A Odisseia para o caminho de Portugal

Resolvi escrever sobre o caminho que tive para conseguir um visto no Consulado Português.

Fui pega desprevenida. Cheguei no consulado desavisada, sem agendamento, com uns documentos que amigos haviam me dito para levar e me deparei com esse caminho que relato adiante, até como forma de ajudar a não estressar a quem precise.

Vamos lá! Primeiro coisa, NÃO vá ao consulado sem antes realizar o agendamento online, você irá quebrar a cara, vão mandar você voltar!

Vou dar o passo a passo, inclusive com ilustrações do caminho ( porque para localizar o site foi bem complicado até achar o caminho certo para preencher o tal Visto de Shengen. Visto este que dá início ao processo da tirada do seu visto com o agendamento no consulado.

Quem pensa que o site é http://www.consulados.com.br/portugal/ também irá quebrar a cara. Nesse endereço só há os endereços, e-mails, telefones e horários de atendimento dos consulados de todo o Brasil.

1) Primeiros passos:

  • Vá ao endereço certo: https://www.portaldascomunidades.mne.pt/pt/
  • Este é a porta mágica para você achar tudo! Mas estou aqui justamente para facilitar um pouco mais a sua vida e tentar fazer você não perder tantas horas e viagens perdidas às instituições. Então vamos juntos para cada paço.
  • Entre no portal do endereço acima. Clique na barra de cima onde está escrito “Visto” .
  • Captura de Tela 2017-09-14 às 10.55.46Clique na barra lateral onde está escrito “Faça sua solicitação de visto”

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  • Você vai entrar numa página que tem um monte de bandeirinhas de países. Então você vai na bandeirinha de Portugal. Não clique na primeira linha onde está escrito “Formulário de visto”,  é o formulário em PDF para você imprimir….e talvez preencher a mão…. mas você terá obrigatoriamente de preencher eletronicamente, senão não irá aparecer a data de agendamento ao final do processo.

 

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  • Clique na segunda linha em “Solicitar um pedido de visto”. Não perca nunca sua persistência e paciência, ainda estamos no começo! Você vai achar que não deu certo, pois quando você clica, demora um tantinho para fazer loading do formulário.
  • Aberto o formulário, você irá preencher com cuidado. Atenção! Mesmo que o pedido de duração do visto seja para um ano ou mais, o sistema, na hora do preenchimento, não aceita mais de que 90 dias. Dará erro se você tentar mais que isso. Qualquer erro que der, eles avisam em grifos vermelhos e você terá que ajeitar, do contrário não conseguirá chegar ao final e receber o calendário de agendamento. Não tenha medo de colocar 90 dias. Ao chegar ao velho mundo você ainda terá outro caminho, pois terá que agendar no SEF (Serviço de Imigração), que, e pelo que me disseram, é lá que eles renovam os dias necessários para sua estadia prolongada!

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Se conseguir chegar até o fim do preenchimento terá aparecido um calendário com data e hora disponíveis no consulado da sua cidade. Chegará no seu email o utilizador e a palavra chave que você irá usar para acompanhar o pedido online. Imprima esse formulário e boa sorte para a segunda etapa da Odisséia!

  • ATENÇÃO! Mais um aviso antes de continuar. Nem tente ir como turista achando que depois de três meses lá no SEF você conseguirá o visto de permanência. Eles te mandam de volta para você fazer aqui e viajar com o certo!

2) Com o agendamento realizado, dirija-se ao Consulado Português da sua cidade, ou cidade contígua. Com a seguinte papelada:

  • Passaporte (atentar para o vencimento! tem que ter validade de mais de 3 meses após o fim da duração do visto) ORIGINAL E CÓPIA AUTENTICADA
  • RG e CPF  ORIGINAL E CÓPIA AUTENTICADA
  • 2 fotografias 3 x 4
  • Formulário preenchido (do item 1), impresso, com espaço para colocar a foto.Captura de Tela 2017-09-14 às 15.27.30
  • Declaração do próprio punho, assinada, especificando o motivo do pedido do visto, nome da instituição de ensino, data de início e fim do curso, local de alojamento
  • Carta de aceitação emitida pela instituição ou inscrição no curso pretendido
  • Comprovativo de meios de subsistência = Comprovativo de Bolsa de Estudo que conste o montante recebido, se for o caso; ultima declaração do imposto de renda; termo de responsabilidade de familiar, se for o caso, com ASSINATURA RECONHECIDA dizendo que se responsabiliza por todas as despesas do aluno durante toda a estadia dele. ( nesse caso é necessário a declaração do imposto de renda desse responsável e os três últimos contracheques. E também comprovante de parentesco. VALE RESSALTAR AQUI QUE O CONSULADO ACHA NECESSÁRIO QUE VOCÊ TENHA NO MÍNIMO 1.500,00 EUROS/MENSAIS PARA SUA SOBREVIVÊNCIA LÁ!
  • Comprovativo de alojamento. SE VOCÊ AINDA NÃO TIVER, É BOM RESERVAR UM HOTEL NO BOOKING.COM, POR UMA SEMANA (EXIGÊNCIA DO CONSULADO) POIS CASO ENCONTRE SUA FUTURA CASA APÓS O AGENDAMENTO, VC PODERÁ CANCELAR SEM ONUS. SE TIVER ALUGADO ALGUM LUGAR, TERÁ QUE LEVAR O CONTRATO COM RECONHECIMENTO DE FIRMA LÁ EM PORTUGAL E IDENTIDADE DO LOCATÁRIO (O QUE É MAIS COMPLICADO). SE FOR FICAR EM ALOJAMENTO DA UNIVERSIDADE TEM QUE TER DECLARAÇÃO DA UNIVERSIDADE.
  • Seguro médico internacional de viagem, válido pelo período que permanecer em Portugal com cobertura de 30.000 Euros, repatriação por motivos médicos, necessidade e tratamento hospitalar de emergência. ESSE CAMINHO É MAIS CARO, MAS QUEM PODE, PODE, E É MAIS INTERESSANTE E RÁPIDO. VC PODE REALIZAR A PESQUISA NAS SEGURADORAS POR SITE E CONTRATAR SERVIÇOS VIA SITE MESMO!
  • Caso não contrate um seguro uma outra opção é fazer o PB4, que é o INSS de lá. Mas bemmmmm, bem melhor do que o nosso daqui! Para isso você terá que ir na FUNASA tirar esse PB4. Tem  que levar xerox dos seguintes documentos, identidade, cpf, passaporte, seu NIT ou PIS, comprovante de residência e carta de aceite da universidade ou curso. ESSE DOCUMENTO SAIRÁ DEPOIS DE 5 DIAS UTÉIS. OBS: CASO OPTE PELO PB4,  TAMBÉM TERÁ QUE COMPROVAR NO CONSULADO TERMO DE RESPONSABILIDADE ACIMA. ISTO É, QUE TERÁ CONDIÇÕES FINANCEIRAS PARA REALIZAR REPATRIAÇÃO OU ARCAR COM MAIORES CUSTOS DE SAÚDE, ETC.
  • Atestado de antecedentes criminais. http://www.pf.gov.br/servicos-pf/antecedentes-criminais. TIRAR NESSE ENDEREÇO ACIMA, MAS TEM QUE APOSTILHAR. O APOSTILHAMENTO NADA MAIS É QUE UMA AUTENTICAÇÃO INTERNACIONAL. TEM QUE PROCURAR SABER QUAIS CARTÓRIOS EM SUA CIDADE FAZEM ISSO, POIS NEM TODOS FAZEM.
  • Existem ainda algumas declarações necessárias que o próprio consulado te dá na hora para preenchimento, dependendo de cada caso, tais como: Termo de Responsabilidade de meio de Subsistência entre outros. Declaração que se compromete a só viajar com o visto certo, etc.
  • Aqui vai a dica mais importante de todas: NÃO COMPRE A PASSAGEM ANTES DE REALIZAR OS PASSOS DESSA ODISSÉIA. O prazo que o Consulado te dá para o visto é de 30, 40 a 60 dias, mas é melhor apostar nos 60 dias, pois o volume de pedidos nesse ano triplicou, e, pelo que me consta, não tem saído antes desse prazo! Vi pessoas que estavam a 65 a 75 dias e nada! O volume está sendo maior agora, acredito, pelo ano letivo de lá que se inicia agora. O conselho é que você vá pesquisando as tarifas aéreas e projetando a compra.

