seu pai, que sempre ia ao São Francisco pescar, e colocou na sua arte as reminiscências dessa infância.

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Bordadeiras de Passira

Nestes dias de plena era de desterro para tantos, dos Sírios aos Africanos, passando pelos Palestinos, ele resolveu criar sua nova coleção na interação com esses povos e sua cultura. Mas essa interação vai além das roupas criadas. Ele convidou alguns desses exilados para desfilarem na SPFW N41 (foto acima). A congolesa Fanny-Mudingayl, os sírios Nour Koeder e Nawras Alhaibi, o senegalês Alassane-Diaw e o palestino Leon Diab, são alguns membros da diáspora que assola esse mundão afora. Todos eles vêm com o coração cheio de esperança de encontrar um mundo melhor e possível de se viver. Nesse contexto, além de nos premiar com uma coleção bela, reforça que a moda pode ser vinculada à cultura e pode ser também um vetor social.

Parabéns ao Ronaldo e a todos os que pensam o mundo de uma forma mais ampla!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Colares de Tucum

Os Surui de Rondônia se autodenominam Paiter, que na língua significa “gente de verdade, nós mesmos”.

As ameaças e violências sofridas, motivaram a luta desse povo pelo reconhecimento e integridade do seu território, mantendo a vitalidade de suas tradições.

As mulheres Surui fazem colares de voltas a partir de várias matérias-primas. Os colares de contas de tucumã são feitos com coco de tucum, um coqueiro típico da região amazônica, quebrados, cortados com faca, perfurados, enfiados em uma linha amarrada em duas pontas e lixado com pedra, por vezes numa extensão de dez metros ou mais. O colar é usado por homens, mulheres e crianças de várias maneira e em várias partes do corpo.

Colar surui

Penso que, em tempo sombrio pelo qual estamos passando, fica difícil postar as belezas do mundo. Os amigos cobram a continuidade disso, afinal esse blog foi criado com a intenção de apresentar tantas possibilidades de criação. Então reflito, se de um lado pode parecer supérfluo mostrar alguns encantos dos meus olhos, na atual conjuntura; do outro, a vida pulsa continuamente até nosso ultimo suspiro, e não podemos esmorecer nem perder nossa sensibilidade, nosso encanto e o nosso deslumbramento. Lembro-me das lindas palavras de Otavio Paz:

O artesanato não quer durar milênios nem está possuído da pressa de morrer prontamente. Transcorre com os dias, flui conosco, se gasta pouco a pouco, não busca a morte ou tampouco a nega: apenas aceita este destino. Entre o tempo sem tempo de um museu e o tempo acelerado da tecnologia, o artesanato tem o ritmo do tempo humano. É um objeto útil que também é belo; um objeto que dura, mas que um dia, porém, se acaba e resigna-se a isto; um objeto que não é único como uma obra de arte e que pode ser substituído por outro objeto parecido, mas não idêntico. O artesanato nos ensina a morrer e, fazendo isso, nos ensina a viver

 

Renascença ou Fascinator

Minha filhota casou em setembro do ano passado. O casamento foi à tarde na linda Oficina do Brennand, no Recife. A capela da Oficina é bem rústica, rodeada de mata atlântica. Muito verde, muita arte. O projeto é de Paulo Mendes da Rocha.

Para a ocasião, comprei este fascinator* ou casquete* ( as definições estão abaixo, pois se confundem) em Nova York, no East Village. Fiquei fascinada com a lojinha charmosa da Barbara Feinman, parecia que estava vivendo um episódio de Sex and the City. Ela mesma quem cria as peças.

Queria também colocar algo no vestido, de cor caménerè, para quebrar um pouco o escuro da cor, mas vi que teria que decidir em apenas um acessório, do contrário pareceria uma dama do séc XIX saída de um romance. O facinator prevaleceu, então deixei a bela gola/colar, criação do estilista alagoano Marcus Telles, para usar em outras ocasiões.

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Gola de Renascença de Marcus Telles

Vão as definições, para quem tem dúvidas, do que é Fascinator e e Casquete.

Fascinator– Tecnicamente é apenas um adorno de cabelos feito de plumas, penas e pedrarias. É comumente confundido com casquete, mas a diferença está justamente no material. Pode ser usado de dia e de noite.

Casquete– Criado na déc de 40, pós-guerra, algumas vezes é confundido com o fascinator. Ele é um pequeno chapéu, sem abas, redondo ou oval, estruturado e geralmente usado na lateral da cabeça. É mais comumente usado à noite.

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A iconografia da matéria

Ontem fui ao CRAB- Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, no Fórum Mercado Rio Criativo. Fiquei encantada com o espaço e a proposta do lugar. Na exposição que está lá, com curadoria de Adélia Borges e Jair de Souza, podemos ver um recorte do artesanato de origem vegetal brasileiro. Belas peças, colocaria muitas delas na minha casa e usaria tantas outras. O que mais me encantou foi a sala onde  há uma iconografia da matéria. A natureza é bela e nos dá “frutos”para perpetuarmos esta beleza.

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Mulheres de Fibra

FIBRA DA BANANEIRA

O Filé, bordado tradicional alagoano, confeccionado comumente com linhas de algodão, ganha nova versão com a fibra do tronco da bananeira. As responsáveis por esta mudança são as artesãs alagoanas.

Provenientes de assentamentos rurais, essas mulheres se uniram, em 2008, com o intuito de transformar o artesanato em uma oportunidade de vida.

Com sensibilidade, criatividade e algumas combinações de pontos de Filé, as Mulheres de Fibra,criam peças belíssimas e, ao mesmo tempo, realizam uma prática ecologicamente correta. Na agricultura, depois que as bananeiras chegam a sua maturidade, seu fruto é colhido e seu tronco descartado, onde viram matéria orgânica. Elas aprenderam a aproveitar a matéria prima do tronco graças à assessoria do SEBRAE e APL de Turismo Costa dos Corais.

Hoje, essas mulheres realizam um trabalho riquíssimo, que valoriza não só a tradição, elas ampliam a possibilidade de um mundo mais sustentável.