Caí na besteira de comprar projetando os 30 dias, porque sou uma otimista por natureza e acabei cancelando o meu voo. Esse foi o conselho da companhia de aviação, pois se tivesse remarcado sem saber quando realmente chegaria o visto, era multa em cima de multa. No caso, só a multa para o cancelamento foi mais ou menos oitocentos e poucos reais, além da diferença da tarifa!!!! Quase uma passagem nova! Você não irá querer isso, né?

Agora a ultima parte da Odisséia. Segure o coração, faça muita meditação e yoga!

3) Você vai entrar no Portal das Comunidades e vai fazer o caminho exato que fez para o preenchimento do Visto de Schengen até chegar as bandeirinhas. Vai clicar “Verificar Estado”. Irá aparecer isso abaixo. Tá lembrado do utilizador e palavra chave que chegaram no email confirmando seu agendamento? Pois eles serão usados agora!

 

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Depois de colocado irá aparecer afinal o seu status….

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Aconselho você abrir o status só depois de chegar perto dos 30 dias para não surtar. Pode até chegar aos 40 dias. Muita paz e meditação nessa hora, não abra 10 vezes por dia!!! Geralmente eles atualizam no começo da manhã, segure a ansiedade…E, se estiver perto dos 60, vc terá o benefício de já estar expert na prática da meditação!  Depois dos 60, sinal de alerta, caso você ainda esteja nos estágios 1 ou 2, vá ao consulado para falar sobre isso, não adianta telefonar! Eles te ajudam e tentam rastrear o seu passaporte a partir desse tempo.

Mas dirija-se ao Consulado para saber o que vc pode fazer com muita delicadeza. Não adianta gritar, chorar, espernear ou contar toda a sua vida para os atendentes, pois eles não irão resolver antes dos 60 dias. Eles ouvem queixas de todos os tipos, todos os dias! Lembre-se que os pedidos triplicaram e os funcionários são os mesmos ou até diminuíram. Lembre-se também que o passaporte sai do Brasil, viaja para Portugal, antes mesmo que você e volta ao Brasil para os consulados te entregarem. Lembre-se também que o visto te dá entrada para a comunidade européia, cujos problemas de terrorismo e imigração é objeto de muita preocupação dos governos.

Nessa verdadeira Odisséia, a essa altura, você estará louco para ir morar logo na terra deles! Então é de bom tom começar a entender que é assim e pronto! E que se vc começar a falar mal do jeito do português, da burocracia deles (igual a nossa, ou vc não sabia disso?), você estará minimamente entrando em contradição com o seu desejo de conviver com eles, no país deles…Então pense nisso! É um verdadeiro exercício de sabedoria, viver com os nossos e vossos problemas…com coerência!

Boa sorte!

 

 

 

 

 

 

 

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Fuxico Estrela

Hoje vou falar de um trabalho lindo, pouco conhecido, que é chamado de Fuxico Estrela, Hexágono ou Fofoca. Esse lindo trabalho é conhecido por todos esses nomes e como a sua construção tem um pouco de tudo isto do qual é batizado, fica difícil saber qual é o nome correto.

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Fuxico Estrela

Estava eu nas minhas andanças olhando artesanato com minha amiga querida e também apreciadora de coisas lindas, Cristiana Tejo, no Centro de Artesanato de Pernambuco, no Recife, quando me deparei com dois desses trabalhos no meio das pilhas de colchas de crochê,  de linhas e patchwork. Fiquei com um e Cristiana com o outro. Tal era nosso encantamento que uma recepcionista se aproximou e falou que se tratava do artesanato chamado de “Fofoca”. Eu já conhecia o Fuxico, quem não o conhece?

Diz a lenda que o Fuxico surgiu há anos trazidos pelos escravos. Quando eles se juntavam para costurar, usavam as sobras dos tecidos dos seus senhorios e aproveitavam para fazer fuxico dos mesmos. Fuxico pelo dicionário quer dizer: futrica, intriga, mexerico.  E também: cerzidura ou remendo malfeito.

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Fuxico

Os produtos em questão eram caminhos de mesa com a elaboração de flores em hexágono, sem emendas. Pensei: meu Deus, essa peça tem a sofisticação de um origami, como se faz isso? Comprei e levei para casa para analisar melhor. Com enorme curiosidade desmanchei uma das florzinhas e vi que se tratava  de um hexágono com dobraduras, como eu já havia previsto. Tentei repetir em outro tecido amassando a peça, passando ferro e não consegui chegar a um resultado satisfatório. Pensei comigo, deve haver uma lógica para sua construção, por mais difícil que possa parecer a confecção, há uma lógica!

O legal nos produtos do Centro de Artesanato é que eles colocam em cada um deles uma etiqueta do artesão, de onde ele é e o seu telefone. Lá estava o nome de D. Maria José e, por sorte minha, ela morava em Olinda. Liguei para ela e elogiei o trabalho, falei que queria aprender como fazia aquela belezura e se ela poderia me ensinar. Ela me falou que participava de uma “cela” na Casa da Cultura do Recife, com um grupo de Terceira Idade.

A Casa da Cultura, para quem não conhece é um prédio lindo em estilo Neoclassico que foi a antiga Casa de Detenção do Recife. Inaugurada em 1855, foi o projeto mais inovador de prisão àquela época, não só pelo seu estilo arquitetônico, mas também pelo seu funcionamento. Havia uma preocupação com a inserção da instituição na vida social do bairro e até da cidade, inclusive conta-se que o melhor pão da região era aquele produzido pelas mãos dos detentos na panificadora do presídio. E os pentes de chifre e as coleções de jogo de botão fabricados ali tinham fama pela sua qualidade. Além disso, o primeiro estandarte do Vassourinhas foi bordado também dentro do presídio. Tudo isso sem falar que os detentos ainda formavam times de futebol e tinham uma biblioteca à sua disposição. Em 1973 a Casa de Detenção foi desativada e restaurada por Lina Bo Bardi e Jorge Martins Junior, sendo inaugurada em 1976 como Casa da Cultura de Pernambuco. Suas celas viraram lojinhas de artesanato e foi lá numa delas que eu encontrei D. Maria José com outras senhoras que realizam e comercializam seus respectivos artesanatos.

Fui recebida com muito carinho. Ela ficou emocionada pelos meus elogios. É interessante aqui apontar que figuras como D. Maria José, que possuem um talento enorme, não conseguem perceber o quão importante é aquilo que fazem. Talvez porque no geral as pessoas não dão muito valor ao artesanato; talvez por conta, no caso específico dela, que fez por muito tempo o seu artesanato escondido, pois o seu marido não a deixava trabalhar; ou talvez porque, apesar da sofisticação encontrada em alguns artesãos, a grande maioria ainda faz seus produtos para um publico específico, o popular, aos moldes do que é vendido em feirinhas de artesanato em todo o país. Carecem de uma percepção maior na harmonia das cores, dos pontos e nas misturas de materiais. Por exemplo, ela me mostrou o mesmo trabalho do hexágono com uma mistura de crochê, que não combinavam entre si, até brigavam. Mas não cabia a mim interferir, esse é o universo delas! E embora eu tenha tido uma enorme vontade de dar alguns “pitacos” sobre o que eu achava mais interessante para a confecção, tive de me conter, pois eu ali era uma convidada e curiosa do saber que elas detinham. Descobri que apesar de pensar diferente do seu universo, há público para o que elas fazem. Tanto que no tempo em que permaneci lá aprendendo o hexágono, os turistas interessados nos produtos delas chegavam aos montes.

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Feito por mim e ainda em construção

Enfim, como eu previa. Havia uma lógica para a construção daquela singela de florzinha e eu aprendi!!!  Ela falou que o nome “Fofoca” é dado a um outro ponto parecido com o “Colméia” ou “Casa de Abelha”. A generosidade de D. Maria José foi tamanha que acabei comprando o que podia dela, pois queria de alguma forma retribuir tamanha gentileza. Quando perguntei se ela aceitava encomenda, ela me respondeu: “minha filha, meus dedos já estão duros e doem muito. Eu te ensinei para você mesma fazer, porque fica difícil para mim pegar muitas coisas hoje em dia para fazer”. Então eu pensei, que pena! D. Maria José, com todo seu talento, começou a produção com a limitação de esconder do marido. Agora que ela já não escondia mais e que conseguiu sair de casa e participar de um grupo vendendo o seu trabalho, tem outra limitação muito pior que a primeira, a da dificuldade física. Mundo injusto esse nosso! Nunca vou me esquecer da sua generosidade e gentileza. O mundo precisa de mais pessoas assim!

 

 

 

Nhô Caboclo, exuberância de gestos e palavras

Manoel Fontoura é um genuíno artista!

Mais conhecido como Nhô Caboclo, era uma figura excêntrica, alegre, contador de histórias e se descrevia assim:

(…) Eu me chamo assim, não sei como vim antes. Só sei que me chamo assim-de um lado o bruxão. Nasci na aldeia de Águas Belas, na serra de Urubá. Eu não sou índio, como o pessoal aí diz; eu sou caboclinho: casco de cuia, venta chata, pele vermelha, gente que não presta nem para morrer (…)

O único trabalho que motivava Nhô Caboclo era dar forma ao que vinha de seu ‘corgo’, palavra usada por ele para descrever o que seria a inspiração.

(…) mas tenho corgo, que é a pessoa fechar os olhos e, o que vier no sentido, fazer (…)  

Baseado em seu ‘corgo’, ele criou uma simbologia própria ao dar forma a personagens do seu universo pessoal.

Na tradição da arte popular, onde a prática de ensinar o ofício é passada por gerações, Caboclo, deixou poucos seguidores . Adriano Jordão de Souza é um deles. Trabalhou com Nhô Caboclo já nos últimos anos de sua vida, quando foi seu auxiliar. Mais recentemente outro discípulo, o José Alves, começou a fazer um trabalho baseado nas figuras e nos objetos em movimento do seu mestre, mas, na minha opinião, ambos estão longe da beleza e riqueza da obra do Nhô Caboclo.

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Trabalho de Nhô Caboclo que está no Museu do Pontal-Rio de Janeiro

(…) O pessoal me conhecia como bonequeiro de Casa Amarela (…) Antigamente eu fazia talha, mas muita gente pegou a trabalhar igual, aí eu deixei para ser diferente dos outros. Esses que fazem talha, para mim, são apenas uns desenhistas em corte (…)

Suas peças eram esculpidas em madeira e seus personagens representavam figuras que pareciam índios, caboclos, negros. Utilizava penas de aves em alguns personagens, com isso, reforçava a imagem de um protótipo de guerreiro. Além da madeira, ele também usava outros materiais como folhas-de-flandres, panos, cabaças. Tudo confeccionado com instrumentos criados por ele próprio, facas afiadíssimas, estiletes feitos de hastes de guarda-chuva. Suas peças tinham o equilíbrio perfeito e uma engenhoca que dava movimentos aos barcos e rodas-d’água. Tinha uma estrutura tão sofisticada, que fazia tudo se mover ao mesmo tempo quando eram acionadas as roldanas e hélices. Ele dizia que deixou de trabalhar com o barro, porque não se fazia um lutador com espada de barro. O barro para ele era uma matéria pesada, e ele adorava a leveza do movimento.

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Nhô Caboclo, acervo do Museu do Homem do Nordeste-Recife

É assim, alguns criadores conseguem impingir sua marca de uma forma tão pessoal e profunda que mesmo os seus seguidores, quando tentam repetir, não conseguem. Não porque seja difícil ‘copiar’ um estilo. O ‘ser’ virtuoso pode acontecer para muitos, mas não basta ter o virtuosismo técnico se não há ‘o corgo’.

O estilo único que torna a digital do artista não pode ser replicado. Mas à questão de autoria na arte popular isto é  mais complicado, pois, na prática, haverá sempre um mestre para seus discípulos. Um discípulo quando tenta replicar a obra do mestre, na maioria das vezes, produz um simulacro, algo sem alma e sem identidade. Raramente um discípulo supera o seu mestre.

Podemos dizer, de qualquer forma, que a mão humana que esculpe o barro ou a madeira, que trança a palha, que borda ou trabalha no tear, tem também digitais, pois é bem diferente de um trabalho mecanizado. Mas só alguns conseguem uma identidade própria e, geralmente, são aqueles que vão na contramão da tradição, que quebram padrões estabelecidos pela cultura vigente no seu meio. Esses para mim são os verdadeiros artistas. Perceber isso é também descobrir e aceitar o diferente no meio do mesmo. É saber ‘olhar’.

A filósofa Márcia Tiburi, fala da importância e diferença entre ver e olhar. (…) O olhar, portanto, é perceber, é existir, é conviver; vai além da ação rela de enxergar; é a nossa condição de tolerância com o outro. O olhar perturba, angustia, instiga, prende a atenção, provoca reação e remete ao pensar (…)

Nhô Caboclo tinha um olhar especial sobre seu próprio trabalho. Ele era orgulhoso do seu saber, de seu fazer.

(…)Eu não imito ninguém. Tudo o que eu faço é carcatura minha mesmo, as carcaturas que eu quero fazer. Antigamente eu prinspiei a fazer um piscuí de acubagem. Uma pecinha morta, não tinha graça. Depois eu peguei a fazer peça manual pra trabalhar no vento, com um corta vento, ligado a um vaivém, do jeito da máquina do trem que locomove uma elce. Aí a elce trabalha e em tudo que o vaivém tiver enganchado tem que bulir: todo mundo trabalhando(…)

Caboclo começou a produzir desde cedo ainda na fazenda onde morava em Garanhus. Não tinha registro de nascimento, não sabia sua idade. Na realidade era um pária na sociedade. Seguia apenas sua criação, ou melhor dizendo, o seu ‘corgo’. No início, quando as pessoas pagavam algo pelos seus trabalhos, ele colocava o dinheiro no mato ou jogava no rio , porque dizia que era um dinheiro grande e feio.

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Um de seus discípulos, José Alves

Nhô Caboclo teve uma vida completamente desregrada. Podia passar um mês só tomando café. Às vezes comia cinco quilos de peixe de uma vez só! Falava que tomava banho de vez em quando e tranquilamente dizia que já havia passado uns doze anos sem tomar. Veio para o Recife e teve uma vida de nômade. Na cidade percebeu que as pessoas gostavam do seu trabalho e então começou a cobrar por eles, colocando os preços que achava justo. Dizia odiar os pechincheiros. Preferia trocar uma peça por um cigarro ‘de um maloqueiro’, do que baixar seu preço para um ‘pechincheiro’.

Sua comunicação com o mundo apesar das excentricidades era cheia de prosa.  Quando perguntado sobre o porquê de nunca ter se casado, ele respondeu com essa pérola:

(…) Uma mulher é mais cara do que uma cabra. Uma cabra a gente amarra num pé de pau e ela ainda dá leite. Mulher não, fica em casa como passarinho no ninho, com bico aberto: ‘Marido, quero comida; marido a geladeira do vizinho é maior; marido, o fogão do vizinho é mais bonito. ‘Mulher só que ser o que não se pode ser’(…)

Nhô Cabloco veio a falecer em 1976 com uma gripe que se agravou bastante por conta das suas extravagancias no comer, beber e dormir. Ele também tinha uma deficiência cardíaca, cujos sintomas começaram a aparecer desde cedo, mas que para os conhecidos era apenas uma das muitas excentricidades que ele tinha, como dormir sentado numa espreguiçadeira. (ele dizia que caboclo só dorme assim).

Nos dias atuais encontramos pouquíssimas peças dele espalhadas no Brasil, em algumas coleções particulares e poucos museus. Uma pena, pois sua produção era intensa, mas talvez muita coisa tenha se perdido no tempo e nas ruas por onde viveu e produziu o seu trabalho. Nhô Caboclo está presente no Museu do Homem do Nordeste-Recife-Pe, Museu Cais do Sertão-Recife-Pe, Museu do Pontal-Rio de Janeiro-RJ. Museu Afro Brasileiro-São Paulo- SP, entre outros.

navegar é preciso…pedras portuguesas nas ondas desse mar

Você sabia que a calçada tão famosa no mundo todo, a de Copacabana, é idêntica a uma outra na cidade de Manaus e outra no outro lado do Atlântico? Isso sem contar que o seu desenho é encontrado e replicado em todo mundo em vários suportes, de revestimento de piso ao teto, em objetos e até acessórios de moda. Assim, em escala, talvez seja o terceiro ícone propagado como um símbolo máximo da cidade do Rio de Janeiro, atrás do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar.

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Fotografia sem crédito

Pois a história desta calçada ícone e não única é bem curiosa e eu fui atrás para poder contar aqui.

Nas minhas andanças pelo centro do Rio de Janeiro, onde encontramos vários e lindos desenhos nas pedras portuguesas, eu gostava de olhar para chão. Não, não pensem que era medo de tropeçar, embora as pedras portuguesas são ‘vingativas’ nesse sentido, caso não cuidem delas com uma devida manutenção! Na realidade era mesmo paixão em admirar tamanha beleza e arte. As pedras no entorno da Candelária são belíssimas!!!!

Os transeuntes já sabem como andar por elas, principalmente as mulheres que trabalham no Centro, de salto. Vão ao trabalho com sandálias rasteirinhas, e, assim que chegam aos escritórios, colocam os seus sapatos bicos finos e salto agulha, inimigos número um das pedras portuguesas.

Pereira Passos, nas enormes mudanças que realizou no Rio de Janeiro, importou as pedras e o seu know-how para aplicá-las, através dos Mestres Calceteiros portugueses . Descobriu-se posteriormente enormes jazidas de calcário branco e basalto no Brasil, mas a denominação da pedra permaneceu. Hoje, suas extrações são variadas e espalhadas por todo o país, mas é de se destacar o Paraná como um dos maiores fornecedores.

Muitas pessoas pensam que as pedras são de difícil manutenção ou acham que são de “uma época”, então acabam destruindo um trabalho secular, que tem uma duração como nenhum outro material de revestimento, basta ver as antigas e lindas calçadas de Lisboa. Como as pedras não levam cimento e a arte é justamente juntá-las o máximo possível para o bom encaixe, se há necessidade de reparo de alguma coisa abaixo do solo, elas são fáceis para remoção e reposição, sem perda de material.

 

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Mestre Calceteiro

Num texto antológico de Cora Rónai para o Globo, em 14 de maio de 2009, ela diz: …A única “desvantagem” das pedras portuguesas em relação aos outros tipos de calçamento é o custo. Elas são muito mais baratas e, por conseguinte, muito menos lucrativas para quem faz as obras. Nós sabemos o que significa o custo Brasil, mas, sinceramente, já estava na hora de isso mudar! Muito melhor e mais barato do que desfazer todas as calçadas e enfear o Rio era criar um curso permanente de calceteiros, que formasse mão de obra especializada no assentamento de pedrinhas. Fazendo a coisa certa, em breve poderíamos até exportar know-how, já que, por acaso, temos as calçadas mais famosas do mundo.

Voltando ao desenho das “ondas” de Copacabana….Tudo começou no outro lado do Atlântico, em 1848. Um piso semelhante foi posto, em padrões ondulantes, por ocasião da construção da Praça de D. Pedro IV, mais conhecida como Praça do Rossio, em Lisboa. Dizem que seu desenho foi escolhido para homenagear o encontro das águas doces do Rio Tejo com o Oceano Atlântico, e que foi um dos primeiros pavimentos com este desenho em Lisboa

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Voltemos ao Brasil. Em Manaus, a calçada do Largo São Sebastião foi feita em 1901, mas já estava planejada desde a década de 1880, quando o Teatro Amazonas, concluído em 1896, começou a ser pensado. A data que marca a finalização do piso em Manaus está numa nota de rodapé do livro “História do Monumento da Praça de São Sebastião”,  de Mario Ypiranga Monteiro.

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Largo de São Sebastião, com Teatro Amazonas, em Manaus. Foto antiga da Biblioteca Virtual do Estado do Amazonas

Baseado na natureza do lugar, os moradores de Manaus falavam que o desenho de sua calçada simbolizava o encontro da água escura do Rio Negro com a água barrenta que chega pelo Solimões. Os rios levam quilômetros para se misturar completamente, formando o Amazonas.

No Rio de Janeiro, enquanto capital do Brasil ainda no início do século 20, vimos a construção da primeira calçada de ladrilhos com os padrões ondulantes. A Avenida Rio Branco, antiga Avenida Central, foi coberta com pedras portuguesas em toda sua extensão.

Na praia de Copacabana a construção foi da mesma época, entre 1905 e 1906, e a referência, dizem, foram as ondas do mar, embora a dureza das ondas posicionadas transversalmente deixasse a desejar na definição de balanço das ondas.

Depois de uma forte ressaca, que acabou com todo seu calçamento, do Leme até o Forte, ela foi reconstruída com suas ondas paralelas ao mar.

 

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Reconstruída paralelamente ao mar, foto de 1947

Ao contrário do que muitos pensam, ser de Burle Marx o desenho das ondas, o paisagista apenas interviu no paisagismo e desenho do canteiro central, quando foi chamado para modernizar a Avenida Atlântica. A ideia era que os desenhos pudessem ser visto do alto. Ele usou magistralmente pedras coloridas em contraponto ao preto e branco já existente, realizando um diálogo belo entre os desenhos. A avenida então foi alargada e duplicada no fim dos anos 1970 e suas icônicas “ondas” permaneceram com uma pequena mudança no aumento das suas curvas, criando assim o efeito de ‘balanço’ que ficou conhecido no mundo todo.

E assim suas ondas já foram cantadas em prosa e verso, e sua fama ultrapassou os mares e as outras iguais. Copacabana se tornou única!

 

 

 

Poeta de formas e da palavra.

A criatividade sempre vai acontecer dentro de um contexto, dentro de um campo pré-definido, um campo simbólico de ação. Isso pode incluir muitas coisas, matemática, física, cosmologia, escrever, e normalmente isso vai envolver uma pessoa, um grupo, que faz certas incursões nessa área ao ponto de modificar visualmente um aspecto da estrutura da área, criando algo que é notavelmente diferente, ou pelo menos enriquece de certa maneira ou traz um ângulo de pensamento que até então não existia. (Charles Watson)

O que faz a real criação e um real artista? As palavras acima grifadas foram ditas por Charles Watson, Irlandês, que adotou o Brasil, especificamente a cidade do Rio de Janeiro para morar, e trabalha com a investigação de processos criativos.

Suas palavras me levam a década de 1980 quando costuma ir para a cidade de Caruaru em Pernambuco, ver sua feira e visitar o Alto do Moura. O bairro do Alto do Moura é um pouco afastado do centro da cidade e é lá onde prolifera a produção do artesanato no barro, tendo Mestre Vitalino como o precursor desse trabalho. Nos dias atuais são dois nomes ícones que encabeçam a escultura do barro em Caruaru, Mestre Vitalino e Mestre Galdino.

Nessas minhas viagens,  Mestre Vitalino já havia morrido e a única coisa que encontrávamos por lá era o legado que ele havia deixado, principalmente para sua linhagem. Todos, sem exceção, copiavam o estilo dele. Modificam um coisa aqui, outra acolá, na escala, ou cores, nos bonecos que representam a cultura do lugar. E por mais que fosse bonito, passava a sensação de uma produção em grande escala e não chamava a minha atenção.

Por essa época, numa dessas viagens, conheci Galdino. Figura que era tida como “meio louca” no povoado, que ia na contramão da produção em voga, mas que para mim, era uma figura especial, com um trabalho mágico, que continha um diferencial no meio dos iguais. Tinha um universo e alma próprios, cheio de estórias para contar de cada peça. Fiquei apaixonada!

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Mestre Galdino em frente a sua casa

Ao começar a escrever este texto resolvi não só me basear pelas minhas impressões e memória afetiva, visto que elas eram tendenciosas na escolha primordial do meu olhar, precisava ver outras referencias sobre ele, talvez assim faria um texto mais “isento”. Fui consultar um livro que me marcou desde a primeira vez que o li, que para mim era a “ bíblia” do artesanato nordestino numa época em que não se dava voz ao artesão, não se conhecia muito do trabalho deles. Por um bom tempo achei que havia perdido este livro nas mudanças da vida. Comprei outro recentemente no sebo, pois a edição já estava esgotada. Acabei achando o primeiro e fiquei com dois exemplares. Este livro maravilhoso se chama “O Reinado da Lua”- Escultores Populares do Nordeste, de Silvia Rodrigues, Flávia Martins e Maria Letícia Duarte. Qual minha surpresa e ao mesmo tempo decepção ao descobrir que Mestre Galdino não estava lá!. Folheei por umas três vezes e só na última descobri apenas uma pequena citação no meio da fala de um filho mais velho de Vitalino, o Amaro, que dizia:

“O barro eu pego com Manuel Galdino, que é meu colega de arte. Ele é muito bom, faz máscaras. O trabalho dele é diferente do da gente. Ele não faz os bonecos que nós fazemos nem a gente faz os dele. Meu trabalho eu boto na sua casa. Quando vendo, dou agrado para ele…

Então vejam só, nem foi mapeado como artista popular para o livro e talvez ainda não fosse  valorizado como artesão, vide a fala enfatizando sua criação ser “diferente da da gente” e que “dava agrado”, quando havia vendas na casa dele. Fiquei triste e sem entender o porquê dessa ausência, já que para mim ele era a presença que mais brilhava e tinha luz própria naquele contexto.

Quando você o visitava e começava a olhar uma peça, ele imediatamente se aproximava e começava a contar a estória da peça, que ia de seres extra terrestres à visões de santos e entidades, quase numa explosão de delírio e alegria. Declamava versos parecendo um personagem de cordel e o mote do repente era o significado de cada peça. Ele dizia que as peças falavam com ele e ele com elas. Falava com paixão da arte de esculpir e queimar o barro. Que tinha o tempo de esculpir, de deixá-lo secar, de esperar mais um tempo para pô-lo no forno, de esperar depois de esfriar para sair do forno, todo um ritual de respeito à própria criação que, diz ele, “saíria encruada e feia”caso não seguisse o ritual.

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Escolher uma peça dava trabalho, porque eram muitas e ricas com as estórias de cada uma delas cheias de personalidade. E, em resposta sobre o porquê o seu trabalho não se enquadrava nas influência de Mestre Vitalino, ele declamava:

Galdino é bonequeiro/ e sou poeta também/ tem boneco em minha casa/ que bonequeiro não tem/ na arte só devo a Deus/ lição não devo a ninguém.

Tal qual o grande artista Bispo do Rosário, que por muito tempo viveu como um pária da sociedade, e dizia conversar com Deus,  ele era compulsivo na arte de criar. Galdino teve reconhecimento tardio. Mas quando descobriu a arte na sua vida, produziu como ninguém, nunca repetindo uma peça. Antes da descoberta do barro ele trabalhou com várias coisas, inclusive como pedreiro.  O fato da paixão pelo barro aconteceu quando foi fazer obra no Alto do Moura e viu a produção dos artesãos. Desejou começar a trabalhar com aquilo, principalmente porque via os artesãos vendendo sua peças aos turistas e ganhando três vezes mais do que ele. Então, consciente de sua condição, decidiu frequentar os ateliês e pedir ‘bolinhos’ de barro para os amigos. Ele passava o dia revestindo o posto de saúde como pedreiro e no período noturno iniciava sua segunda jornada de trabalho, como ceramista. Ele disse que a primeira vez que sentou para criar, pensou consigo mesmo: Senhor, pelo amor de Deus, faz de mim um ceramista, eu to passando tanta necessidade! Apesar de eu ser tão pecador, faz de mim um ceramista, pra eu sair dessa miséria que eu vivo!

Ele falou que não sabia se foi um pensamento dele, mas para ele o Deus apareceu dizendo: Galdino, tu vai ser um ceramista!…Mas eu desconfio que no momento que eu nasci Jesus é que deve ter dito: Galdino, tu vai ser um ceramista!

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Galdino forjou um mundo próprio com o barro. Muitos críticos ainda hoje tentam classificar seu estilo. Suas imagens antropofágicas, híbridas, oníricas, já foram rotuladas de incomuns, surreais, grotescas, “os bichos feios de seu mané”. Em seu estilo próprio, ele misturou a mitologia tradicional com a recente, somou arquétipos universais com o imaginário nordestino. As imagens observadas no seu cotidiano e a sua imaginação aguçavam sua percepção para criar as figuras impressas no seu inconsciente e reconhecidas por ele como a ‘parede de seu juízo’. Ele costumava quebrar as peças que não saiam iguais as de seus sonhos. Para mim não importa classificá-lo, rótulos apenas para catalogá-lo e engessá-lo em categorias. Para que? O que importa é o fato  que Galdino foi Galdino o tempo inteiro, mestre criador, íntegro, um verdadeiro artista!

SE CRIA ASSIM

Quem cria tem que durmi

Pensar bem no passado

De tudo ser bem lembrado

Tirar do Juízo como louco

Ter a voz como um pipoco

Ter o corpo com energia

Ler o escudo do dia

Conservar uma oração

Fazer sua oração

Ao deus da puizia.

Deve durmi muito cedo

Bem mais cedo acordar

Muito mais tarde sonhar

Muito afoito e menos medo

Muito honesto com segredo

Muito menos guardar

Muito mais revelar

Pra ter mais soberania

Muito poca covardia

Não durmi para sonhar

(Poema de Mestre Galdino)

Galdino morreu pobre e doente em 1996. A pobreza sempre fez parte da sua vida mesmo depois do reconhecimento e de ter participado de muitas mostras, inclusive no exterior. Destaque para a participação na exposição “Brésil Arts Populaires” no Grand Palais, Paris- 1987. Muitas vezes, por necessidade de dinheiro, vendia suas peças a preços irrisórios. Às vezes cobrava um preço justo, mas não conseguia vender porque não era para o bolso do turista comum que ia ao Alto do Mora comprar artesanato.

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Dizem que ao morrer do coração aos 72 anos, tendo apenas 21 de produção intensa, pois começou sua arte aos 51 anos, havia ainda muitas peças na sua casa, pois mesmo doente ele se levantava e produzia dizendo que nem sentia que estava doente. Foi aconselhado aos filhos que guardassem essas peças para no futuro terem algo do pai. Reza a lenda que um belo dia chega alguém lá e consegue ‘catequizar’ um dos seus filhos a vender todas elas, foi pago por elas um preço irrisório.

Outra perda é do seu caderno de notas. Havia escrito para mais de mil estórias, rimas, poemas. Outro filho relata que estava sob posse de um irmão, que acabou cedendo o caderno a uma mulher, com promessas de escrever uma história do pai. Eles nunca mais tiveram notícias desse caderno. Dos três filhos só resta o Joel, que, enquanto o pai estava vivo, tentou repetir o estilo dele, mas nunca conseguiu chegar aos  seus pés. Não se imita um verdadeiro artista! Galdino continuará a ser Galdino, único, sem discípulos e agora sem matéria.

 

 

Ilha do Ferro-beleza e silêncio às margens do Rio São Francisco

Eu e uns amigos fizemos uma viagem para Ilha do Ferro, Sertão de Alagoas, pois queríamos conhecer os artesãos que vivem lá e produzem seu rico artesanato.

Viajar pelo sertão de Alagoas é uma experiência impar, pois, apesar de vermos na maior parte do percurso uma paisagem árida, ao chegarmos ao município de Pão de Açúcar é surpreendente encontrar o Rio São Francisco. Nessa hora nos perguntamos como pode haver tanta água em contraste com tanta seca.

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margem do Rio São Francisco em Pão de Açúcar

Pão de Açúcar é um município incrustado às margens do São Francisco. Seu nome original era Jaciobá, nome Guarani que significa “ Espelho da Lua “. Depois da passagens dos índios Uramaris e Chocó, a região passou a ser domínio de um português chamado Lourenço José de Brito Correia. Ele, proprietário das terras, passou a chamar a região de Pão de Açúcar por conta de um morro onde se fazia o processo da clarificação do açúcar.

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Apesar do nome ter sido batizado por este motivo, é difícil não pensar que a beleza do Rio de Janeiro, com seus símbolos mais famosos como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, não tenham influenciado a população para juntar ambos em um só lugar. A inauguração da estátua de 10 metros de altura do Cristo, em cima do morro, foi em 1950. Também talvez seja mera coincidência que o outro lado do Rio São Francisco, já estado de Sergipe, tenha uma comunidade que se chama Niterói. Coincidências à parte ou não, a saudade bateu! Pensei: aonde eu vá, de Lisboa ao sertão das Alagoas, encontro referências da cidade que fui feliz nos oito anos em que morei, ela sempre teima em estar presente, seja na memória, seja nessas paisagens, nesses Cristos de braços abertos.

Na região há sítios arqueológicos, histórias da passagem de D. Pedro II, além de ter sido a rota do cangaço de Lampião e seu bando.

Seguimos numa estrada de barro até a Ilha do Ferro, que fica a 18km de Pão de Açúcar. Ao contrário do que diz o nome, não é uma ilha e sim continente. O acesso para lá é de barco, pelo Rio São Francisco, ou carro, por uma estrada de barro seco e na caatinga encontramos mandacarus, umbuzeiros e algorabas. Há beleza e silêncio nessa paisagem.

As casinhas são lindas em ruas estreitas, algumas debruçadas sob o rio São Francisco, outras morro acima. O rio é uma preocupação diária dos povos ribeirinhos que ficam apreensivos com as mudanças que têm acontecido no seu leito. Os moradores sabem que precisam desse rio, que é de lá que tiram seu sustento: “É muito forte isso de retratar o nosso lugar. Fico pensando então como vai ser se o Velho Chico morrer. Diziam que o Rio São Francisco ia virar um poço, e agora acho que de fato vai virar mesmo. Quem sabe nossas futuras gerações, os meus tataranetos, não vão alcançar isso? Eu faço economia de água, faço economia de energia, tudo para ver se a situação não piora. Acho isso aqui lindo. Vai ser uma pena se acontecer”. Palavras de Rejânia Rodrigues, bordadeira, casada com Valmir Lessa, escultor.

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Banco de Fernando Rodrigues

Rejânia é filha de Fernando Rodrigues, pioneiro na produção de obras esculpidas nas raízes e troncos de uma árvore chamada Craibeira, encontrados na natureza. O mestre, que faleceu há oito anos, deixou um legado com nomes fortes de talento e criatividade. Aproximadamente 25 homens trabalham com o artesanato em madeira atualmente, seguindo o caminho que o mestre ensinou.

Mestre Fernando Rodrigues foi o pioneiro no ofício de esculpir na madeira. Seus discípulos buscam na matéria-prima morta e descartada na natureza fonte de inspiração, dando forma às peças de decoração e utensílios como cadeiras, objetos de arte, mesas, bancos e o que mais o impulso criativo de cada artesão permitir.

Mestre Valmir Lessa, genro de Fernando Rodrigues, é um dos artesãos que imprime sua marca na madeira. Ele fala que é preciso verificar se existem espinhos e se o galho e o tronco “dão forma”, antes de recolher a matéria-prima. O olhar precisa ser atento, perceber formas onde, para a maioria das pessoas, há apenas troncos retorcidos. “A maioria das coisas já vem pronta. Já são feitas pela natureza. Tem uma cadeira aqui que eu só coloquei o pé. O povo diz que eu sou bom, mas eu olho a madeira morta e digo: ‘Isso aqui vai dá um pássaro. Ou, isso aqui dá uma cadeira’. Enxergo o que já existe ali. O dom é só de conseguir ver o que já vem pronto”.


Bebendo na mesma fonte, os artesãos buscam a originalidade em pequenos diferenciais. Se a especialidade de Valmir são as cadeiras, Mestre Aberaldo tem como principal produção os banquinhos e os famosos bonecos de madeira, pássaros também estão entre os preferidos do artesão.

Além das peças esculpidas em madeira pelos homens, há o bordado de Boa Noite, uma joia rara feito pelas mulheres do local, que constitui uma alternativa de renda. Boa Noite é o nome de uma singela flor da região.

Sem dúvida alguma, o trabalho das mulheres da Ilha do Ferro tem um significado especial. Além de trazer ao público uma das mais belas técnicas de bordado do nosso país, essa produção é, hoje, elemento de agregação e valorização de toda a comunidade.

Na nossa passagem pela Ilha, quase não encontramos nada para ver ou comprar. Para o bem ou para o mal a Rede Globo “ descobriu” o talento dos artesãos e quase tudo que eles tinham foi vendido para participação na novela das oito. Fico cá pensando que a descoberta desses talentos por um maior número de pessoas é uma coisa muito boa para o artista, mas, as perguntas que vêm imediatamente à mente é: Será que com isso eles conseguirão permanecer íntegros na sua criação? Será que esse súbito interesse da classe média emergente urbana, possuidora de outros gostos que não o universo dos artesãos, os farão sucumbir às imposições do mercado? São perguntas bem delicadas para serem observadas no decorrer do tempo.

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Mestre Aberaldo trabalhando

A Ilha do Ferro é ainda e apesar de tudo um cenário bucólico de vida tranquila e longe da algazarra de uma cidade grande. A cidade parece parada no tempo. Os artesão são de uma gentileza e pureza de espírito. Penso que talvez a dificuldade para chegar lá, a paisagem inóspita, não atraiam um turismo de massa. E isso, no meu ponto de vista é bom. Talvez a viagem seja para alguns interessados em ver a cultura e as coisas lindas produzidas por um povo que se orgulha de pertencer a um lugar. Que o rio São Francisco estanque sua vazão e ainda abençoe por muito tempo com suas águas caudalosas essa comunidade tão bonita, rica e criativa.

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banco feito por Bedéu

“Tempo esse grande escultor”

Capela, Zona da Mata em Alagoas, cidade onde meu pai nasceu e que sempre ia quando eu ainda era criança. Na casa da minha avó sempre brincávamos de fazer bonecos e panelinhas de barro.

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Bom revisitar o passado depois de tanto tempo e encontrar um espaço como o Art do Barro do João das Alagoas. Como estava em viagem para visitar outros artesãos no sertão Alagoano, resolvi parar lá e conhecer melhor o trabalho dos mestres do barro de Alagoas.

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O espaço é uma casa simples de cimento batido numa rua sem saída onde encontramos no final um curral de bois. A paisagem é bucólica como se estivéssemos parados no tempo.

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João das Alagoas, Sil, Nena, são alguns dos nomes que imprimem seus universos imaginários na matéria do barro. Além deles, os filhos de João também seguem esse caminho de modelar e ensinam aos jovens de cidade o ofício e os segredos do barro. Sim, porque a matéria guarda seus segredos. Me lembro bem quando modelava minhas pequenas peças, tinha que ter paciência, pois era necessário um tempo para todas as etapas, além de ter um barro de qualidade para amalgamar, pois alguns não davam “a liga”. Tempo para modelar, tempo para secar, tempo para queimar no forno à lenha…tempo, tempo, tempo, tempo, “ Tempo esse grande escultor “, já dizia Yourcenar.

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João nos recebeu com uma cordialidade e simplicidade típicas das pessoas que moram em interior. Para de trabalhar e vai mostrando todo espaço, que, apesar de levar seu nome, é um atelier coletivo e reúne todos os mestres e discípulos.

Na sua generosidade vai mostrando cada peça, as suas e as dos outros também, mas a explicação do sentido de cada peça ele só dá para as suas, é claro.

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Mestre no modelar de lapinhas e na religiosidade de seu povo, tem sua marca registrada no “Boi Bumbar “, esculpidas em pequenas e grandes peças, com saias trabalhadas em alto e baixo relevo, representando histórias do folclore nordestino, dos casamentos, dos batizados e das mais típicas brincadeiras de rua das crianças brasileiras. João recebeu, em 2011, o título de Patrimônio vivo do Estado de Alagoas.

 

Sil é uma escultora que modela o barro diferente de João, com detalhes riquíssimos que mais parecem rendas. Suas personagens têm uma riqueza na indumentária, e, até mesmo quando não cria personagens, apenas frutas, são peças ricas nos pequenos detalhes.

 

Nena já tem uma estética um pouco parecida com a do João, mas difere quando modela seus temas em enormes peças que parecem Torres de Babel.

O mais bonito é ver como eles podem “contaminar” uns aos outros no seu dia a dia, principalmente vendo os jovens interessados no ofício, tentando criar suas próprias assinaturas. Isso é saber repassar o ofício, sem pequenez nem mesquinharias. Um lindo trabalho desse povo.